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A repercussão recente do lançamento da colaboração entre Swatch e Audemars Piguet — o chamado “Royal Pop” — talvez tenha sido um dos exemplos mais emblemáticos de como o mercado de relógios transcendeu há muito tempo a simples lógica de consumo.
Filas, confusões, revenda imediata no mercado secundário e uma mobilização quase irracional em torno de um relógio de tiragem limitada evidenciam como escassez, desejo e percepção de valor passaram a ocupar um papel central nesse universo.
Mais do que um episódio isolado, a reação ao lançamento chamou atenção para algo maior: relógios de luxo vêm gradualmente deixando de ser vistos apenas como acessórios ou objetos de coleção e passaram a integrar discussões sobre patrimônio, preservação de valor e até investimentos alternativos.
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Foi justamente essa combinação entre paixão, escassez e lógica financeira que me despertou a vontade de escrever um pouco mais sobre o mercado de relógios sob a ótica de investimentos.
O momento em que relógios viraram ativos
O mercado de relógios de luxo atravessou uma transformação relevante na última década. O que antes era predominantemente associado a consumo, tradição e apreciação estética passou gradualmente a incorporar também uma dimensão patrimonial.
O crescimento do mercado secundário, a maior transparência de preços, a digitalização das plataformas de negociação e o aumento da demanda global — especialmente vindo da Ásia e do Oriente Médio — contribuíram para que determinados modelos deixassem de ser vistos apenas como objetos de desejo e passassem a ocupar espaço em discussões sobre preservação de patrimônio e investimentos alternativos.
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Marcas como Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet construíram um nível raro de reconhecimento global, escassez estrutural e profundidade de mercado secundário.
Em alguns casos, determinados relógios passaram a apresentar características tipicamente associadas a ativos financeiros: liquidez relativamente elevada dentro do nicho, formação internacional de preços, histórico de preservação de valor e baixa correlação com ativos tradicionais.
Relógios como investimentos alternativos
Sob a ótica conceitual, essa discussão dialoga diretamente com a definição de investimentos alternativos utilizada pelo CFA Institute. O CFA define investimentos alternativos como ativos diferentes das classes tradicionais — ações, renda fixa e caixa.
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Além da definição em si, o instituto destaca algumas características frequentemente presentes nesses ativos: menor liquidez, ausência de mercados centralizados, valuation menos transparente, maior dispersão de preços e retornos influenciados por fatores idiossincráticos.
Nesse contexto, relógios se encaixam de maneira relativamente natural dentro do universo de “collectibles” ou “passion assets”, ao lado de categorias como vinhos raros, arte e carros clássicos.
Embora raramente sejam tratados como uma alocação institucional tradicional — como private equity, infraestrutura ou hedge funds — compartilham diversos atributos típicos dos investimentos alternativos.
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Seu valor depende de escassez, relevância cultural, autenticidade, demanda global e dinâmica de colecionismo. Ao mesmo tempo, possuem menor liquidez e maior subjetividade de precificação quando comparados a ativos financeiros tradicionais.
Outro ponto importante é a questão da dolarização patrimonial. Para investidores com forte viés doméstico (“home bias”), relógios podem funcionar como uma forma indireta de exposição internacional.
Isso porque o preço de muitos modelos é formado globalmente, normalmente em moedas fortes como dólar americano, euro ou franco suíço.
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Em países historicamente marcados por inflação elevada ou recorrentes ciclos de desvalorização cambial, ativos globais tangíveis frequentemente passam a exercer também a função de preservação de poder de compra internacional.
Naturalmente, essa dolarização é imperfeita. Diferentemente de um ativo financeiro offshore, um relógio não gera fluxo de caixa, possui liquidez significativamente inferior e está sujeito a riscos específicos ligados a tendências de mercado, comportamento de colecionadores e ciclos do setor de luxo.
Ainda assim, o fato de determinados ativos terem referência global de preço faz com que eles apresentem, na prática, alguma proteção relativa contra a desvalorização da moeda doméstica.
Também é difícil dissociar a ascensão dos passion assets do ambiente macroeconômico que predominou após a crise financeira de 2008.
Durante mais de uma década, o mundo conviveu com juros reais extremamente baixos — e, em muitos casos, negativos — o que acabou incentivando investidores e poupadores a buscarem alternativas fora dos ativos financeiros tradicionais.
Em um contexto em que títulos soberanos passaram a oferecer retornos reais próximos de zero, ativos tangíveis, escassos e globalmente reconhecidos ganharam relevância como reserva de valor e diversificação patrimonial.
Parte da expansão observada em relógios, arte, vinhos e outros collectibles provavelmente reflete justamente esse movimento. E embora o cenário atual seja marcado por juros mais elevados, parece improvável que essa mudança cultural seja completamente revertida.
O “gênio” dificilmente voltará para dentro da lâmpada: uma vez que passion assets passaram a ocupar espaço na lógica patrimonial de muitos investidores, tende a existir uma demanda estrutural por essa classe de ativos daqui para frente.
Quando a paixão encontra o patrimônio
Talvez um dos sinais mais claros de que relógios passaram a ocupar também um espaço dentro da lógica financeira seja o crescente interesse institucional pelo setor. O banco de investimento Morgan Stanley, em parceria com a consultoria LuxeConsult, publica anualmente um dos relatórios mais acompanhados da indústria relojoeira suíça.
O estudo analisa market share, pricing power, volumes, dinâmica do mercado secundário e posicionamento competitivo das principais marcas globais.
A própria existência de um relatório dessa natureza — produzido por uma instituição tradicional do mercado financeiro — evidencia como relógios deixaram de ser analisados apenas sob a ótica de consumo ou colecionismo e passaram gradualmente a ser acompanhados também como uma classe de ativos escassos, globais e patrimonializáveis.
Os relatórios recentes, inclusive, mostram uma crescente polarização do mercado em torno de marcas como Rolex, Patek Philippe e Audemars Piguet, reforçando a importância de escassez, marca e exclusividade na formação de valor dentro desse universo.
A conclusão é que talvez exista menos distância entre o universo financeiro e o universo dos collectibles do que tradicionalmente se imaginava. Embora relógios continuem sendo, antes de tudo, objetos de paixão, design e história, uma lógica financeira passou gradualmente a coexistir com esse mercado.
Escassez, liquidez, preservação de valor, diversificação patrimonial e dolarização parcial são conceitos cada vez mais presentes nessa discussão.
Isso não transforma relógios em substitutos de uma carteira financeira tradicional, mas ajuda a explicar por que passion assets vêm ocupando um espaço crescente nas conversas sobre patrimônio, alocação e investimentos alternativos.
Naturalmente, minha visão sobre o tema talvez não seja completamente isenta.
A relojoaria é um assunto pelo qual sempre tive enorme interesse — em parte por admiração estética e técnica, mas também por uma dimensão afetiva muito forte ligada à minha família. Relógios carregam algo raro: conseguem misturar memória, história, engenharia, design e passagem do tempo em um único objeto.
E talvez exista também algo particularmente interessante na ideia de que esse seja um interesse que possa ser transmitido para a próxima geração, inclusive para o meu filho, da mesma forma que muitos entusiastas receberam essa paixão de seus pais.
Dito isso, reconheço que minha opinião provavelmente vem acompanhada de um certo “viés de justificativa”. Afinal, enxergar relógios também sob a ótica de investimentos alternativos ajuda bastante a tornar psicologicamente mais aceitáveis os gastos envolvidos em um hobby como esse.