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A National Football League (NFL) prepara alguns jogos para um novo pacote de mídia que poderá ser vendido a potenciais parceiros de streaming, segundo pessoas ouvidas por Lucas Shaw, da Bloomberg.
A revelação surge na esteira do acordo entre ESPN e NFL Media: a liga garantiu ao canal quatro jogos antes exclusivos da NFL Network, como parte do acordo anunciado na última terça-feira.
Peter Kafka, do Business Insider, avalia que, sem sua própria rede, a liga tende a licenciar esses jogos para gigantes como a Netflix. Para Alexander Sherman, da CNBC Sports, trata-se de maximizar valor e testar engajamento.
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Relatório recém-divulgado pela Omdia reforça que a migração dos esportes para o digital é gradual. Apesar da narrativa sobre queda de audiência na TV, o levantamento do A Long Game mostra que cerca de 83% dos jogos da NFL entre outubro e dezembro serão transmitidos na TV aberta: ABC (Disney), CBS, NBC e Fox.
Outros 19 jogos (8% do total) estarão no Prime Video ou Netflix; 13 jogos serão exibidos pela ESPN; e apenas um — a abertura em São Paulo, em 5 de setembro — terá transmissão ao vivo no YouTube.
É nesse cenário fragmentado que a Globo negocia a entrada do futebol americano em sua grade. Segundo Marcel Rizzo, do Estadão, o desenho das negociações é:
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- Globo / SportTV / Globoplay: jogos internacionais, uma partida por domingo, playoffs da NFC e Super Bowl bienal
- ESPN: jogos noturnos, playoffs da AFC e Super Bowl alternado com a Globo
- RedeTV!: mantém transmissão na TV aberta
A provável entrada da Globo remete a 2006, quando ESPN e BandSports dividiram a NFL no Brasil, operando um formato com pacotes fragmentados, horários distintos e exclusividades por operadora que limitaram o crescimento do esporte.
Hoje, a lógica guarda similaridades, mas o cenário é outro: a NFL já é um produto consolidado no Brasil, com uma base de fãs em plena expansão (36 milhões de brasileiros), e a disputa migrou para um novo front: a guerra entre plataformas de streaming pelo engajamento dessa audiência
Luciano do Valle, BandSports e a formação de audiência para a NFL
Os primeiros registros de transmissão do futebol americano e da NBA na Bandeirantes remontam a 1985, com Luciano do Valle narrando a maioria das partidas ao lado de Sílvio Lancelotti e Elia Júnior. Ao final dos anos 80, a Rede Manchete também exibiu alguns VTs, incluindo o Super Bowl de 1989.
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Em 1991, a Bandeirantes criou a “Faixa Nobre do Esporte”, ampliando espaço para esportes americanos e introduzindo o futebol americano a uma nova geração de fãs, entre eles Paulo Mancha e Everaldo Marques, que mais tarde cobririam a NFL na ESPN.
Mancha resume: “O Luciano do Valle contribuiu muito. Quando a ESPN chegou nos anos 90, já existia uma base de público que conhecia o esporte.”
Esta é uma das histórias resgatadas do livro “Jarda após Jarda: a história do futebol americano na televisão brasileira”, escrito por André Lourenti Magalhães e publicado em 2018.
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As 203 páginas são um mergulho profundo na construção do futebol americano como produto midiático no país, e trazem relatos de protagonistas que viveram cada fase.
Seu valor está justamente em revelar como um esporte de nicho nos anos 1980 se transformou em commodity disputada por redes abertas, canais por assinatura e, agora, plataformas digitais.
Este artigo apoiou-se na obra e parte de um pressuposto claro: a guerra atual por direitos da NFL só faz sentido à luz dessa história. Os mesmos desafios dos anos 2000 – fragmentação de conteúdo, exclusividades, a dicotomia entre TV aberta e paga – ressurgem agora em novo formato.
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ESPN e BandSports: parceria e conflito por exclusividades
A ESPN brasileirizou suas operações em 2006, trocando transmissões dos EUA por estúdios em São Paulo. Na mesma jogada, a BandSports entrou no jogo, garantindo direitos parciais da NFL (partidas de domingo à tarde e metade dos playoffs).
Sem os direitos do futebol brasileiro (Globosat) ou do futebol internacional (ESPN), a BandSports resgatou a cartilha de Luciano do Valle nos anos 80: diversificação esportiva. Criou até o “Bandsports Football”, programa semanal que analisava os jogos às terças-feiras.
