Superliga de Clubes: quais lições ficam dessa história?

A Superliga foi uma ação que pode ser associada mais aos Três Patetas que a James Bond, mas é inegável que ela jogou luz à necessidade de uma reestruturação do futebol

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A semana do futebol foi marcada pelo início e fim da Superliga de clubes europeus, uma trajetória tão rápida como um contra-ataque de Neymar e Mbappè, de Salah e Mané, ou uma arrancada genial de Messi ou Cristiano Ronaldo.

Mas ela deixou uma série de temas que precisam ser debatidos e estudados ao longo dos próximos meses, para o bem do futebol.

Não é uma questão de gostar ou não do modelo, mas de entender como as peças se movem nesse tabuleiro complexo que é o futebol mundial, cheio de intenções ocultas atrás de ideias brilhantes, informações enviesadas, certezas.

Nesta coluna trarei alguns temas para debate e que devem ser estudados de forma mais profunda do que um simples post lacrador de rede social.

O primeiro aspecto que me vem à mente é o da relação entre esporte e entretenimento.

A ideia básica por trás da Superliga era justamente ser uma central de entretenimento, que levasse espetáculos grandiosos aos quatro cantos do mundo. A “NBA do Futebol”.

As implicações foram claras: o dinheiro se faz ao redor do mundo, mas essencialmente em casa. O objetivo dos clubes pode ser o fã distante, mas deve ser também o torcedor mais próximo.

Abre parênteses

Na figura abaixo, extraída do relatório Deloitte Money League de 2021, temos os dados de receitas do Real Madrid nos últimos cinco anos, comparados à média dos 30 clubes analisados e ao Top 5.

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A capacidade de atração de receitas que o clube tem é acima da média do Top 5 e muito acima da média da amostra. Se esse clube é incapaz de sobreviver com essa diferença, e quer mais e mais, imagina o que será dos demais.

Fecha parênteses

Os clubes precisarão entender e aprender a separar a relação que existe entre eles, torcedores e fãs. Precisamos ir além das frases feitas.

A furiosa reação dos torcedores ingleses contrasta com o silêncio dos espanhóis, e uma tímida reação dos italianos – basicamente restrita a algumas torcidas organizadas.

Logo, é preciso pensar nos torcedores e fãs à luz da realidade cultural e econômica de cada país. Um inglês é diferente de um italiano, que é diferente do alemão, do francês e por aí vai. Vamos mesmo tratar o futebol através da ótica de um globalismo que não existe?

Trago isso para a realidade brasileira, e se tivesse R$ 1,00 para apostar, diria que um movimento semelhante no Brasil teria total apoio dos torcedores dos clubes que fizessem parte do movimento, e de preferência os que recebessem mais ainda tripudiariam sobre os outros.

Muito parecida com a visão de espanhóis e italianos. Latinos que somos, o individualismo predomina sobre a visão coletiva, vide a MP do Mandante versus negociações coletivas de direitos de TV.

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Portanto, é fundamental aprofundar análises e avaliações sobre a quantidade de likes de redes sociais.

O fã distante pode ter mais de um clube, mas o torcedor de porta de estádio é quem criou a cultura do clube.

Isso nos leva a outro aspecto que merece atenção: a relação e comparação entre o futebol e as ligas americanas de esporte.

Nos EUA, se faz tanto esporte quanto entretenimento, é cultural. Logo, qualquer comparação entre as estruturas pode ser equivocada.

Os esportes americanos têm características únicas, seja na competição; seja na oxigenação das estruturas, que nasce nas universidades; passando ao fato de que muita gente vai às partidas para ver o adversário, comer um hot dog, tirar algumas fotos e olhar o resultado da partida depois de sair do ginásio. É cultural, e funciona muito bem assim.

Como entretenimento, e sem a questão central do futebol (que como definiu o histórico técnico do Liverpool, Bill Shankly, “não é uma questão de vida ou morte, é muito mais importante do que isso”), as ligas americanas concorrem com outros tipos de entretenimento.

Com tantas análises e pesquisas sobre o tema vindas dos EUA, e lembrando a diferença de comportamento entre torcedores europeus, será que não deveríamos nos aprofundar sobre o tema nos países onde realmente o futebol é relevante?

Daí vem a questão central: pesquisas. Elas precisam ser construídas de forma correta. E divulgadas de forma ampla, sem viés.

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Quando a ECA (Associação de Clubes Europeus) divulga resultados de uma pesquisa em que mostra um certo risco de decadência do futebol – e eu já usei esta pesquisa aqui – e depois seus líderes justificam a criação da Superliga a partir dessa premissa, talvez haja conflitos de interesse na mesa.

O fato é que precisamos estudar de forma mais profunda a relação de ontem, de hoje e projetar a de amanhã, de forma a entender o que esperar do desenvolvimento do futebol no mundo.

O entretenimento precisa estar associado ao tema, mas em qual grau? Para quem? O que realmente esperam os torcedores de hoje e do futuro?
“Precisamos criar conteúdo!”, “Precisamos prender o torcedor/fã depois das partidas!” … será mesmo? Será que o torcedor quer isso?

Recentemente, o Google apresentou os resultados de uma pesquisa, em parceria com a empresa de pesquisas Sport Track, sobre a relação do brasileiro com os esportes.

