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Risco Kodak: clubes de futebol que não se modernizarem podem virar peças de museu

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Em 1996 Larry Page e Sergey Brin desenvolveram na universidade um motor de buscas na internet que era mais eficiente que os existentes na época. Desde então o Google vem proporcionando uma série de mudanças na vida das pessoas, do Chrome ao Google Assistant, passando pelo Android.

Assim como a empresa da dupla Jobs/Wozniak, que começou na garagem, ou então a Netflix, que de uma locadora de vídeos transformou a indústria de entretenimento, ou a Amazon, que recriou a forma como consumimos produtos. Isso, apenas pensando nas revoluções mais recentes, pois desde sempre a humanidade se movimenta em ciclos e fases, com novas maneiras de fazer coisas corriqueiras, ou mesmo criando novas coisas corriqueiras.

Lembram da Revolução Industrial? Pois é, disruptura – palavrinha da moda na boca de 9 entre 10 influenciadores – é o que movimenta a sociedade. Fazer mais, melhor e por menos.

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Mas que raios isso tem a ver com uma coluna sobre esportes e finanças? Tem e muito.

Todas as grandes ideias que de certa forma revolucionaram a maneira como se produzem bens e serviços não vieram de grandes corporações, mas sim de novatos que tinham liberdade para pensar, criar, desenvolver ideias. Muitas deram certo, outras errado, e várias serviram de influência para evoluções que se tornariam parte das nossas vidas.

Para quem gosta de Fórmula 1, por exemplo, já tivemos um carro de 6 rodas, a Tyrrel P34, projeto de Derek Gardner que rodou nas temporadas 1976/77. O objetivo era se ajustar a uma mudança na regra que tratava do tamanho da asa dianteira, afetando a aerodinâmica dos carros por conta do tamanho dos pneus.

A ideia de criar 4 pneus dianteiros menores seria justamente para melhorar a aerodinâmica. Não se assuste, mas este carro venceu um grande prêmio (Suécia) e conquistou boas colocações. Depois, com novas mudanças na regra de peso mínimo e o desenvolvimento do Lotus 78 por Colin Chapman, a ideia foi abandonada.

Jody Scheckter em uma Tyrrell-Ford P34 em 1976
(Wikimedia Commons)

Apesar de aparentemente maluco, o projeto só saiu da prancheta porque alguém buscou uma alternativa inovadora para solucionar um problema. E mais tarde algumas mudanças de regras e um novo desenvolvimento enterraram o carro de 6 rodas.

É assim que funciona o mundo, e geralmente as ideias nascem de quem tem menor capacidade financeira, quem não é exatamente parte do mainstream. Grandes corporações são lentas e se comportam mais reagindo que propondo.

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Vamos então ao futebol brasileiro.

Mesmo antes da Covid-19 já havia uma necessidade de mudanças na estrutura do esporte no Brasil. Clubes centenários e quebrados, com estruturas societárias arcaicas e que não estavam dispostas a serem oxigenadas, questionamentos sobre capacidade dos treinadores, tudo isso acompanhado do crescimento entre os mais jovens da presença dos clubes europeus.

Seria um cenário propício para rupturas, mas que eram evitadas porque “aqui o modelo é assim”. Mas não só isso.
A grande realidade é que a maioria dos clubes brasileiros é como as grandes corporações, e apenas reagem às novidades, com grande dificuldade em entendê-las, aceitá-las e se transformarem a partir delas. Por isso, não esperem que mudanças disruptivas venham de clubes tradicionais; a mudança virá a partir dos clubes menores.

Veja os exemplos de Bahia, Ceará, Fortaleza, Athletico, que em poucos anos saíram de estruturas arcaicas e hoje se notabilizam por terem modelos enxutos de gestão, ainda com viés político, mas cada vez mais próximo do torcedor e do equilíbrio financeiro. O Ceará está desenvolvendo um programa que busca conhecer melhor o DNA do seu torcedor, através de pesquisas e um app, que permitirá ações e comportamentos alinhados com a cultura.

