IA no Brasil: acabou o “FOMO”, começou a cobrança por resultado

Com capital escasso, a vantagem brasileira está em transformar IA em eficiência e negócio

Daniel Bichuetti Karina Lima Philipe Moura

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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A inteligência artificial vive um momento curioso. No Brasil, a tecnologia deixou de ser restrita a nichos técnicos e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas. A pesquisa Consumo e uso de Inteligência Artificial no Brasil, da Infobip com o Opinion Box, mostra que 70% dos usuários recorrem à IA para apoiar atividades de trabalho, lazer e estudo — e 50% já aplicam a tecnologia diretamente no contexto profissional. Ao mesmo tempo, 69% ainda utilizam apenas versões gratuitas das ferramentas, sinal de que o mercado está em um estágio inicial de maturidade e monetização.

Esse avanço no uso convive com um movimento igualmente relevante no mundo corporativo. Depois de uma fase de aceleração impulsionada pelo FOMO (fear of missing out, ou medo de ficar para trás), o ecossistema entra em um estágio mais seletivo: projetos deixam de ser movidos apenas por pressão executiva ou marketing e passam a ser cobrados por retorno mensurável para o negócio.

Esse movimento marca uma mudança de maturidade. A pergunta deixou de ser “como usar IA” e passou a ser “onde ela realmente funciona”. É nesse contexto que a IA vertical começa a se consolidar como um caminho ao mesmo tempo promissor e desafiador para as empresas brasileiras.

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Se no início a lógica era aplicar modelos generalistas em qualquer contexto, a prática mostrou suas limitações. Em setores mais sensíveis e regulados, como jurídico, saúde e financeiro, precisão, contexto e responsabilidade pesam mais do que velocidade ou “novidade”.

Por que a maioria dos projetos de IA falha

A distância entre expectativa e execução ainda é grande. O relatório The GenAI Divide: State of AI in Business 2025, do MIT, aponta que apenas 5% dos programas piloto de IA conseguem impulsionar rapidamente a receita. Estudos recentes de Goldman Sachs (2024), Gartner (2024) e BCG (2024) vão na mesma direção: muitos executivos seguem insatisfeitos com o retorno sobre investimento de seus pilotos e projetos de IA.

Isso reforça que o desafio não está no acesso à tecnologia, mas na forma como ela é aplicada.

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Grande parte das iniciativas ainda se limita a “embalar” modelos existentes, sem domínio real sobre a tecnologia ou sobre a cadeia de valor em que ela se insere. São soluções que funcionam bem em demonstrações, mas não sustentam vantagem competitiva no longo prazo.

Nesse novo estágio, ainda nascente, começa a ficar claro que a IA que traz resultado não é necessariamente aquela que treina os maiores modelos, mas a que controla elementos críticos: base de dados proprietária, integração profunda no fluxo do usuário e uma aplicação que resolve um problema real com desempenho superior.

A régua subiu muito rápido.

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Infraestrutura, dados e capital

A infraestrutura de IA conecta tecnologia, estratégia e geopolítica em escala global.

Desenvolver IA em escala exige equilibrar três variáveis: acesso a dados, capacidade computacional e investimento contínuo. GPUs seguem sendo um recurso crítico e escasso, e o custo de infraestrutura ainda é uma das principais barreiras de entrada — e de sobrevivência — para quem busca desenvolver tecnologia própria.

Esse cenário reforça o papel das grandes plataformas globais. A inovação em IA não acontece de forma isolada: depende de um ecossistema internacional em que nuvem, chips, ferramentas e canais de distribuição operam de forma integrada. Sem esse suporte, a inovação não escala.

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Na prática, a arquitetura de valor da IA já está organizada em camadas: infraestrutura na base, ferramentas no meio e aplicações verticais no topo. É nesse topo que as oportunidades mais tangíveis emergem no curto prazo — e onde começa um ciclo virtuoso.

Soluções como a Forlex ilustram essa dinâmica ao desenvolver uma IA vertical com um propósito claro: reduzir a sobrecarga do sistema judiciário e devolver eficiência e, consequentemente, humanização à prática do Direito. Esse tipo de aplicação só se torna viável quando conectado a uma infraestrutura robusta e escalável, como a oferecida por players globais, a exemplo da AWS (Amazon Web Services), que não apenas fornece capacidade computacional, mas também acelera o go-to-market e a inserção internacional dessas startups.

Ao mesmo tempo, o capital de risco passa a operar de forma mais sofisticada, direcionando recursos para negócios com fundamentos claros: dados proprietários, integração profunda ao fluxo jurídico, qualidade superior nas respostas, eficiência econômica e acesso a canais de distribuição. Esses fatores são decisivos para embasar a alocação de recursos.

