Direitos esportivos de TV: a ruptura que muitos clubes querem pode jogá-los num precipício

Há espaço de valorização dos direitos do futebol brasileiro, mas desde que tenhamos o desenvolvimento de um produto

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(Getty Images)

Seguimos com o tema da MP 984 dos Direitos Esportivos de TV. É o que temos paro momento, e a cada dia movimentações e novidades no front.

Por enquanto a MP recebeu 91 emendas e ainda não tem relator. Corre o risco de caducar e ter deixado apenas uma enorme confusão no meio do caminho. Ou ser votada e aprovada num modelo diferente do que foi proposto, gerando confusões de outros tipos dado a enormidade de emendas incluídas.

Neste momento, a Turner anunciou que transmitirá partidas do próximo campeonato brasileiro amparada na MP. O curioso é que a empresa gerou um “apagão” voluntário, ao deixar de transmitir partidas sob as quais tinham direito mesmo na lei anterior, como os casos de Fortaleza e Athletico e o clássico Athletiba, justamente para transmitir partidas que não tinha direito anteriormente, como o clássico Santos x São Paulo.

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Curiosamente, nas 10 primeiras rodadas do campeonato a Turner não transmitirá nenhuma partida do Fortaleza, um dos clubes que se animou em falar em “bloco do Nordeste” nas possíveis negociações conjuntas.

Se quem já paga não conseguiu encaixar uma única partida em 10 rodadas, com 19 transmissões, será mesmo que há esta demanda por tantas partidas como supõem alguns dirigentes?

Seguiremos com os apagões e com a falta de um planejamento. Corre-se o risco de termos um rompimento de contrato com a Globo, e este é o “risco regulatório” que afasta investidores no futebol brasileiro.

Antes de falarem “Olha, veja que a Turner está apostando no futebol ao transmitir mais jogos”, pare um pouco e pense: os americanos já havia feito esta aposta nas regras anteriores, queriam sair porque não tinham um produto que justificasse o valor pago.

Daí entraram numa briga jurídica que seria complicada e custosa, e no meio dela entendem que ganharam o direito de transmitir partidas fora do contrato inicial, sem os custos teriam incorrido originalmente se comprassem os direitos de mais clubes

Não tem nada de “a MP atraiu investidores”. Ela, no máximo, deu sobrevida ao tema. Porque disponibilizar esporte num canal que não tem tradição, sem programas esportivos acessórios, dependendo de terceiros para divulgar sua agenda, não é um produto, é uma oportunidade.

Vamos listar dois impactos que este possível litígio entre Globo e Clubes pode gerar;

– Cancelamento de pagamentos e uma briga jurídica para ressarcimento das parcelas já pagas. Isso, num ano já bastante complicado como este;
– Fim dos adiantamentos de cotas de TV, feitas via empréstimos bancários e lastreados nos contratos com a Globo. Podemos até não gostar do modelo, mas foi ele que
segurou muito clube vivo até hoje. Sem contrato com contraparte forte, não haverá novos financiamentos;

Daí será uma correria para buscar novos parceiros. O caso da final do campeonato carioca entre Flamengo e Fluminense mostra os riscos. A notícia de que o SBT venderia os espaços publicitários por R$ 39,5 milhões rodou as redes sociais, mas não houve o mesmo destaque quando o resultado bruto ficou abaixo de R$ 5 milhões.

Esporte na TV é um modelo de negócios onde a recorrência e o desenvolvimento de um produto são fundamentais para que o torcedor tenha o hábito e saiba onde, quando e que horas verá a partida. É por isso que as vendas nas principais ligas do mundo são conjuntas, em blocos, com desenvolvimento de horários e janelas que permitam acessar diversos públicos.

Um modelo com diversas possibilidades – Aberta, Fechada e Streaming – é fundamental na captura por diversos públicos, e cabem vários players operando essas possibilidades. Agora, a briga com o principal player do segmento de mídia neste momento é desnecessária. Inclusive porque este player poderia ser chamado às negociações de um novo modelo onde todos ganhariam.

