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Desde o início da pandemia, transformar qualquer tarefa em botão se tornou hábito. Comprar, trocar, devolver. Em 2020 as devoluções totais no varejo on-line norte-americano representavam algo em torno de 10% das vendas. Um ano depois já estavam em 16,6% e, em 2024, o índice médio de todo o e-commerce atingiu 16,9% – quase um em cada seis produtos volta para o remetente.
Na moda o impacto é maior: devoluções superam 30% e podem chegar a 50% em certas coleções. A prática ganhou até nome elegante – bracketing. Segundo a Narvar, 62% dos compradores já pedem o mesmo item em vários tamanhos ou cores “só para provar em casa”.
O “provar em casa” que destrói o planeta:
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- Devolver um pedido adiciona cerca de 30% de CO₂ ao frete original.
- Somadas, as viagens de retorno despejam 24 milhões de toneladas de CO₂ por ano – emissões equivalentes à frota de caminhões de um país médio.
- Muitas peças simplesmente não voltam à prateleira: reembalar custa mais do que descartar. Especialistas estimam que menos de uma em cada dez é revendida em condição de “nova”.
- Na Europa, já existem incineradoras de roupas em ciclos de quase 24h por dia, pois o fluxo de queimar é muito mais barato do que armazenar.
Provavelmente, a gigante maioria dos compradores não sabe o efeito direto que isso gera no planeta: quando não há espaço nem comprador, chegam os desertos de roupa. Isso mesmo. Você ouviu direito. No sudoeste dos EUA, terrenos baldios próximos a hubs logísticos acumulam montanhas têxteis à espera de destino; no Chile, o Atacama já recebeu mais de 130 mil toneladas de fast-fashion descartada, formando dunas coloridas visíveis por satélite.
Incinerar, apesar de ser algo bastante realizado já, gera efeitos ambientais monstruosos: queimar uma tonelada de tecido pode liberar até três toneladas de CO₂, além de dioxinas e metais pesados.
Custo invisível, margens à deriva
A logística reversa de devolver “coisas” deve consumir US$ 890 bilhões do varejo norte-americano em 2024 – quase 17% de toda a receita on-line. Algumas marcas começaram a reagir. A Boohoo introduziu uma taxa de devolução de £1,99 e cortou o volume em dois dígitos, movimento seguido por Zara, H&M, ASOS e outros gigantes que agora testam cobranças entre £2 e £4. Consultorias estimam que encerrar o “retorno grátis” recuperaria até 1,4 ponto de margem na moda rápida, mas derrubaria compras por impulso em cerca de 30%. Isto é: cômodo para o consumidor, péssimo para os negócios, desastroso para o planeta.
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Por que parece um caminho sem volta?
Porque a interface esconde o caminhão, a logística, o incinerador ou os desertos artificialmente coloridos. O clique pesa gramas; o pacote de retorno viaja quilômetros de caminhão, avião e esteira. Depois dos lockdowns trocamos o provador da loja pelo espelho do quarto: devolução virou parte da experiência, não exceção. Enquanto a tela exibir “retorno grátis”, rios de caixas vazias continuarão queimando diesel e voltando cheias de nada.
A resposta das marcas veio: investem em provadores de realidade aumentada, guias de caimento mais precisos e bônus para quem devolve em loja física. São paliativos úteis, mas a mudança estrutural esbarra numa palavra impopular: cobrar. Enquanto não houver fricção no botão de devolver, conveniência seguirá empilhando carbono e tecido em silêncio.
Talvez seja hora de trocar a pergunta “quanto isso custa no balanço?” por “o consumidor sabe o estrago que está causando no planeta ao devolver suas roupas?”. Cada clique inocente aparece como ruído no escapamento e desertos inteiros abarrotados de roupas, mesmo quando milhões não tenham o que vestir. Da próxima vez que pedir quatro tamanhos do mesmo moletom, lembre-se que logística não tem modo silencioso.