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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) acompanha o indivíduo por toda a vida, mas quase tudo que se discute — de políticas públicas a serviços de saúde — permanece restrito à infância.
O resultado é um apagamento alarmante: 94% dos serviços especializados encerram o atendimento na maioridade e 85% dos autistas adultos estão desempregados ou subempregados. “Depois que fazemos 18 anos, parece que ficamos invisíveis”, resume Rodrigo, 32 anos.
Diagnóstico tardio e saúde mental
Quando o autismo só é reconhecido na fase adulta, décadas de rotulação como “esquisito” ou “preguiçoso” deixam cicatrizes profundas. Muitos descrevem o diagnóstico como mistura de alívio e luto: alívio por, enfim, entenderem a própria trajetória; luto pelo tempo vivido sem apoio. A prática do masking — ocultar traços autísticos para se adequar a normas sociais — pode consumir energia durante 12 horas de expediente, provocar exaustão e triplicar o risco de depressão. Não surpreende que 72% recorram à automedicação e que a ideação suicida seja até dez vezes mais frequente nesse grupo.
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Despreparo do sistema de saúde
A estrutura assistencial brasileira parte do pressuposto de que o autismo termina na adolescência. Adultos enfrentam diagnósticos equivocados e falta de acesso a um acompanhamento adequado. Mesmo quando o laudo chega, faltam protocolos específicos, equipes multidisciplinares e profissionais capacitados. Sem adaptações, o trabalho que deveria bancar o tratamento tornase fonte de desgaste: “Preciso trabalhar para pagar terapia, mas o trabalho me impede de ter energia para fazêla”, relata Ana, professora.
Mercado de trabalho: da exclusão à violação de direitos
A Lei de Cotas (8.213/1991) e a Lei Berenice Piana (12.764/2012) reconhecem o TEA como deficiência, mas a prática mostra o contrário: 83% das demissões de autistas descumprem a legislação. Empresas ignoram adaptações simples — ambiente menos ruidoso, comunicação clara, rotinas estruturadas — e muitas vezes invalidam laudos sob o argumento de que o autista “parece funcional”. O serviço público, que deveria dar o exemplo, também nega inscrições em concursos e resiste a conceder a jornada reduzida prevista em lei.
Insegurança jurídica e políticas insuficientes
Direitos já previstos raramente se materializam. Benefícios como o BPC esbarram em critérios socioeconômicos que ignoram barreiras funcionais; planos de saúde litigam para limitar terapias multidisciplinares; bancas de concursos invalidam laudos, obrigando o candidato a judicializar o óbvio. Enquanto Canadá, Reino Unido e Austrália têm estratégias nacionais que cobrem todo o ciclo de vida, o Brasil mantém uma lógica infantilizada e assistencialista que deixa milhões de adultos à margem.
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Caminhos para a inclusão real
- Políticas de continuidade que garantam a transição da infância à vida adulta com suporte permanente.
- Capacitação da rede de saúde, sobretudo o SUS, em diagnóstico e tratamento de adultos, com equipes multidisciplinares e protocolos específicos.
- Fiscalização efetiva das leis trabalhistas e previdenciárias, combatendo a invalidação de laudos e demissões ilegais.
- Campanhas de conscientização para desmistificar o autismo adulto, especialmente nos casos de nível 1 de suporte (equivocadamente chamados de leves).
- Adaptações razoáveis em ambientes de trabalho, estudo e serviços públicos: espaços silenciosos, horário flexível, comunicação objetiva e supervisão humanizada.
- Além disso, autistas adultos devem ter assento em conselhos de políticas públicas e podem denunciar violações ou sugerir melhorias por canais como o Disque 100 e a Ouvidoria do SUS (telefone 136).
Negar visibilidade ao autismo na vida adulta não é simples falha de percepção — é violação de direitos humanos. Cada estatística de desemprego, cada fila de espera, cada laudo contestado representa vidas empurradas ao isolamento e, não raro, ao desespero. Como revela Marina, diagnosticada aos 30 anos: “Sinto que minha vida começou de novo; os pensamentos suicidas diminuíram”. Esse renascimento não pode depender de sorte, mas de um sistema que reconheça, acolha e proteja todas as formas de diversidade neurológica. Transformar direitos formais em direitos vividos é imperativo moral — e investimento em uma sociedade mais justa, produtiva e verdadeiramente inclusiva.