Não tenho procuração para defender a Globo nem o modelo de transmissão anterior. Nem procuração, nem motivo, pois reitero – e insisto! – que o modelo anterior era ruim, dessas coisas sem sentido que só acontecem no Brasil. O que defendo é que se desenvolva um modelo que possibilite aos clubes maximizar as receitas com direitos de TV, nem que seja um modelo baseado em lei que transfira os direitos aos organizadores da competição, com regras e percentuais de distribuição, assim como é feito na Itália e na Espanha.

Parênteses rápido:

A liga Serie A italiana recebeu uma proposta para vender uma parte para um fundo de investimentos que tem como objetivo trazer mais dinheiro aos clubes, aumentando receitas comerciais, de TV e com estádios.

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Uma liga, que já negocia coletivamente e por força de lei, mas que como bom povo latino conseguiu transformar a proposta numa guerra para ver quais os clubes que sairão mais fortalecidos (politicamente) ao final do processo. Há uma discussão com a Sky (parceiro comercial), há ideias de buscar mais interessados e até de montar um canal próprio que seria disponibilizado por uma operadora de telefonia. Tudo tipicamente italiano, tipicamente latino.

Mas, voltando…

O modelo que está sendo construído no Brasil está levando a maior parte dos clubes a brigar com o maior parceiro comercial, o que tende inclusive a afastá-lo de negociações futuras.

Lembro que a Globo já tentou reduzir valores no passado, quando a Turner entrou nas negociações, e que recentemente a empresa de mídia questionou valores a pagar à Fifa pela Copa do Mundo de 2022, ao mesmo tempo em que está buscando rescindir um contrato que lhe custava cerca de R$ 120 milhões anuais no Campeonato Carioca.

Me divirto muito ao ver algumas comparações incompatíveis com o momento, como aquelas em que citam Google, Netflix, Uber como revolucionários, e que sem revolução os modelos não mudam. Puro slide de seminário de auto-ajuda. Especialmente porque no caso do futebol os clubes não são a solução, mas parte do problema, pois o impacto recairá sobre eles. Modelos disruptivos tem características claras:

i) são explorados por novos entrantes e não por participantes do mercado;
ii) lançam a ideia de reorganização das estruturas e não de decomposição delas (o Uber não acabou com o sistema de transporte de pessoas, nem o iFood inventou a entrega a domicílio, ou a Amazon descobriu a venda à distância, comum nos EUA desde a época de venda por catálogos);
iii) o mote é derrubar preços, e criam o hábito do menor custo nos consumidores. Os clubes de futebol seriam impactados por todas elas (lembram a história dos R$ 10,00 para ver um jogo?).

Um dos aspectos que me chamam a atenção é a dificuldade de visões coletivas entre os clubes. Aponto dois movimentos recentes nesse sentido: o primeiro é o manifesto dos 16 clubes da Série A em defesa da MP. De cara, 4 clubes não assinaram o manifesto (Botafogo, Fluminense, Grêmio e São Paulo), o que mostra que há divergências na avaliação geral.

Segundo, depois que a Globo anunciou discordar do direito da Turner de transmitir mais partidas, Atlético Goianiense e Atlético Mineiro defenderam as regras do contrato em vigência.

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Por fim, falamos sempre de Associações sem Fins Lucrativos, com modelo políticos, eleições, troca de poder. Neste modelo o benefício precisa ser hoje, e por isso é tão complexo montar estruturas cujo resultado será visto apenas no longo prazo.

Volto a dizer: existe vantagem em poder ampliar a forma de negociação e divulgação do futebol brasileiro. Ainda que o mercado internacional esteja em queda, há espaço de valorização dos direitos do futebol brasileiro, mas desde que tenhamos o desenvolvimento de um produto.

O modelo precisa mudar, mas é preciso avaliar de forma serena todos os pontos, pois há tantos riscos quanto boas oportunidades no mercado. Temos visto muito a divulgação dos benefícios, mas quando a poeira baixar os riscos ficarão mais evidentes.

A ruptura que muitos querem, se não for bem coordenada, pode jogá-los num precipício.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real