Skate, surfe e a modernização dos Jogos Olímpicos: em busca de novos mercados

Trata-se de uma via de mão-dupla, em que tanto o COI quanto os esportes se beneficiam, acessando novos públicos e interesses, e gerando intercâmbios interessantes.

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Letícia Bufoni Skate
A skatista Letícia Bufoni é uma das principais esperanças de medalha do Brasil em Tóquio (Reprodução/Facebook)

E finalmente começaram as Olimpíadas de Tóquio 2020.

Nesta edição serão 33 esportes que, em suas diferentes categoriais, significam 339 eventos que envolvem disputas de medalhas. É bastante coisa para caber na agenda que começou no dia 21 de julho e vai até 8 de agosto.

Não bastasse os esportes já tradicionais, em Tóquio veremos a estreia de quatro novas modalidades e o retorno de uma delas ao programa olímpico. Os novatos são o skate, surfe, karatê e escalada, e quem retorna é a dupla softball/baseball.

Os países-sede têm, por autorização do Comitê Olímpico Internacional (COI), o direito de propor novas modalidades a cada edição. Na competição que acaba de iniciar, o Japão optou por trazer para o quadro de medalhas alguns esportes que têm forte raiz local, como o softball e o karatê, além de modalidades que têm forte apelo com os fãs mais jovens, como são claramente os casos de skate, surfe e escalada.

Dentre os novos esportes, temos dois que puxam a fila nos interesses comerciais e de futuro do esporte, que são o skate e o surfe, com público predominantemente jovem, conceito de “lifestyle” que vai além da prática esportiva e chega ao consumo de moda, alimentação, espaços públicos.

Trazer esses esportes para dentro de um evento gigante como as Olimpíadas é uma forma de interação e de comunhão entre culturas próximas e distantes ao mesmo tempo. Não é apenas para se aproximar de mercados e consumidores mais jovens, mas também relacionar parceiros comerciais das Olimpíadas aos esportes radicais e tentar aproximar quem opera essas modalidades aos esportes mais “tradicionais”.

Para se ter uma ideia, segundo estudo da Global Industry Analytics, de junho de 2021, a indústria do surfe movimentou cerca de US$ 2,7 bilhões em 2020, considerando as esferas da moda e dos equipamentos, sendo que apenas o mercado dos EUA movimenta US$ 1,2 bilhão. As estimativas apontam para um crescimento de 2,6% ao ano pelo menos até 2026.

Quando falamos na gestão esportiva, o surfe é “gerido” pela World Surf League, que organiza competições anuais ao redor do mundo, e desde 2018 já paga premiações equivalentes entre homens e mulheres.

Aliás, este é outro aspecto importante envolvendo as disputas dos X-Sports: a igualdade. Tanto no surfe quanto no skate, as competições são disputadas por homens e mulheres, sem estereótipos ou preconceitos, o que é um exemplo para uma sociedade que busca igualdade e inclusão.

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Voltando aos números: dos US$ 2,7 bilhões movimentados em 2020, estima-se que 65% estejam relacionados a equipamentos, especialmente as pranchas, e 35% à chamada surfwear, as roupas e os acessórios como óculos e relógios. Esse é o segmento do qual se espera crescimento mais acelerado nos próximos anos.

Quando falamos de skate, a estimativa de mercado apresentada pela Grand View Research aponta para um mercado global da ordem de US$ 1,95 bilhão em 2020, também considerando a soma entre equipamentos e moda. Os maiores consumidores globais são os adolescentes entre 12 e 17 anos, que representam 44% do total, sendo que crianças abaixo de 12 anos representam cerca de 40%, o que deixa para os adultos cerca de 16% de mercado.

Não existem estudos profundos e conclusivos a respeito dos mercados de skate e surfe. Podemos dizer que esses valores são uma espécie de “piso” em relação ao tamanho deles, que potencialmente deve ser maior, seja pelo que movimenta de publicidade, pelos gastos com deslocamento e competições ou mesmo pelas marcas não avaliadas, que usam o conceito se “Surf & Skate Wear” mas não se colocam diretamente no mercado. Quem nunca teve uma camiseta com prancha de surfe mesmo sem ser surfista ou cuja marca não fosse das mais badaladas?

Mercados no Brasil

Assim como no mundo, o mercado de surfe e skate em versão brasileira também tem poucas dados públicos. Em relação ao skate, o que foi possível encontrar foi uma informação da CBSK (Confederação Brasileira de Skate) sobre um relatório da SGI Europe indicando que, em 2019, o mercado brasileiro movimentou cerca de R$ 1 bilhão, entre equipamentos e moda (skatewear). E só.

Um dos poucos relatórios disponíveis sobre o mercado de surfe no Brasil é da Ibope Repucom, de 2019, feito em nome da WSL.

Nos resultados, o surfe aparecia como sendo um esporte de interesse para 57% das pessoas, enquanto o skate era de interesse para 54%. Como base de comparação, o futebol despertava interesse em 81% das pessoas, seguido do vôlei (80%) e natação (75%).

Segundo a pesquisa, 59% do público que tem interesse em surfe tem menos de 39 anos, e 64% tem renda entre R$ 1,2 mil e R$ 5,2 mil, com maior propensão a consumo de produtos relacionados ao esporte que a média da população.

Sobre movimentação financeira, o Ibrasurf (Instituto Brasileiro de Surf) divulgou em 2019 que o mercado brasileiro seria da ordem de R$ 7 bilhões, incluindo toda a indústria de moda não envolvida diretamente nas competições. Apesar da distância em relação ao número global, possivelmente por serem bases diferentes, falamos de mercados de bom porte e com públicos consumidores jovens e fiéis.

Competições olímpicas

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As competições de skate serão disputadas em dois formatos: street e park, nas versões feminina e masculina. No street, a disputa acontece numa pista com obstáculos que rementem ao ambiente urbano, como corrimões e degraus, enquanto na park é utilizado aquele “bowl” enterrado onde são feitas as manobras.

Como curiosidade, no skate há a maior diversidade de participantes por idade: desde o britânico Sky Brown, com 13 anos, ao dinamarquês Rune Glifberg, de 46 anos.

No surfe, teremos uma competição masculina e uma feminina, com 20 participantes em cada uma delas.

Importante: tanto o surfe quanto o skate estarão nas Olimpíadas de Paris, em 2024.

O futuro

Era natural que o COI buscasse modernizar a relação entre competição e público a partir da inclusão de modalidades que atraem a atenção de pessoas mais jovens, de mercados diferentes daqueles em que o esporte tradicional habita.

É uma necessidade incorporar novos públicos, patrocinadores, interesses e dinheiro, além de diversificar o mundo do esporte.

Não me espantaria de ver em algum momento os eSports presentes nos Jogos Olímpicos. Assim como, eventualmente, o afastamento de esportes de pouca atratividade comercial ou competitiva.

De qualquer forma, trata-se de uma via de mão-dupla, em que tanto o COI quanto os esportes se beneficiam, especialmente acessando novos públicos e interesses, possibilitando intercâmbios interessantes.

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Afinal, entre uma e outra sessão do torneio de surfe, dá para assistir algumas provas de levantamento de pesa, tênis de mesa, basquete. O que importa, no fundo, é o esporte.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real