A China vai conseguir transformar o yuan em uma moeda global? Não conte com isso tão cedo

Parece que ainda teremos de contar com a "moeda do tio Sam" por um bom tempo como divisa hegemônica

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A internacionalização do Yuan (RMB), moeda oficial da China, tem sido uma das políticas centrais do governo chinês. A invasão da Ucrânia pela Rússia e as sanções impostas ao país agressor logo levaram a China a tentar buscar um novo protagonismo para moeda chinesa, comprando petróleo da Arábia Saudita e pagando em Yuans.

Dado que o país busca aumentar suas transações comerciais e se estabelecer como uma nação global rearranjando o tabuleiro das relações geopolíticas, um maior uso da moeda oficial do país por outras nações não deixa de ser um objetivo compreensível.

O entusiasmo em relação à internacionalização do Yuan atingiu seu pico no ano de 2015, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a colocar o Yuan em sua cesta de moedas elitizadas que fazem parte do Special Drawing Rights (SDR). Criado em 1969, o SDR é reconhecido como um ativo de reserva internacional capaz de suplementar as reservas oficiais de seus países-membros. Além disso, a moeda pode ainda ser trocada entre seus membros em momentos de necessidade.

O PCChinês vem tentando aumentar o papel da moeda chinesa no comércio internacional, além de enveredar esforços de modo a desafiar a hegemonia do dólar americano (USD) como reserva de valor e meios de troca nas transações internacionais. Contudo, esses objetivos são relativamente antigos, uma vez que datam desde 2009.

Mas por que será que a moeda chinesa ainda não logrou sequer desafiar o dólar como reserva de valor e meio de troca?

Neste ponto, seria interessante explicar a diferença entre uma moeda utilizada para transações comerciais, por meio de sua utilização no comércio internacional, e uma moeda totalmente conversível e aceita por todas as nações para quaisquer transações internacionais. Ou seja, aceita em qualquer propósito de transação (comercial, financeiro e de investimentos), como o dólar ainda é amplamente aceito.

A moeda Yuan atende ao requisito inicial de ser aceita em partes por várias nações, dados os acordos de currency swaps agreements que o banco central chinês (People´s Bank of China – PBoC) fechou com pelo menos 40 autoridades monetárias ao redor do mundo. Por meio desses acordos, as transações comerciais, de exportação e importação, entre essas nações poderiam ser liquidadas, não utilizando o dólar norte-americano, mas as moedas dos países participantes na transação.

O objetivo maior desses acordos é o de contornar a utilização do dólar norte-americano em transações comerciais e exercer uma maior influência geopolítica dado o maior peso da China na economia global.

Instituições estrangeiras são encorajadas a utilizar o Yuan em trade settlement agreements com seus parceiros comerciais chineses, mas não são permitidos a investir no mercado financeiro chinês livremente ou influenciar nas taxas de juros domésticas como um mercado livre. Essa característica contrasta frontalmente com o aberto e irrestrito mercado financeiro dos EUA, que permite múltiplos investimentos e reinvestimentos de administradores financeiros e gestores de recursos ao redor do mundo.

Vários economistas sabem que o pré-requisito para a internacionalização de uma moeda seria a total abertura de sua conta capital, que engloba investimentos diretos, empréstimos e financiamento e investimentos em portfólio.

É verdade que o governo chinês há tempos vem mostrando sinais de que busca paulatinamente abrir sua conta capital para a livre movimentação de recursos, esquemas do tipo Qualified Domestic Institutional Investors (QDIIs) e Qualified Foreign Institutional Investors (QFIIs) lograram abrir a conta capital da China, via implementação de quotas para investimentos em portfólio no território chinês por estrangeiros e investimentos chineses em outras praças.

Atualmente, Pequim tem dado inúmeras declarações de que busca abrir sua conta capital por completo. Para que uma moeda seja livremente conversível, a abertura da conta capital do país é uma condição sine qua non, e a determinação das taxas de juros deveria ser livremente determinada sem a interferência da autoridade monetária. Talvez esse seja o interesse do governo chinês, mas vale avaliar o risco que a economia chinesa correria se Pequim, de fato, levasse adiante o seu plano de livre movimentação de capitais.

