Eu sou o peru de Ação de Graças do Nassim Taleb

Com quase 60% de ganhos em dois anos, projetava um futuro brilhante na bolsa: daqui a pouco é 100%! Mas então veio a epidemia e... bem, fui jantado pelo coronavírus

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(Getty Images)

Eu sabia. Comentei com os meus amigos. Tentei explicar para o meu filho: “Filho, as coisas vão bem na Bolsa, mas estou me sentindo o peru do Taleb”.

Depois de alguns segundos tentando esconder a tristeza com a esquisitice do pai, o guri prudentemente voltou ao Minecraft.

O peru é a metáfora do investidor e estatístico Nassim Nicholas Taleb para o erro de indução. Todo dia, desde o nascimento, o peru ganha farelo de milho de um humano. Todo dia vê uma pequena alta de seu patrimônio.

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Baseado na experiência, no puro conhecimento empírico, o peru projeta um futuro brilhante. Se engordou meio quilo por mês nos últimos doze meses, em dois anos terá dezoito quilos!

Mas então vem o Dia de Ação de Graças: o peru vai para o abate e perde tudo. A sensação de segurança atinge o pico justamente no momento de mais alto risco.

Foi assim que me comportei na Bolsa. Todo dia (ok, quase todo dia desde o governo Temer), saboreava os dígitos verdes do meu aplicativo de ações. Todo dia uma pequena alta de patrimônio.

Com quase 60% de ganhos em dois anos, projetava um futuro brilhante: daqui a pouco é 100%! Mas então veio a epidemia e… bem, fui jantado pelo coronavírus.

É verdade que o cenário montou uma armadilha. Não só a mim, mas a quase todos gestores de fundo, casas de recomendação e novos CPFs na Bolsa.

Se os juros caem, o valor do investimento produtivo sobe. Até semanas atrás, parecia loucura realizar lucros logo no que chamávamos de “início de um novo ciclo histórico de alta”.

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No meu caso, agi como o peru do Taleb duas vezes ao mesmo tempo. Em momentos de pânico do passado, aproveitei para entrar enquanto todos fugiam.

Operação Carne Fraca, escândalo do Temer, greve dos caminhoneiros, Brumadinho: comprei BRF, Banco do Brasil, Petrobras, Vale. Deu certo quatro vezes: por que não daria agora?

Depois do segundo circuit breaker deste ano, decidi que era hora de entrar com aquele restinho de liquidez. Mas houve outro circuit breaker, e outro. E outro.

O coronavírus, que já tinha jantado minhas ações, almoçou-as no dia seguinte.

Fui a prova de um fenômeno estranho, analisado por alguns psicólogos e cientistas da cognição: não adianta muito conhecer os erros sistemáticos de tomada de decisões, os vieses cognitivos do Kahneman.

Seguimos vulneráveis a eles mesmo entendendo como funcionam. Você pode estudar e discutir o viés da confirmação; no momento seguinte despreza evidências desfavoráveis e valoriza as favoráveis a seu argumento.

Eu, por exemplo, voltei a acreditar que os tempos de abate passaram. Desde a mínima da Bolsa há um mês, voltaram a jogar farelo de milho no meu aplicativo de ações. O esmilinguido patrimônio está recuperando o peso.

Prevejo um futuro brilhante: o início de um novo ciclo histórico de alta. Daqui a pouco é 100%!

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Leandro Narloch

Jornalista, autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, comentarista da CNN Brasil e colunista da revista Crusoé.

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