O mito da disputa entre “razão x paixão” no futebol: como não cair nessa armadilha

O receio de que um clube de dono tenha comportamentos contra a paixão e a torcida não se sustenta. É um total desconhecimento de como as coisas funcionam, quase uma lenda urbana repetida à exaustão, até que ela se torne verdade

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ANP MAURICE VAN STEEN (Photo by ANP Sport via Getty Images)

Ainda num mundo pré-streaming, num dos tantos canais pagos havia um programa de TV que se chamava “Mythbusters – Caçadores de Mitos”. A atração usava a ciência para esclarecer mitos e lendas urbanas, explicar efeitos especiais de filmes etc., e se transformava numa forma de corrigir falsas verdades.

Não, neste artigo não vou tratar dos inúmeros mitos que habitam o ecossistema do futebol, apesar de já ter falado em alguns deles, como a ideia de que a venda de camisas paga contratações; de que os clubes podem se internacionalizar sem que haja uma competição e um produto antes disso; de que basta ser empresa para que a mágica da boa gestão aconteça; ou de que os clubes brasileiros que já viraram SAF custaram pouco, entre outras lendas.

Mas, se não caçaremos mitos, trataremos de alguns “desconhecimentos”. Vamos falar sobre conceitos que muitos torcedores formam sobre as relações entre clubes, modelos societários e torcedores.

No momento em que se fala na transformação do modelo associativo para um modelo corporativo, é comum que haja algumas confusões, seja por desconhecimento, seja por interesse.

Outro dia, estava num workshop da CBF Academy sobre Direito Esportivo e recebi uma pergunta de um participante sobre como tratar a diferença na relação entre a paixão de uma associação e a razão de um clube com dono.

Aqui, temos uma série de “equívocos”. Começamos por uma definição básica: futebol é uma indústria que trabalha com a paixão. Por mais que tentem vender a ideia do entretenimento a qualquer custo, da disputa pelo tempo e disponibilidade dos “consumidores” – ou fãs, torcedores, garotos que querem apenas ver seu time jogar – o futebol vende paixão. E isso independe do modelo de controle acionário.

É a paixão que tira o torcedor de casa para ir ao estádio, que o faz ligar um aparelho para assistir a uma partida, atualizar um site, comprar um card ou uma camisa. Todo o resto é acessório. Essa paixão pode ser pelo clube ou pelo ídolo, que no final resulta numa relação “fã-ídolo-clube”.

É um erro resumir e diferenciar o tema às relações “paixão/associação sem fins lucrativos”, gerida por abnegados que são donos de um título do clube, e “razão/dono”, no sentido da dureza e da frieza na gestão.

É um erro porque paixão e razão não são excludentes. O novo dono de um clube de apelo popular certamente tem na relação com os torcedores uma das fontes mais seguras de obtenção de receitas. Reforçar e desenvolver essa relação – a paixão – é fundamental para angariar mais assinantes de pay-per-view, mais público nos estádios, mais compradores de produtos licenciados.

Enquanto isso, em nome da paixão desmedida, os dirigentes das associações costumam atuar de forma irracional e descontrolada, formando elencos ruins, contratando e demitindo treinadores sem critério, deixando de construir modelos eficientes de gestão esportiva. Tudo isso apenas para garantir um lugar no olimpo do clube, aquele busto na sede-social.

Os que atuam com a razão costumam ser criticados, inclusive pela imprensa, que cobra contratações e “defende o torcedor”.

“Ah, mas o Ronaldo não respeitou o Fábio e …”. Calma. Nem tenho motivo ou procuração para defender Ronaldo, Cruzeiro e ninguém mais. Mas para buscar uma difícil salvação e, consequentemente, defender a paixão do torcedor, muitas vezes é fundamental usar a razão, um artigo de luxo na mão dos dirigentes associativos, que levaram o Cruzeiro e outros clubes ao cenário de penúria atual.

Portanto, é até possível dizer que nas Associações há muita paixão e pouca razão, algo que se mostrou um problema ao longo da história dos clubes. Ao mesmo tempo, não é possível dizer que donos usam apenas a razão. Afinal, a paixão é combustível do seu negócio.

Agora, é claro que há dirigentes que operam a paixão com extrema razão. E existem donos de clubes que se iludem atrás da paixão. “Seremos uma potência mundial” é um discurso tipicamente amador, apaixonado, pouco racional, mas que costuma agradar ao torcedor, um apaixonado por natureza.