De acordo com dados do Google de 2020, 70% dos brasileiros tem o futebol como esporte preferido, sendo que 74% acompanha o esporte com frequência através da mídia. Em 2018, o futebol era o preferido de 59% das pessoas.

Em termos de formas de acompanhar o esporte, 85% das pessoas se interessava por jogos ao vivo, e 35% se interessava por informações sobre as partidas, curiosidades e escalações.

Claro que cresce o interesse no pós-jogo, nas entrevistas e curiosidades, mas será que não estamos dando mais importância a isso que ao jogo em si?

Veja, aqui tenho muitas dúvidas e nenhuma certeza. O objetivo é realmente avaliar o cenário.

Como a questão sempre é o dinheiro e o poder, obviamente que as reações foram políticas. É precisa entendê-las sob este viés, especialmente em relação aos clubes ingleses.

Afinal, foram eles que implodiram a Superliga, a partir da reação de seus torcedores, mas especialmente por conta das ameaças e ações do primeiro-ministro Boris Johnson, e, de certa forma, da Premier League.

Johnson não tem nada de desatento, e percebeu uma oportunidade de estar ao lado do eleitor, bastante machucado pelos efeitos da pandemia. Nada como usar o futebol para ganhar popularidade.

Agora, é preciso monitorar se foi apenas uma ameaça ou se Johnson seguirá em frente com suas ideias.

Porque ficou claro que o ataque era aos proprietários de clubes envolvidos, como se fossem apenas eles os vilões.

Temos que lembrar que os demais clubes da Premier League também têm proprietários. Ou seja, não é questão do formato, mas de quem age e por quais interesses.

Para não deixar passar, o líder do movimento é presidente de uma associação, e os dois clubes que ainda permanecem nela são justamente as associações.

Ao mesmo tempo, clubes alemães foram radicalmente contra a Superliga, e são em grande parte controlados por associações, ainda que sejam empresas.

No final, a questão vai além do modelo societário, mas de como ele pode ser melhorado para abarcar condições culturais. Mais um tema para ser aprofundado.

Assim como a questão justa de que temos clubes demais, jogos demais.

Se o resultado dessa polêmica foi a conclusão de que é preciso times de todos os tamanhos e possibilidades, e esta é a essência do jogo, também é verdade que o futebol precisa se reorganizar.

Começa por reduzir a quantidade de clubes nas divisões nacionais, passa pela redução na quantidade de jogos das seleções e termina com uma necessária reavaliação de custos da estrutura.

Mas isso precisa ser tratado de forma ampla, algo que faltou nessa tentativa aparentemente atabalhoada de revolução.

A UEFA já havia concordado com a alteração na Champions League, atendendo aos interesses dos clubes de maior apelo comercial, e estava negociando aumento da participação deles nas receitas, por meio da criação de uma joint-venture com a ECA para criação de uma media company, que incluiria a venda de parte para um fundo de investimentos inglês – e isto seria um negócio de cerca e € 5,5 bi.

Logo, um movimento como a Superliga, sem negociação ampla com entidades, atletas, treinadores (a grande maioria se posicionou contra), torcedores, e, especialmente, com patrocinadores (o Liverpool chegou a ter problemas com alguns), tende a dar no que deu.

Ele nasce na ideia equivocada de causar uma revolução e uma ruptura, quando não tem nada disso, apenas uma visão individualista.

Visão essa que vem da necessidade de antecipar entrada de caixa em função das perdas nas receitas causadas pela pandemia. Se os clubes já vinham discutindo o tema há anos, a decisão de lançá-lo agora foi a pressão por dinheiro.

E daí entra outro tema: o sucesso de alguns clubes veio a partir de estruturas financeiras frágeis. Clubes alavancados, contando com o infinito crescimento de receitas de TV para gastar.

A pandemia derrubou o castelo de cartas. Precisamos, portanto, repensar todas as estruturas de custos e gastos, a partir dos gastos com salários e contratações.

Logo, atletas também precisam participação desse debate. Atletas e agentes, que ganham muito dinheiro com o futebol.

O belga Kevin de Bruyne recentemente renovou seu contrato com o Manchester City com aumento de valores. Negociou sem agentes, apresentou análise de seu desempenho e justificou sua importância.

Logo, o futebol precisa se organizar para tirar força dos agentes. Mas essa é uma discussão que poucos querem ter, porque muita gente ganha dinheiro com os atletas.

Temos que discutir também o modelo de negócios de clubes que vivem de vender atletas, o modelo atual de fair play financeiro da UEFA e das federações nacionais que manteve os clubes operando no limite do risco, até onde o futebol tem capacidade de crescer receitas indefinidamente, e se tem que continuar sendo o esporte global e bilionário que é.

A Superliga foi uma ação que pode ser associada mais a Moe, Larry e Curly que a James Bond, mas é inegável que ela jogou luz à necessidade de uma reestruturação do futebol.

Há muito a ser debatido, nenhuma convicção ou certeza – nem do que ser feito e nem quem deve fazê-lo – mas é preciso reavaliar muitas coisas, se é que há interesse coletivo mesmo e não apenas uma força de poder e agendas pessoais.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real