Decisão do CMSE pode aliviar bandeiras tarifárias e segurar inflação em 2027

Parâmetros mais conservadores elevam o uso de térmicas e pressionam tarifas; revisão em análise pelo CMSE pode gerar economia bilionária para consumidores

Rubens Rizek

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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A decisão, que foi debatida na reunião do CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) de 13 de maio, acabou adiada para que houvesse tempo para maiores estudos, em especial em decorrência da homologação do Leilão de Reserva de Capacidade 2026.

Essa decisão é acertada, uma vez que claramente não estavam sendo levados em consideração aspectos importantes sobre os impactos que a manutenção dos parâmetros atuais pode trazer para o Brasil. 

Da dona de casa que vê a conta de luz subir todo mês ao data center bilionário que pode desistir de investir no país: uma decisão técnica, até pouco tempo invisível ao grande público, definirá quanto o brasileiro pagará pela energia em 2027 — e o governo tem agora a chance de reduzir essa conta sem renunciar à segurança do sistema.

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Enquanto a população aperta o orçamento para pagar uma conta de luz cada vez mais cara, e grandes indústrias recalculam se vale a pena continuar produzindo no Brasil, um parâmetro técnico discutido nos bastidores do setor elétrico decidirá o rumo dos preços de energia em 2027.

O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) definirá, até o fim de junho, o valor do CVaR — o “nível de medo” que orienta a operação do sistema. E a escolha pode custar, ou economizar, bilhões de reais aos consumidores.

Na mencionada reunião de 13 de maio, o CMSE postergou a deliberação e solicitou ao ONS e à CCEE avaliações adicionais sobre o impacto dos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCaps) de 2026 nos parâmetros de aversão a risco.

A própria pauta dessa avaliação revela o ponto central do debate: o sistema de 2027 não é o mesmo que justificou o conservadorismo atual. Hoje, o sistema opera com o par (15;40), considerado extremamente conservador, o que força o uso de usinas térmicas mais caras mesmo quando há segurança energética de sobra.

Quanto mais conservador o parâmetro, mais o consumidor paga — via despacho térmico, bandeiras tarifárias e, no fim da linha, inflação.

O critério de segurança é dado pela Curva de Referência (CRef), o nível mínimo prudencial de armazenamento que o sistema deve manter. A chamada Faixa Segura situa-se entre 95% e 100% de atendimento à CRef.

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No ciclo anterior de planejamento, o próprio setor operava com critério de 90% — e atendimento acima de 100% sequer era considerado.

A alternativa custa R$ 5,4 bilhões a menos — sem comprometer a segurança. 

O ponto central é que o par menos conservador, (15;30), atende plenamente ao critério de segurança: fica dentro da banda de 95% a 100%, com armazenamento apenas 4,1% inferior ao limite da CRef ao fim do horizonte e um ESS de R$ 0,9 bilhão. Ou seja, a água continua garantida.

A diferença para o consumidor é expressiva. A adoção do (15:30) no lugar do (15:40) representa:

– Redução de R$ 5,4 bilhões no custo de geração termelétrica;
– Redução tarifária de aproximadamente 1%;
– Redução superior a 0,11 p.p. no IPCA anual.


E aqui vale traduzir o que esse número técnico significa na vida real.

O IPCA é o índice que mede a inflação — e a energia elétrica é um de seus componentes mais sensíveis, porque encarece tudo em efeito cascata.

Quando a conta de luz sobe, sobe também o custo de assar o pão na padaria, de manter o freezer do supermercado ligado, de moer o trigo, de bombear a água da irrigação. O resultado chega à mesa: o macarrão fica mais caro, o arroz fica mais caro, o feijão fica mais caro.

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Cada fração de ponto a mais na inflação é dinheiro saindo do bolso de quem vive de salário, sentido justamente nos itens mais básicos do dia a dia.

E o tamanho desse desperdício impressiona quando se traduz em dinheiro. O incremento de 0,11 ponto percentual no IPCA parece marginal numa planilha, mas, aplicado sobre os R$ 8,1 trilhões que as famílias brasileiras gastam por ano, representa cerca de R$ 9 bilhões retirados do bolso da população — chegando perto de R$ 14 bilhões quando se considera o impacto sobre toda a economia.

Para dar dimensão: é praticamente o mesmo montante que o país inteiro investe em saneamento básico em um ano (algo em torno de R$ 16 bilhões no orçamento de 2026).

Ou seja, a sociedade arca, de forma silenciosa, com um custo equivalente ao esforço anual de levar água tratada e esgoto a milhões de brasileiros — e tudo isso sem ganhar um único megawatt a mais de segurança energética. Fonte: Agência IBGE Notícias 2026

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O LRCap muda a equação: menos risco de potência, não mais

O principal elemento novo é o LRCap de 2026, que contratou cerca de 19 GW de capacidade.

Esse montante foi contratado justamente para ser despachado quando o sistema precisar — funcionando como um seguro de potência adicional.

Não por acaso, foi exatamente sobre esse impacto que o CMSE pediu avaliações complementares antes de decidir.

A consequência é contraintuitiva para quem defende mais conservadorismo: com 19 GW de geração disponível e contratada para garantir segurança, o risco de falta de potência diminui, e não aumenta. Manter os reservatórios artificialmente cheios “por precaução” deixou de fazer sentido técnico.

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Manter o (15;40) após a contratação do LRCap cria um custo de oportunidade real — o consumidor paga duas vezes: pela capacidade do LRCap que fica em espera e pelo excesso de despacho térmico que poderia ser evitado.

O custo silencioso: investimento que não vem e Brasil na contramão do mundo

O efeito de manter preços artificialmente altos vai muito além da conta de luz no fim do mês. Energia cara afugenta investimento.

Em um momento em que o mundo disputa a instalação de data centers — a nova infraestrutura crítica da economia digital, intensiva em energia —, o Brasil corre o risco de perder esses projetos bilionários para países com energia mais competitiva.

Grandes indústrias eletrointensivas, que empregam milhares de pessoas, também recalculam sua permanência ou expansão no país diante de um custo de energia inflado por decisão regulatória.

Enquanto economias maduras buscam tornar-se a energia mais barata e previsível para atrair a próxima onda de investimentos, o Brasil caminharia na contramão — preservando um conservadorismo que beneficia um grupo específico de geradores e penaliza toda a cadeia produtiva.

No fim, a conta sempre recai sobre os mesmos: a indústria que perde competitividade, o investidor que escolhe outro destino e a dona Maria, lá na ponta, que paga mais caro pela mesma energia.

Conclusão 

A decisão coloca o governo diante de uma escolha clara. De um lado, a modicidade tarifária, o controle da inflação e a atração de investimentos, com segurança energética comprovadamente preservada pela CRef e reforçada pelos 19 GW do LRCap.

De outro, a manutenção de uma margem de segurança excessiva que, de forma silenciosa, custa bilhões de reais à sociedade — pressionando a conta de cerca de 90 milhões de consumidores cativos, espantando investimento e elevando o IPCA.

A pergunta que fica é: o CMSE vai priorizar o bolso do brasileiro e a competitividade do país ou preservar um colchão de precaução que o novo desenho do sistema já tornou desnecessário?

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Rubens Rizek

Diretor Presidente da Associação Nacional da Pesquisa da Economia Energética (Anpeen)