Uma semana de Olimpíadas: 7 medalhas (e gotas de suor com um valor imenso) na conta do Brasil

As histórias de superação estão por todos os lados, seja na origem, no desenvolvimento ou no sacrifício para estar lá competindo

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(Ricardo Bufolin/CBG)

Para quem gosta de esporte a rotina virou de ponta-cabeça. O começo das competições nos Jogos Olímpicos de Tóquio fez com que muita gente trocasse o dia pela noite, avançasse a madrugada, e mesmo assim tendo que se virar de manhã para seguir acompanhando os atletas, as disputas, as medalhas e o trabalho.

Se não é fácil para o torcedor, imagine para os atletas. Mas falamos de dificuldades diferentes. Praticar esporte é um ato de amor e coragem. Amor pelo respeito às próprias convicções, pela disputa, pela superação. E coragem porque não é nada simples treinar de forma árdua e ainda assim ter que se sustentar.

Sempre que tratamos da relação esporte/dinheiro lembramos que há atletas de futebol, basquete, futebol americano, tênis, modalidades onde poucos ganham muito, e só tomamos contato com a realidade de esportes de baixo interesse comercial a cada quatro anos. Para lembrarmos que eles existem só no 4º ano seguinte.

Viver de esporte olímpico não é fácil, ainda que cada vez mais existam espaços de nicho que permitem competições nacionais e internacionais recorrentes, que permitem acesso a patrocínios e renda. Se somarmos a isso os auxílios estatais, começamos a gerar um círculo virtuoso. Cada vez mais lembramos do início difícil, e menos do sofrimento de sustento, ainda que ele não tenha acabado completamente.

No Brasil, o modelo de Bolsa Atleta teve em 2021 um orçamento de R$ 134 milhões, beneficiando 7.197 atletas, conforme dados do Ministério da Cidadania. Esse é um modelo que existe há anos, e vem ganhando novos “parceiros” como o Programa Atletas de Alto Rendimento do Ministério da Defesa. Inclusive, Fernando Scheffer, que conquistou o bronze, faz parte desse programa. Em 2016, só tivemos medalha na Maratona Aquática e não na piscina.

O Judô, que sempre nos traz medalhas e até agora nos garantiu dois bronzes, teve 11 dos 13 atletas olímpicos suportados pelo programa Bolsa Atleta. Em Rio-2016, foram três medalhas, ou seja, não estamos distantes dos nossos resultados usuais.

Para termos uma ideia do alcance desses programas, o Surfe recebeu R$ 1,4 milhão para o ciclo olímpico, atendendo 56 bolsas, enquanto o Skate recebeu R$ 3,2 milhões para 65 atletas. A Rayssa Leal não recebeu bolsa porque, com 13 anos, não atendia a idade mínima de 14. Com atletas cada vez mais jovens disputando as competições, está aí um tema para ser debatido no próximo ciclo olímpico.

A questão da idade nos remete a uma dificuldade que parece ser uma das maiores na construção de um modelo esportivo de desenvolvimento: a captação. Onde buscar os jovens atletas, que possuem apenas a intuição e aptidão física, e lapidá-los a ponto de se transformarem em grandes competidores?

Precisamos desenvolver modelos de acesso às bases nas periferias das grandes cidades, a polos municipais e regionais de atração e desenvolvimento de atletas, porque apenas as exceções é que iniciarão tarde no mundo do esporte. Rayssa Leal é um exemplo de alguém com 13 anos e medalha olímpica. Rebeca Andrade e sua espetacular medalha de prata também, vinda de um programa de desenvolvimento social de base em Guarulhos (SP).

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Agora, para quem acha que só o Brasil tem dificuldades relacionadas ao esporte para serem solucionadas, nos EUA, a grande potência do esporte mundial, há inúmeros casos de atletas que precisam se virar para atravessar o ciclo olímpico e chegar à disputa.

A atleta Zhang Beiwen, principal nome do badminton americano, precisou recorrer a um crowdfunding para cobrir despesas relacionadas aos torneiros preparatórios para os Jogos e às Olimpíadas de Tóquio, como custos de transporte e alojamento do seu treinador. Teve que levantar US$ 15 mil para competir em quatro torneio preparatórios e chegar a Tóquio.

Para fins de comparação, enquanto o torneio de tênis de Wimbledon paga US$ 393 mil para um atleta que chega às quartas-de-final, o equivalente do badminton para US$ 4,7 mil.

Nos EUA, existe um grupo seleto de atletas que é suportado por patrocínios de grandes marcas. Mas, segundo matéria da Forbes, apenas 15% da delegação americana possui um agente ou representante que o ajude a buscar patrocínios. A grande maioria não acessa o dinheiro, que fica concentrado em nomes como Carissa Moore, Megan Rapinoe, Simone Biles, Noah Lyles, Allyson Felix, entre outros.

Segundo a reportagem, 60% dos americanos recebem menos de US$ 25 mil anuais. Pode parecer muito em reais, mas para a realidade americana é um número bastante baixo e insuficiente para se manter exclusivamente praticando esporte.

Por isso, as histórias de superação estão por todos os lados, seja na origem, no desenvolvimento ou no sacrifício para estar lá competindo. Ninguém é melhor ou pior, e cada gota de suor que escorre por um rosto tem uma força imensa.

Para o Brasil são 7 medalhas, por enquanto. Do ouro de Ítalo Ferreira, vindo de um esporte novo nos Jogos, mas estruturado antes dele, passando pelas pratas do skate, também forte o suficiente para ser mais que um esporte – é um estilo de vida – chegando à cada vez mais reconhecida Ginástica Artística, e aos já tradicionais Judô e Natação, que mesmo com visibilidade limitada todos sabemos quão grandes e importantes são no esporte brasileiro. Já conquistaram esse lugar.

Para irmos além é preciso continuar incentivando, apoiando financeiramente, criando modelos sustentáveis e de longo prazo. Se é verdade que temos muito a evoluir, também é verdade que cada conquista representa a possibilidade de seguirmos em frente desenvolvendo o esporte brasileiro, e consequentemente, o país. E, no lugar de se decepcionar por algum resultado, valorize as conquistas.

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Cuide do seu sono porque ainda tem muita competição pela frente.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real