O episódio da crise asiática em 1997 e 1998 poderia nos servir como base de avaliação. Mesmo tendo bancos em países, como Tailândia, Malásia, Indonésia e Coreia do Sul, que funcionavam como braços parafiscais do governo, um aumento das taxas de juros dos EUA acabou suscitando uma corrida em favor dos títulos públicos dos EUA, o que resultou no fenômeno conhecido como sudden-stop nesses países asiáticos.

Com a forte saída de recursos desses países, que utilizavam um sistema cambial do tipo pegged ao dólar norte-americano, a grande depreciação cambial experimentada pelos tigres asiáticos acabou evoluindo para uma crise corporativa, dado que as empresas existentes nesses países estavam com seus balanços “descasados” com relação à suas moedas domésticas. Ou seja, ativos denominados em moeda doméstica e passivos denominados em dólar norte-americano e sem hedge (proteção) cambial.

Uma depreciação cambial suscitada pela saída abrupta de capital do país fez com que grande parte dessas empresas não conseguissem mais pagar suas dívidas, levando a uma crise corporativa e econômica com pesados impactos na economia real.

Se assumirmos uma completa abertura da conta capital do balanço de pagamentos da China, permitindo, assim, a livre movimentação de capitais do país, qualquer oportunidade de maiores retornos no exterior poderia suscitar uma saída maciça de capital da China, colocando o país em um cenário de crise cambial ou maxi depreciação.

Ainda assim, se a conta capital aberta permitir que empresas locais chinesas possam tomar recursos de bancos fora do país, denominados em dólar ou em outra moeda estrangeira, uma fuga de capital, ocasionada pelos motivos expostos anteriormente, além de suscitar uma crise cambial, poderia ainda evoluir para uma crise corporativa e bancária, dado o descasamento de balanço dos tomadores.

Ora, um cenário de fuga de capital e perda excessiva de reservas internacionais colocaria o PBoC em uma situação precária de defesa da moeda. Ao assumir uma depreciação da moeda chinesa significativa, como ocorreu com os países asiáticos, as empresas que tomaram recurso em moedas diferentes de sua moeda local seriam colocadas em uma situação problemática de solvência, podendo evoluir para uma crise corporativa, bancária e econômica com efeitos deletérios para a economia real.

Fica, dessa forma, a pergunta: Será que o governo chinês abriria, por completo, o controle sobre as movimentações de capitais de seu país e colocaria em risco o crescimento econômico do país em caso de ocorrência de um fenômeno conhecido como sudden-stop? Correria o governo chinês o risco de experimentar menor crescimento econômico, acompanhado de maior desemprego e tensão social, o que certamente colocaria em risco a legitimidade do PCChinês?

Sob essa égide, há de se avaliar o interesse legítimo das autoridades chinesas em perder o controle sobre seu mercado financeiro, o crescimento econômico do país e a permanência do partido no poder. Se essa condição, por mais arriscada que seja para a permanência do PCChinês no controle do país, não for avaliada no médio prazo, há de se duvidar sobre a possibilidade de a moeda chinesa se tornar verdadeiramente conversível e desafiar a supremacia do dólar norte-americano no médio prazo.

Se Xi Jinping busca mesmo tentar minimizar as possíveis sanções a serem impostas pelo ocidente em caso de invasão à Taiwan, como o cerceamento dos US$ 630 bilhões em reservas internacionais da Rússia, algumas questões ainda permanecem. Isso explicitando a atual política econômica chinesa, que tenta colocar as empresas estatais como centro do planejamento econômico, mesmo que deficitárias.

Como o PCChinês agiria se tivesse de abrir mão dos bancos chineses como força motriz de crescimento econômico do país? Ainda que com maiores níveis de inadimplência bancária e utilizando os bancos como instrumento de legitimidade do partido, como um verdadeiro capitalismo de compadres, será que a China correrá esse risco de abrir completamente a conta capital do país de modo a tornar o Yuan uma moeda verdadeiramente conversível e internacional, mesmo após as evidências observadas durante a crise asiática? Parece que ainda teremos de contar com a moeda do tio Sam por um bom tempo como divisa hegemônica.

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Roberto Dumas Damas

Roberto Dumas Damas é economista-chefe do Voiter e representou o Itaú BBA em Xangai de 2007 a 2011. Em 2017, atuou no banco dos BRICs em Xangai. Dumas é mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), além de professor de MBA e pós graduação do Insper e da FIA e professor convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China)

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