Naquele momento, a TV ainda era dominante: 97% dos lares tinham aparelho, mas apenas 5,36% possuíam assinatura. A internet estava em 14,5% dos domicílios.
As transmissões irreverentes muito antes da CazéTV
A expansão da internet nos anos 2000 beneficiou tanto as coberturas esportivas quanto o público. Na ESPN, o telejornal “The Book Is On The Table” – nome inspirado em um funk e no Casseta & Planeta – equilibrava informação e humor, ajudando brasileiros a decifrar as complexidades do futebol americano.
Importante notar: a linguagem descontraída não é invenção recente do YouTube. BandSports e ESPN adotavam tom leve muito antes da CazéTV:
- ESPN: Everaldo Marques e Paulo Antunes misturavam bordões, cultura pop e comentários engraçados
- BandSports: Ivan Zimmermann narrava com entusiasmo épico; Paulo Mancha contava histórias dos jogadores
A interação, feita inicialmente por e-mail e depois por blogs, antecipava o modelo de transmissão participativa que hoje parece novidade.
2011: o crescimento antagônico da NFL no Brasil
O livro revela um paradoxo: o grande salto do futebol americano no país começou com uma perda. Em 2011, a BandSports deixou de transmitir a NFL após não renovar direitos. O que parecia um revés, porém, abriu espaço para a ESPN dominar o cenário: assumiu as tardes de domingo (horário que era da concorrente) e garantiu um pacote robusto, com mais de 90 jogos por temporada, incluindo todos os playoffs e Super Bowl por três anos.
O movimento foi decisivo. Em 2012, a ESPN já operava seu canal ESPN+ (antigo ESPN HD) com foco em esportes americanos, especialmente o futebol universitário (produto natural dado os direitos da matriz americana).
E os números comprovavam o acerto: o Super Bowl entre Giants e Patriots registrou audiência 170% maior que a edição anterior na emissora. A NFL ganhava tanto espaço que a ESPN chegou a transmitir o Draft pela primeira vez no Brasil e até levou o jogo para o rádio, uma raridade no meio esportivo nacional.
Em um simbolismo forte do crescimento do esporte, o Super Bowl de 2012 marcou também o retorno do futebol americano à TV aberta após décadas, com transmissão pelo Esporte Interativo.
TV paga, streaming e o papel de hub esportivo
Relatórios e dados recentes mostram uma equação complexa: o streaming amplia alcance sem necessariamente canibalizar a TV tradicional.
Análise da PWC publicada no início deste ano diz que as transmissões digitais da NFL, embora com audiência menor que a TV, conseguem aumentar o público total, especialmente em horários alternativos.
Nos EUA, os números divulgados pelo balanço da Charter na semana passada revelam que o declínio da TV paga está desacelerando, com perdas caindo de 408 mil para apenas 80 mil assinantes em um ano.
Essa mudança reacende o papel das operadoras como hubs esportivos: o cabo pode não morrer, mas se transformar em nicho premium e agregador de propriedades.
No Brasil, a movimentação acompanha esse fluxo híbrido. A ESPN testará transmissões de futebol no YouTube com partidas fora da grade da TV paga. Enquanto a Globo prepara a GE TV no YouTube, reproduzindo a fórmula da CazéTV e oferecendo esportes ao vivo gratuitos em uma tentativa explícita de recuperar espaço e audiência jovem.
Passado como alerta, presente como oportunidade
O embate Globo vs ESPN reencena o roteiro de 2006, mas com diferenças cruciais: hoje, plataformas globais e criadores competem pelo mesmo fã. A NFL deixou de ser só um produto de transmissão e virou termômetro estratégico para três frentes:
- Agregação de audiências (TV + streaming + redes sociais)
- Monetização cruzada (assinaturas, anúncios, e-commerce integrado)
- Gestão de comunidades (dados de consumo e engajamento)
Se, em 2006, a fragmentação travou o crescimento da NFL no Brasil, agora a Globo pode unificar o acesso, ou recriar barreiras por exclusividades mal desenhadas.
No fim, a disputa por jogos é também uma corrida por relevância: quem dominar ecossistema, distribuição e relacionamento com o fã definirá o novo modelo de negócios esportivos na era pós-TV paga.