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Quando todos esses vetores operam de forma coordenada, a IA deixa de ser experimento e começa a se consolidar como infraestrutura de valor — movimento chancelado por aportes de fundos como a Vinci Ventures.

O diferencial brasileiro: adaptação como estratégia

Se o acesso a capital e infraestrutura ainda é mais restrito, o Brasil tem uma vantagem menos óbvia e potencialmente mais relevante: a capacidade de adaptação.

Em ambientes com restrições e escassez, empresas brasileiras foram forçadas a desenvolver soluções mais eficientes, orientadas a valor e com foco em problemas concretos. Isso ajuda a explicar por que o país vem se destacando mais na aplicação de IA do que na construção de modelos fundacionais.

O empreendedor brasileiro se preocupa menos em criar a próxima OpenAI e mais em resolver fricções reais em setores complexos.

Essa dinâmica é reforçada por outro fator: a adoção. A IA se popularizou primeiro no consumo, com penetração alta entre pessoas físicas, antes de avançar para o ambiente corporativo. Isso reduz resistências internas e acelera a incorporação da tecnologia no dia a dia das empresas.

Do FOMO aos critérios para investir em IA útil

Esse amadurecimento também aparece na forma como o capital de risco olha para o setor.

Se antes predominava o FOMO — o medo de ficar de fora — agora ganha espaço um olhar mais criterioso, com maior rigor técnico e análise de fundamentos. Investidores passaram a diferenciar melhor soluções com potencial estrutural daquelas que apenas dependem de modelos de terceiros.

A discussão deixou de ser “usar IA” e passou a ser “onde está o moat”. O moat, ou fosso econômico, é a vantagem competitiva que permite a uma empresa defender seu mercado e ganhar participação de forma consistente.

Hoje, cinco elementos tendem a definir uma IA defensável:

  1. Dados proprietários
  2. Integração no fluxo de trabalho
  3. Qualidade superior em contextos específicos
  4. Eficiência econômica
  5. Acesso privilegiado à distribuição

Sem esses pilares, o risco de virar commodity é alto.

IA saindo do hype e virando infraestrutura — como a eletricidade

Parte da confusão atual vem de uma analogia equivocada. A IA não se comporta como a internet ou o mobile. Sua natureza é mais próxima da eletrificação: uma tecnologia transversal, que não apenas cria novos mercados, mas reorganiza todos os existentes.

Nesse cenário, a IA tende a deixar de ser diferencial competitivo e passar a ser condição básica de operação.

Não será impossível atuar sem IA, mas será economicamente irracional.

Empresas que não incorporarem essa camada perderão eficiência estrutural, competitividade e velocidade de resposta. A tecnologia deixa de ser opcional e passa a ser “embutida” em toda a cadeia produtiva.

O que vem pela frente: consolidação, não colapso

Apesar das discussões sobre uma possível bolha, o cenário mais provável não é de colapso, mas de consolidação.

O mercado deve passar por um processo de seleção natural, com mortalidade de startups, fusões e aquisições e uma alocação de capital mais criteriosa. Ao mesmo tempo, grandes players continuam investindo pesado em infraestrutura, em um jogo de longo prazo que envolve uma nova dualidade: mercado e soberania tecnológica.

Há, porém, um sinal claro de maturidade: a receita de IA começa a sair de um circuito fechado — em que empresas compram infraestrutura, desenvolvem tecnologia e reinvestem no mesmo ciclo — e passa a vir de aplicações conectadas a ganhos concretos de produtividade e eficiência.

Oportunidade brasileira: aplicar melhor, não competir igual

Para o Brasil, o desafio não é liderar a corrida por modelos fundacionais, mas ocupar um espaço estratégico dentro dessa nova arquitetura global.

A oportunidade está na interseção entre aplicação prática, conhecimento local e capacidade de execução. Em um cenário em que a tecnologia de base tende à comoditização, o valor migra para quem resolve problemas reais com profundidade.

A IA vertical não é apenas mais uma tendência: é, cada vez mais, o caminho natural para transformar tecnologia em impacto e retorno.

Nesse jogo, o Brasil talvez não seja o maior produtor de infraestrutura, mas tem todas as condições para ser um dos mais eficientes em transformar IA em negócios altamente escaláveis.

Daniel Bichuetti

Co-CEO e CTO da Forlex

Karina Lima

Head de Startups da AWS Brasil

Philipe Moura

Fundador e investidor-líder da Vinci Ventures