O que o futebol de clubes no Brasil quer ser quando envelhecer?

Não tem resposta certa ou errada, mas o futebol brasileiro precisa urgentemente de três coisas: dinheiro, governança e planejamento

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Marinho Santos
(Ivan Storti/Santos FC)

Primeiramente, Feliz 2021!

Começo esta primeira coluna do ano com algumas notícias:

INTER DE MILÃO

O grupo Suning, atual proprietário da Inter de Milão, está procurando sócio para o clube. A corporação chinesa avalia a equipe italiana em € 1 bilhão.

Os últimos números da equipe milanesa indicam:

€ milhões 18/19 19/20
Receita Total 417 372
Custo Total (428) (444)
Resultado Operacional (11) (72)

Fonte: DF do clube

€ milhões 18/19 19/20
Receita Recorrente 374 304
Receita com venda de Atletas 43 68

Fonte: DF do clube

Obviamente, os valores de 19/20 estão impactados pela pandemia. Mas, fazendo uma avaliação em cima das duas receitas, o valor pedido pelo grupo Suning representa entre 2,4x e 2,7x as receitas, o que é perto do múltiplo médio de negociações de clubes na Europa.

Como referência, ao longo dos últimos quatro anos foram aportados € 700 milhões no clube (€ 570 milhões entre aportes de capital, aquisição e empréstimos e € 131 milhões em publicidade direta, como os naming rights do centro de treinamentos).

Já há uma conversa avançada com o BC Partners para a aquisição de 51% das ações por cerca de € 550 milhões, parte em aporte de capital (com diluição dos atuais acionistas) e parte em aquisição secundária.

Por que o grupo chinês procura um parceiro? Porque querem alguém com quem dividir a conta, que ficou mais pesada com a pandemia.

O modelo corporativo traz essa possibilidade, junto com o risco do acionista “largar” o negócio, o que os chineses já avisaram que não farão.

PARMA CALCIO

Em setembro de 2020, o americano Kyle Krause comprou 90% do Parma Calcio por € 100 milhões. O empresário norte-americano é o quarto acionista da terra do Tio Sam a comprar clubes italianos recentemente (Fundo Elliott no Milan, Rocco Comisso na Fiorentina e Dan Friedkin na Roma são os outros três).

O último dado de receitas disponível é da temporada 18/19, quando o clube conseguiu fazer € 60 milhões em receitas totais, de forma que o valor pago aponta para um múltiplo de 1,8x.

Um detalhe importante: neste valor, está incluindo o estádio de Parma, que tem um grande projeto de desenvolvimento imobiliário e reestruturação previsto.

BURNLEY

Ao apagar das luzes de 2020, o Burnley, clube da Premier League, foi comprado pela ALK Capital, também norte-americana. Foram cerca de € 185 milhões por 84% do clube, o que indica que vale cerca de € 220 milhões.

O último demonstrativo financeiro é de 18/19 e apresentava receitas da ordem de € 125 milhões, o que indica que o clube foi adquirido pelo múltiplo de 1,76x, bastante semelhante ao do Parma.

Naturalmente, os múltiplos de clubes com maior propensão à gangorra entre primeira e segunda divisões é menor que dos clubes consolidados.

INVESTIMENTOS EM MÍDIA E CONTEÚDO

Dez/20: OneFootball compra a Dugout Nov/20: Eleven compra a MyCujoo Dez/20: SBF compra a NWB
Trata-se de uma operação em que a OneFootball compra a plataforma Dugout, cujos acionistas eram 10 clubes europeus, produzindo e distribuindo conteúdos para eles.
A compra atinge 85 milhões de usuários no mundo e permitirá que haja uma complementariedade de oferta de conteúdo. No Brasil, a OneFootball tem os direitos da Bundesliga e da Ligue 1.
A soma de forças cria uma plataforma que oferecerá competições em streaming, conteúdo off-field, highlights, notícias, estatísticas num alcance global.
Foram pagos € 50 milhões em caixa e uma parte não declarada em troca de ações, com os clubes passando a ter participação na OneFootball.
A soma de duas operações que operam streaming, mas em que uma detém tecnologia própria e desenvolvimento de ponta. Esta é a associação de duas empresas que operam o que seria uma espécie de “second tier” do esporte global, em ligas menores, mas com enorme potencial de desenvolvimento a partir de agora.
Sem apresentar valores, a associação busca o que eles identificam como “40% dos consumidores que não estão dispostos a pagar por conteúdo”, de forma a buscar retorno via uso de dados, publicidade e tecnologia de ponta, que podem incluir parcerias com operadores de apostas.
A holding que controla as lojas de material esportivo Centauro, e que já havia comprado há algum tempo a operação da Nike no Brasil, atacou o mercado de produção de conteúdo e comprou a NWB, empresa que controla os canais Desimpedidos, Acelerados, Fatality e Falcão 12, além de 80 afiliados, que juntos acessam cerca de 71 milhões de inscritos em seus canais do Youtube.
A compra, avaliada em R$ 60 milhões, é o primeiro negócio de porte que acontece no mercado brasileiro envolvendo produção de conteúdo “independente”.

