Hidrogênio Verde no Brasil 2025: três urgências para transformar potencial em realidade concreta

A transição energética não será bem-sucedida se não for planejada de forma coordenada

Fernanda Delgado

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Mary, personagem de "Estrelas Além do Tempo", apela à Justiça para estudar (Foto: Divulgação/Fox)
Mary, personagem de "Estrelas Além do Tempo", apela à Justiça para estudar (Foto: Divulgação/Fox)

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No filme “Estrelas além do tempo”, a personagem Mary Jackson (engenheira em formação da NASA) vai à corte norte-americana para convencer o juiz que precisa de uma autorização individual, para que ela curse disciplinas de engenharia em uma escola apenas para brancos na Virgínia segregacionista. O ano é 1960.

Para se tornar engenheira da NASA, Mary explica ao juiz que precisa cursar disciplinas específicas em uma determinada universidade, o que, na época da segregação racial, seria impossível. Estrategicamente, a personagem não confronta o juiz diretamente, mas, apela para a vaidade e para o senso de legado dele, dizendo que em 100 anos ele seria lembrado como primeiro juiz do estado a autorizar uma mulher negra a estudar naquela instituição, deixando seu nome na história.

Mary reforça seus argumentos mostrando que não quer favores, mas oportunidade: deixa claro que não está pedindo para quebrar a lei, mas para usar a própria lei para permitir que ela avance profissionalmente e contribua com o país, especialmente em plena corrida espacial.

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O juiz, convencido, concede a autorização parcial: ele decide permitir que Mary curse as aulas, mas com limitações — por exemplo, apenas as disciplinas necessárias e em turno noturno, mantendo formalmente a estrutura segregada, mas abrindo uma exceção decisiva. O filme é excelente.

Corta-se o tempo para o relatório Energy Policy Review – Brazil 2025, da Agência Internacional de Energia (IEA), que oferece um retrato detalhado e urgente do sistema energético brasileiro. Nele, a IEA reconhece a notável competitividade climática do país – com uma matriz elétrica de baixíssima intensidade de carbono (média de apenas 75 gCO₂/kWh, uma das menores do mundo) –, mas também aponta desafios estruturais que podem comprometer a capacidade de liderar a transição para uma economia de baixas emissões, em especial no mercado estratégico de hidrogênio verde. 

Adicionalmente, como o juiz do filme, a recente determinação presidencial brasileira para a criação de um “mapa do caminho” rumo à redução da dependência de combustíveis fósseis e a instituição de um Fundo de Transição Energética chega em um momento decisivo e que colocará seus personagens na história como únicos, disruptivos, na vanguarda da transição para uma economia de baixo carbono. E a pergunta é: como transformar as evidências do relatório da IEA e as diretrizes governamentais do mapa do caminho em ações concretas, capazes de garantir segurança energética, atratividade de investimentos e uma transição justa e ordenada que transforme o Brasil?

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A resposta está na atenção imediata a três eixos críticos, já destacados pela IEA e que têm sido foco prioritário do trabalho da ABIHV. Para que o Brasil deixe de ser apenas um gigante em potencial e se torne o líder global da transição energética como vetor de redução de emissões, é imperativo converter essas diretrizes em ações estruturantes.

A primeira urgência é a adoção efetiva de um planejamento coordenado de expansão, que integre explicitamente os eletrolisadores como novas cargas estruturantes. Segundo a IEA, a produção de hidrogênio verde demandaria um acréscimo na geração elétrica atual, exigindo grandes esforços da capacidade eólica, solar e hidráulica. Projetos de hidrogênio verde são muito mais do que demandantes adicionais de energia: representam grandes centros de consumo com impacto direto no dimensionamento da transmissão, na expansão da geração renovável e no reforço de hubs, como Pecém, Suape e Piauí. A IEA alerta que a expansão da rede leva, em média, sete anos – um prazo incompatível com o ritmo de implantação de usinas renováveis e de empreendimentos de eletrólise. Para que a demanda projetada de hidrogênio verde não esbarre na falta de infraestrutura, é imperativo antecipar a modelagem energética e assegurar que a expansão da rede seja sincronizada com os novos projetos. 

A segunda frente inadiável é a consolidação do Programa de Hidrogênio de Baixo Carbono (PHBC) e a criação de um mecanismo transparente de priorização de carga estratégica. A recente prorrogação do PHBC foi um avanço fundamental para dar previsibilidade aos investidores e alinhar prazos industriais com os cronogramas de expansão da rede. No entanto, é preciso ir além. Como a IEA aponta, o “caos na fila de acesso” é um gargalo estrutural. Assim, a defesa da criação de um instrumento técnico e transparente para priorizar projetos de interesse sistêmico, definir “cargas estratégicas” e alocar capacidade de transmissão de forma planejada – assegurando que os hubs de hidrogênio não sejam estrangulados por filas descoordenadas e disputas por conexão. 

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A terceira urgência é a aceleração do gerenciamento pelo lado da demanda e a reforma regulatória para garantir flexibilidade e segurança energética. O hidrogênio verde, por sua operação modular, pode e deve funcionar como uma “bateria virtual” para o sistema, aliviando rampas abruptas de geração solar e eólica, consumindo energia em horários de menor custo e prestando serviços ancilares indiretos. Em linha com a Recomendação 15 da IEA, o Brasil precisa implementar urgentemente leilões de flexibilidade e sinais de preço locacionais, criar mecanismos de Demand Response voltados à indústria e remunerar a modulação de carga dos eletrolisadores em benefício do SIN. Essa é uma das maiores vantagens competitivas do hidrogênio verde e ainda é subexplorada no planejamento nacional. 

Nesse contexto, o Fundo de Transição Energética – proposto no despacho presidencial – pode ser um instrumento vital, desde que direcionado para:

  1. financiar a expansão da infraestrutura de transmissão em hubs prioritários de hidrogênio;
  2. apoiar a implantação de mecanismos de flexibilidade, como armazenamento e resposta da demanda;
  3. fomentar a integração setorial em clusters industriais de baixo carbono.

O relatório da IEA é claro: o Brasil possui vantagens ímpares, mas os gargalos de transmissão, a rigidez do sistema e a falta de planejamento integrado representam riscos reais à competitividade e à segurança energética. A transição não será bem-sucedida se não for planejada de forma coordenada, com instrumentos regulatórios modernos e uma visão sistêmica de longo prazo. Assim como o juiz de Estrelas Além do Tempo, se o Brasil quiser ser lembrado daqui a 100 anos como disruptivo, inovador e vanguardista, terá ainda muito trabalho a fazer coadunando direção política, evidência técnica e ação imediata. 

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Fernanda Delgado

Fernanda Delgado é diretora executiva da ABIHV (Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde), liderando a missão de desenvolver a cadeia produtiva do H2V no país, com foco tanto na oferta quanto na demanda. Professora de pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e na Escola de Comando e Estado Maior do Exército, tem mais de 20 anos de experiência em empresas de destaque no Brasil e no exterior e também atua como Conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Sustentável da Presidência da República. Doutora em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, é autora de quatro livros e dezenas de artigos sobre o setor energético e geopolítica, além de coordenar programas de equidade feminina na área. Sua vasta experiência em gestão estratégica, fusões e aquisições e inteligência competitiva a capacitam a promover o hidrogênio verde como vetor de desenvolvimento e competitividade para a indústria nacional.