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Antes da Copa do Mundo, Gianni Infantino repetia que o futebol era uma ferramenta capaz de unir povos, derrubar barreiras e aproximar culturas. O discurso continua bonito, mas o torneio disputado nos Estados Unidos mostrou, mais uma vez, que a realidade é outra. A Copa reforçou uma lição que acompanha o esporte desde sua origem: política e futebol nunca estiveram separados.
Quem ainda insiste em tratar o esporte como um ambiente isolado da geopolítica encontrou nos últimos dias exemplos suficientes para rever essa ideia. A política interfere na organização, nas decisões, na logística, na segurança, na diplomacia e, em alguns casos, até mesmo no que acontece dentro de campo.
O episódio mais emblemático aconteceu com a seleção dos Estados Unidos. Donald Trump telefonou para Gianni Infantino pedindo que a suspensão de Folarin Balogun fosse revista. O pedido foi atendido e o atacante ficou liberado para atuar. Independentemente da justificativa utilizada para reverter a punição, o simples fato de um presidente de um país intervir diretamente em uma decisão esportiva já representa uma demonstração clara de como as fronteiras entre futebol e política são muito mais frágeis do que a Fifa costuma admitir.
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O caso acabou perdendo repercussão porque os Estados Unidos foram eliminados pela Bélgica pouco depois. Mas a eliminação não muda o significado do episódio. Pelo contrário. Mostra que, diante de interesses nacionais, até mesmo uma entidade que se apresenta como independente se vê pressionada por forças políticas.
Os sinais apareceram desde o início da competição. A delegação do Irã, por exemplo, não pôde permanecer concentrada em território americano entre as partidas e precisou viajar constantemente durante o torneio. Enquanto os demais adversários desfrutavam da estabilidade proporcionada por uma base fixa, os iranianos enfrentavam um desgaste logístico claramente superior, consequência direta das restrições diplomáticas entre os dois países.
Outro caso simbólico envolveu o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, considerado um dos principais nomes da arbitragem africana. Ele não conseguiu autorização para entrar nos Estados Unidos e ficou fora da Copa. Não foi um caso isolado. Jornalistas, profissionais ligados ao torneio e outros trabalhadores também tiveram vistos negados ou enfrentaram dificuldades para ingressar no país.
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A Fifa sempre defendeu que as Copas pertencem ao mundo, e não ao país-sede. Na prática, porém, ficou evidente que a organização precisou se adaptar às regras migratórias, às decisões diplomáticas e aos interesses políticos do governo americano. Em vez de impor as condições que tradicionalmente exige para realizar seus eventos, acabou aceitando limitações impostas pelo contexto político local.
Também não se trata de uma exclusividade dos Estados Unidos. A história das Copas é repleta de episódios semelhantes. Da utilização política do Mundial de 1934 pela Itália fascista à Copa da Argentina em 1978, disputada durante a ditadura militar, passando pelos debates sobre direitos humanos no Catar e pelas manifestações ocorridas no Brasil em 2014, o futebol frequentemente serve de palco para disputas que ultrapassam as quatro linhas.