Esses três negócios são operações recentes envolvendo um segmento importante da indústria do futebol (e outros esportes): a produção de conteúdo, direta ou indiretamente ligada aos clubes. São operações que mostram que existe muito valor sendo gerado a partir do jogo. Mas, exceto pela presença de 11 clubes que eram acionistas da Dugout e passaram a ter participação na OneFootball, nenhum dos envolvidos é diretamente um clube de futebol, o que mostra como há stakeholders que se apropriam do tema, ganhando dinheiro com ele, e trazendo valor a partir da exposição.

BUNDESLIGA

Depois que a liga italiana Serie A conseguiu vender 10% de sua media company para o fundo CVC, por aproximadamente € 1,6 bi, outras ligas seguem o mesmo caminho.

Agora, a Bundesliga está negociando uma parte de sua media company, no segmento voltado a transmissões para o Oriente Médio.

Após não renovar o contrato com a beIN, que era responsável pelas transmissões na região, a liga alemã decidiu criar um canal de streaming para

este fim, que certamente servirá como teste para outros movimentos.

A liga alemã pretende vender até 30% deste pequeno bloco dos direitos de transmissão, avaliado em € 1 bi. Segundo informações do Financial Times, a Bundesliga já teria recebido 20 demonstrações de interesses de diversos fundos de investimento.
…..

Depois dessa atualização de notícias de negócios pelo mundo de esporte, especialmente do futebol, gostaria de lembrá-los que ao longo das últimas semanas continuamos vendo informações sobre atrasos de salários em diversos clubes brasileiros.

Vimos também a chegada de novos presidentes eleitos para clubes da Série A e a tônica dos discursos é sempre “cortar custos e reduzir dívidas”.

O Cruzeiro deve permanecer na Série B e há chances reais de termos ao menos outros dois campeões brasileiros fazendo companhia a ele neste 2021, sem contar os que seguirão vivendo na corda bamba.

De todos os negócios que vimos acima, apenas um envolve o Brasil – e não diretamente clubes, o que mostra que a indústria do futebol vive melhor no entorno que nos times.

O modelo associativo de clubes de futebol só aceita a entrada de recursos através de mecenato – para contratar atletas e muitas vezes deixar a conta para o clube, e para investimento em infraestrutura (este é bom!) – que muitas vezes chega através de receitas supervalorizadas ou empréstimos, ou através de doações de torcedores, como a arrecadação vascaína para a construção do centro de treinamentos.

Tudo bacana, mas tudo frágil.

E aqui deixo uma pergunta: qual a indústria do futebol que queremos para o Brasil? O que o futebol de clubes quer ser quando envelhecer? Porque crescido ele está, mas sua fase adulta não é exatamente brilhante.

Não tem resposta certa ou errada, mas o futebol brasileiro precisa urgentemente de três coisas: dinheiro, governança e planejamento.

Defendemos nossas posições de forma imediatista e sem ponderar os efeitos de longo prazo. Porque o que precisamos ter em mente é que o modelo atual de indústria não se sustenta mais, piorado pelos efeitos da pandemia.

Não é uma questão de modelo societário, mas é também uma questão de modelo societário. O futebol associativo é nossa origem, mas ele tem limitações na obtenção de recursos, tem dificuldades em aplicar modelos eficientes de governança, não consegue se planejar no longo prazo.

Um modelo corporativo pode acelerar processos, trazer evoluções em práticas de governança e gestão, mas tem riscos conhecidos e vivenciados nas associações – poder centralizado nas mãos de poucos, o dinheiro para investir fica curto, personalismo do gestor – e outros novos, como o risco efetivo de falir, algo que empurramos com a barriga nas associações.

Não ser pioneiro ajuda em muitas coisas, especialmente evitar erros cometidos pelos outros. Precisamos implementar o que funciona na Europa, como várias negociações conjuntas, especialmente das competições (incluindo negociações de TV) e adesão irrestrita aos modelos de controle externos como Fair Play Financeiro (em breve!) e Profut, além de modelos de negociação de conteúdos em conjunto (vide Dugout, comentado acima), entre outras formas de pensar os clubes como centro do ecossistema do futebol.

Mas para isso é preciso dinheiro, governança e planejamento.

Assim, se a decisão for se manter Associativo e buscar o caminho da melhoria continuada, tem que ter paciência e a tranquilidade de que perderemos alguns clubes de tradição no meio da jornada, e, por ser um processo lento, veremos por algum tempo os europeus se distanciando, enquanto novos esportes como os eSports acenderão o pisca-alerta pedindo passagem. Podemos até evoluir em Governança e Planejamento, mas o dinheiro demorará, e talvez nem chegue.

Mas podemos arriscar e buscar um modelo corporativo adaptado às nossas realidades, com regras que evitem parte dos riscos que não queremos correr, e com isso podemos acelerar a evolução. É possível que venha o dinheiro, o planejamento, mas precisamos garantir que haja governança e transparência.

Não há solução mágica, mas é imperativo encontrar alguma solução. Sabe o futebol como você conhece hoje? Então, ele pode estar com os dias contados, e não adianta usar a Lei de Homer: não funciona colocar a culpa em outro. A culpa é de todos nós.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real