Assim como o Bahia tem um modelo dinâmico de gestão, que lhe permite ações rápidas e eficientes de marketing e evoluções significativas de receitas nos últimos anos, inclusive com a construção do novo centro de treinamento. O Athletico hoje tem receitas e estrutura melhores que a de clubes chamados “grandes” do eixo Rio-SP, enquanto o Fortaleza se destaca por ter finanças equilibradas e projeto esportivo de longo prazo, com resultados como a participação na Copa Sulamericana de 2020.

Enquanto isso, clubes chamados de “grandes” ainda pensam que contratar atletas renomados é a solução, trabalham aceleração de programas de sócio torcedor como algo revolucionário, quando esses programas já demonstravam sinais de esgotamento por serem meros veículos de acesso a ingressos, atrasam impostos e direitos trabalhistas como forma de fazer caixa.

Mas esperar que clubes grandes sejam a porta de entrada de novas formas de fazer, dentro e fora de campo, é como imaginar que uma organização com 100 mil funcionários seja capaz de ter a mesma velocidade de um escritório de co-working com 20 pessoas trabalhando.

No Brasil, os clubes grandes apenas reagem, muitas vezes repetindo velhas estratégias surradas. O que estão fazendo realmente de novo? Quais as ferramentas de gestão esportiva e administrativa que lhes permitirá dar um salto de qualidade sustentável? O sucesso está sempre relacionado aos resultados dentro de campo, e mesmo quando este não vem, ainda assim as mudanças nunca são disruptivas, mas apenas maquiagem para parecer moderno.

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Serão os clubes pequenos as startups que trarão as mudanças. Porque é mais fácil mudar o controle de um clube pequeno que de um grande. Porque os clubes pequenos estão mais prontos a aceitarem mudanças nas estruturas de gestão esportiva, aceitando novas ideias, buscando profissionais jovens e que conhecem a realidade de fora.

Por exemplo, é possível esperar que clubes menores – e quando digo menores estou associando tamanho a poderio financeiro e tamanho da torcida – adotem estratégias de montagem de elenco baseadas em uso de tecnologia, dados, scouting, coisa que nos clubes grandes ainda engatinha. Assim como é mais fácil um clube menor optar por virar empresa, construindo uma estrutura de governança e controle modernas, que ver o conselheiro de um clube tradicional abrir mão do cartão de visitas de diretor da piscina.

Casos de sucesso recentes como o Flamengo, o Grêmio e o Palmeiras passam pela raridade da reconstrução estrutural, que tem enormes dificuldades e demandam fiadores, como Bandeira de Melo, Romildo Bolzan e Paulo Nobre. Muitas vezes com suporte da oposição, outras porque não havia outra alternativa, mas são as exceções como a que reposicionou a IBM no mundo da tecnologia, ou que fez a Netflix deixar de ser um repositório de filmes e passar a produzir seu conteúdo, assim como a Disney, que deixou de vender seu conteúdo para terceiros e passou a vender diretamente ao público.

A revolução virá com os pequenos, e corremos o risco de termos no futebol brasileiro uma proliferação de Kodaks, a empresa que foi gigante um dia (chegou a valer US$ 30 bi nos anos 80, a dinheiro da época) e fazia filmes fotográficos, teve a chance de ser a precursora das câmeras digitais, mas hoje vale 0,009% da Apple simplesmente porque ignorou as mudanças que estavam ocorrendo ao seu redor.

Os efeitos da Covid-19 podem ajudar a acelerar processos nos grandes clubes e servir de base para as disrupturas necessárias nas estruturas. Porque se a situação já era caótica antes, ela se torna insustentável agora, e a sobrevivência virá da transformação absoluta. Tenho falado sobre isso há algum tempo: transparência, governança, mais profissionais e menos abnegados nas posições de decisão, maior controle financeiro, investimentos em tecnologia de gestão esportiva, menor dependência de empresários e agentes e maior independência nas decisões, formação eficiente de atletas na base, conhecimento de quem é seu torcedor e qual sua cultura esportiva, mudança de perfil societário.

Está tudo aí ao redor de todos. Precisa enxergar para não virar uma nova Kodak.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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