O Futebol Brasileiro de Clubes é um capítulo infinito (e ruim) de Walking Dead

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cena da série The Walking Dead
(Reprodução)

Não está fácil para ninguém. A crise econômica que vivemos fruto da pandemia da Covid-19 é avassaladora. Com negócio e operações fechadas, nenhum setor ou indústria está livre de perdas monumentais de receitas, que em muitos casos chegam a zero, especialmente quando falamos de pequenos comércios e trabalhadores informais.

Trata-se de uma situação lamentável de saúde pública, que exige ações eficazes do Estado para que o número de atingidos seja o menor possível, na menor magnitude possível. Cuidar das pessoas e dos negócios é fundamental. Afinal, a realidade é que paramos, mas não acabamos. Logo mais ou logo menos retomaremos nossas atividades e com o conhecido esforço do brasileiro a vida voltará ao rumo.

O que precisamos neste momento de ajuda às empresas é de separar o joio do trigo, para não corrermos o risco de incorrer no erro de achar que todos os problemas nascem com a Covid-19. Muitos negócios e empresas que fecharão suas portas agora já o fariam de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde, por serem mal geridos e inviáveis. Isso acontece todos os anos, todos os meses, desde sempre. Trago alguns dados relativos a pedidos de falências e recuperações judiciais no Brasil nos últimos anos.

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Veja que todos os meses há centenas de pedidos de falências e recuperações judiciais, que representam mais de 1.300 por ano. Só nos dois primeiros meses de 2020 tivemos 180 pedidos de falências e 175 de recuperações judiciais, frutos de problemas que vinham de antes da Covid-19. Assim como estes, centenas de outras empresas precisariam tomar este doloroso caminho ao longo de 2020 mesmo sem impactos da Covid-19. Naturalmente que muitos tiveram esta situação acelerada, de forma que devemos ter volumes muito grandes de pedidos entre Março e Maio.

Naturalmente que a Covid-19 aperta a situação de muitas empresas. Empresário brasileiro não tem reservas, especialmente os pequenos empreendedores. Fico pensando num pequeno negócio que eu frequentava na Vila Madalena, em São Paulo, chamado Brigaderia da Vila, que fica próximo ao Metrô Vila Madalena e faz brigadeiros e pães de queijo excelentes. Fechados certamente não poderão honrar com os salários dos funcionários, os custos de locação, e seu sustento. Estes precisam de ajuda, como tantos outros realmente impactados pelo problema de saúde pública.

Mas eis que chegamos ao futebol nosso de cada dia.

No ano de 2019, a partir de inúmeras matérias apresentadas pela imprensa, dá para listar facilmente pelo menos 10 clubes que atuaram na Série A que tiveram problemas de atrasos de salários, de recolhimento de impostos, pagamentos de premiações, fornecedores, outros clubes. Em situações normais muitos deles já deveriam compor os gráficos acima, pois estão tecnicamente quebrados.

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Mas a sociedade e o Estado são benevolentes com as associações sem fins lucrativos que deixam enormes prejuízos à própria sociedade e ao Estado. E esses clubes seguem se arrastando, como personagens cada vez mais secundários daquela série Walking Dead.

E seguiam assim em 2020 quando chega a Covid-19. Pronto! Os clubes precisam ser ajudados, precisam pagar os salários, e como fazer isso sem jogos, sem o dinheiro da TV e da bilheteria? Como seguir sem o dinheiro dos patrocinadores?

Vamos então separar as coisas. Quem precisa de ajuda: aquele clube que paga suas contas em dia e é organizado, tendo sido afetado momentaneamente pela Covid-19 ou os clubes que já não pagam ninguém, acumulam dívidas e atrasos e com sérios problemas de gestão?

Qualquer ajuda ao futebol precisa ser discutida de forma serena mas pragmática. Não faz o menor sentido uma proposta que seja endereçada a clubes que já não pagavam salários antes da Covid-19, ou que sejam contumazes inadimplentes. É como tentar apagar incêndio florestal com um balde d’água.

Ah, mas atenção, porque alguns clubes vão querer empurrar para a conta da ajuda as ineficiências recentes. Então, se a Covid-19 impactou 3 meses de salários, aproveita e coloca o 13º do ano passado que ainda não foi pago, e os salários de janeiro e fevereiro e um trocado extra para fazer uma reforma no Social. Afinal, a grana estava curta antes, ficaram algumas pendências. O problema é que continuarão curtas depois.

Chega, né.

A situação extrema que vivemos não pode servir de muleta para ressuscitar clubes que já foram desta para uma melhor, mas insistem em não largar o osso. Precisamos repensar a estrutura de profissionalização do futebol brasileiro, mesmo que isto signifique alguma dor.

Claro que para a indústria é melhor ter clubes ativos com milhões de torcedores ao invés de clubes que mal conseguem levar 5 mil pessoas por partida a seus jogos. Mas para que a indústria seja forte é fundamental ter clubes fortes independentes de seu tamanho, e que justifiquem sua existência a partir de gestões eficientes e pagamentos em dia.

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Na Europa, a conversa entre clubes e atletas para redução temporária ou definitiva de salários acontece de forma organizada e compreensiva, porque os clubes geralmente são capazes de pagar seus vencimentos em dia. Já no Brasil o que vimos recentemente foram atletas se negando a reduzir salários, afinal muito nem recebem em dia. Ou mesmo clubes que resolveram contratar atletas, diretores, treinadores, mesmo sem pagar dívidas passadas e cortando salários unilateralmente.

E agora vemos clubes desesperados atrás de alguma ajuda financeira que muitos não terão condições de honrar no futuro. Inclusive, porque muitos já hipotecaram seu futuro e só existem porque a sociedade e o Estado são benevolentes com associações sem fins lucrativos que não cumprem com seus deveres. Pois, é, falei isso acima. Enquanto ficarmos andando em círculos e tolerando comportamentos amadores, o futebol seguirá como um capítulo ruim de Walking Dead.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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