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Vivemos cercados por números. Seguidores, curtidas, visualizações, comentários. Todo mundo mede tudo — e se mede por isso. Mas talvez seja hora de perguntar: quem está por trás desses números? E o que, exatamente, estamos medindo?
Comecemos com um dado que deveria ser mais conhecido: 52% do tráfego da internet é não humano. Isso mesmo. Mais da metade de tudo que acontece online vem de bots, crawlers e automações — não de pessoas reais. O dado é da Imperva, uma empresa global de cibersegurança. E ele muda tudo. Porque se o tráfego é majoritariamente robótico, o que dizer das métricas que usamos para definir sucesso, relevância, autoridade?
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Vamos mais fundo. No Brasil, a situação é alarmante. Uma análise da Hype Auditor revelou que 56,26% dos influenciadores brasileiros são impactados por fraudes, muitas vezes sem sequer perceberem. Entre os influenciadores com 500 mil a 1 milhão de seguidores, impressionantes 72,6% são afetados por atividades fraudulentas. Isso significa que uma parcela significativa dos seguidores e interações pode ser composta por bots ou contas inativas.
Segundo uma análise da Ghost Data, cerca de 9,5% dos usuários do Instagram são bots, o que gerou um prejuízo estimado de US$ 1,3 bilhão para marcas em razão de interações falsas. Uma economia inteira gira em torno de métricas que parecem reais — mas são feitas por ninguém.
E não são apenas os influenciadores que enfrentam esse problema. Celebridades de renome também têm uma quantidade significativa de seguidores falsos. Por exemplo, Cristiano Ronaldo, um dos atletas mais seguidos nas redes sociais, tem 24% de seus seguidores identificados como falsos. Lionel Messi não fica atrás, com 23% de seguidores fantasmas.
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Ainda a já citada auditoria da HypeAuditor, até 30% dos seguidores de grandes influenciadores no Instagram são perfis inativos ou falsos. No X (ex-Twitter), esse número pode chegar a 40% em perfis com mais de 1 milhão de seguidores. O TikTok, a queridinha do momento, tem sido investigado por contas massivas infladas artificialmente — com redes de bots capazes de entregar curtidas e comentários em segundos.
E nem estamos falando só de vaidade digital. Isso impacta negócios. Políticas públicas. Credibilidade. Uma pesquisa do New York Times revelou que até 15% das avaliações online (reviews) em marketplaces são compradas — muitas vezes por centavos. Você confia em uma nota 4,8 de um restaurante no Google? Alguém pode ter pago por ela. Você contratou um palestrante por causa do alcance dele no LinkedIn? Metade dos likes pode ser impulsionada por pods de engajamento.
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O mercado de mídia, historicamente, sempre foi obcecado por números. Desde os tempos áureos da televisão, quando a audiência era medida por pontos no Ibope, até a era digital, onde cliques e visualizações ditam o investimento publicitário. Essa cultura de valorização de volumetrias foi transferida para o ambiente online, sem a devida adaptação ou questionamento. O resultado? Uma corrida desenfreada por métricas que muitas vezes não refletem engajamento real ou impacto significativo.
Essa obsessão por números criou um mercado paralelo robusto. A compra e venda de seguidores, curtidas e visualizações tornou-se uma indústria lucrativa. Mas por que continuamos a valorizar tanto essas métricas? O mercado foi educado a pensar dessa forma. A questão não é só que os números são falsos. É que a nossa relação com eles é real demais. A gente confia em gráficos que ninguém auditou. Celebra engajamentos que ninguém conferiu. E constrói reputações com base em números que qualquer estagiário da deep web pode inflar por R$ 49,90.
A métrica virou mito. Seguidores viraram status. Views viraram prova social. Mas, no fundo, tudo isso está em cima de areia movediça — que a gente insiste em chamar de influência.
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Há algo de quase religioso na forma como tratamos esses números. Um tipo de fé digital que acredita que se está no topo dos algoritmos, deve ser bom. Se tem muitos seguidores, deve ser certo. Se viralizou, é porque merece. Mas e se for só bot? E se for só compra? E se for só barulho vazio?