Outro tema que costuma gerar avaliações equivocadas é a relação dos donos de clubes com o lucro.

Costuma ser voz corrente entre os defensores das associações que um clube de futebol não precisa dar lucro, e que os novos donos vão trabalhar apenas para explorar o clube e lucrar com ele. Mais um desconhecimento, ou talvez uma visão distorcida da realidade. Acontece.

De fato, os clubes de futebol não precisam dar lucro. Aliás, lucro no futebol é perda de capacidade competitiva. Cada real que o clube lucra e, eventualmente, distribui ao dono, é um real a menos em contratações, salários, competitividade. Não há dúvidas de que lucro no futebol é desempenho e títulos.

Mas isso não significa que o clube tenha que perder dinheiro. Opera-se no equilíbrio, pagando as contas em dia, sendo socialmente responsável – com pessoas, outros clubes e o Estado – e buscando a sua valorização da forma certa.

Talvez aí esteja o cerne da avaliação equivocada da turma “anti-lucro”: não entendem como funciona o futebol.

Já falei sobre isso em outras colunas, mas reforço que, em países onde a indústria de negociação de clubes é madura, há três formas básicas de investimentos, associadas ao modelo de negócios de um clube: (i) formação, compra-e-venda de atletas; (ii) sportwashing, que é aquele pessoal que entope o clube de dinheiro para fazê-lo campeão em troca de parecer alguém “bacana”; (iii) comprar um clube com pouca receita e fazê-la crescer.

Considerando que no Brasil o perfil (ii) tende a não existir, teremos investidores com características de (i) e (iii), que podem seguir separadas ou juntas.

Um clube como o Ajax é claramente formador em termos mundiais, mas forte e relevante em termos locais. A Atalanta se fortaleceu localmente a partir da estratégia de formar e negociar atletas. Nada é excludente e a combinação pode ser vencedora em termos financeiros e esportivos.

Logo, os investidores querem mais é que o clube vença, pois isso traz mais receitas. Um clube de futebol é avaliado por sua receita e quanto mais o clube vence, mais ela cresce e maior será o valor de uma revenda, que é o padrão internacional. Não há motivos para isso ser diferente no Brasil.

Dessa forma, é óbvio que ninguém vai tirar dinheiro à toa do clube, pois ele precisa ser competitivo. Quem tira dinheiro do clube são os dirigentes associativos, que agem de forma descontrolada e fazem dívidas impagáveis, que acabam gerando um título aqui e outro ali, mas deixam rastros difíceis de serem apagados.

No mesmo evento da CBF Academy, chegou outra pergunta: “como fica o torcedor se, no meio do campeonato, uma SAF recebe proposta tentadora por um atleta importante e o dono resolve vendê-lo para lucrar, abrindo mão da disputa de um título?”.

Na hora, pensei que a pergunta fosse uma pegadinha de algum amigo. Afinal, ela descreve exatamente o comportamento de um dirigente associativo e apaixonado. A diferença é que ele não visa o lucro, mas algum dinheiro para pagar contas atrasadas.

Se ele ainda pensasse em lucrar e, com isso, investir em novos atletas, infraestrutura, gestão, vá lá. Mas geralmente é dinheiro que parece água em chapa quente.

Como os donos costumam fazer contas, e elas são de longo prazo, de valorização do ativo acima da entrada de um dinheiro rápido, é prematuro dizer que haveria venda de atletas como na situação citada acima. Entretanto, dirigentes associativos fazem isso sempre que podem.

Ou seja, o receio de que um clube de dono tenha comportamentos contra a paixão e a torcida não se sustenta. É um total desconhecimento de como as coisas funcionam, quase uma lenda urbana repetida à exaustão, até que ela se torne verdade.

Isso significa que seus problemas acabaram virando SAF e tendo um dono? Não. Afinal, a associação desorganizada pode acabar nas mãos de uma espécie de Organizações Tabajara, cujos donos metem os pés-pelas-mãos, agem de forma irracional, se endividam querendo a glória eterna, até perceberem que pagaram caro pelo clube, fechando a torneira do dinheiro, porque o primeiro prejuízo é o menor.

Todos esses são riscos de um clube corporativo. Para evitá-los, é preciso construir uma rede de proteção, que uma consultoria capacitada pode trazer.

Está na hora de lutar contra os adversários reais. Os moinhos-de-vento são uma bela ficção.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti