O eterno “Dia da Marmota” das finanças dos clubes brasileiros de futebol

O futebol brasileiro precisa se organizar. Alguns clubes entenderam essa necessidade. Mas, se todos não se organizarem, o produto perderá valor - e todos perderão

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(Shutterstock)

Na semana passada, lancei o relatório anual sobre as finanças dos clubes brasileiros de futebol, feito em nome do Itaú BBA. Trata-se de um estudo que faço há 11 anos e que retrata o momento financeiro do futebol brasileiro, mas também mostra a evolução tanto consolidada quanto individual.

O relatório nasceu de forma espontânea, como uma grande brincadeira entre os analistas, que avaliavam seus clubes e debatiam os números no almoço. Com o tempo, ele foi se transformando num conteúdo cada vez mais robusto. O objetivo é tentar levar aos torcedores a realidade das finanças dos seus clubes de forma leve e com linguagem das arquibancadas.

O interessante é ver a evolução ou involução de vários clubes. Acompanhando o histórico, veremos que o cenário atual não foi por acaso, mas sim uma “construção” de cada clube. Os que estão bem foram se ajustando no tempo, enquanto os que atravessam maus bocados não deixaram de ser avisados dos riscos ano após ano.

Nesta coluna, trarei um pouco de alguns temas, tentando não ser repetitivo, apontado situações por trás das informações. O estudo começou em 2010, com os 20 clubes da Série A. A base foi construída incorporando os clubes que sobem da Série B, como forma de observarmos as evoluções. Com uma regra: clubes que caem para a Série C deixam as análises individuais e a base pois se tornam pouco relevantes na amostra.

RECEITAS

De forma consolidada, as receitas se comportam de maneira muito estável. Veja no gráfico abaixo que, entre 2010 e 2020, proforma (incluindo as receitas de TV de 2020 que foram recebidas no 1º trimestre de 2021) apenas duas receitas tiveram maior oscilação e crescimento: Direitos de Transmissão e Negociação de Atletas.

Bilheteria/Sócio Torcedor, Publicidade, Social e Outras Receitas nunca oscilam de forma relevante, apresentando desempenho muito estável. É claro que, pontualmente, um clube ou outro pode ter desempenho diferente, mas essa não é a dinâmica da indústria.

Logo, quando os dirigentes pensam em grandes crescimentos de receitas como base para qualquer planejamento, eles estão sendo otimistas demais. Receitas de com Direitos de Transmissão são alteradas apenas nas renovações de contratos e a Negociação de Atletas é algo impossível de prever. As demais crescem lentamente.

Resta aos clubes buscarem as receitas por performance, cada vez mais comuns em algumas competições. Seja um prêmio de desempenho de patrocinadores ou uma premiação por conquista, como são os valores recebidos por aqui conforme um time evolui na Copa do Brasil e na Libertadores da América. São receitas importantes para quem conquista ou vai longe na competição, mas assim como Negociação de Atletas, elas são incertas.

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Um erro comum dos dirigentes é orçar os custos e despesas e a formação do elenco considerando essas conquistas. Invariavelmente dá errado. Então, resta ao clube atletas caros, dívidas, atrasos. Não dá para trabalhar assim.

GERAÇÃO DE CAIXA

O futebol não é uma atividade que visa o lucro. O lucro do futebol são as conquistas. Para quem opera no mundo corporativo, é tão complexo pensar nisso que dificulta até mesmo a capacidade de entender como um clube poderia ter capital aberto. Afinal, parte do valor das companhias está na sua capacidade de gerar lucro, pagar dividendos. No futebol, cada real pago em dividendo é um real a menos para pagar salários e contratar atletas, o que tira competitividade da equipe.

Claro que podemos discutir no futuro como isso deve ser tratado num ambiente de capital aberto. Acredito que na cultura futebolística brasileira o processo mais eficiente de transformação de um clube associativo em empresa é justamente via S/A, com participação de torcedores como controladores. Mas isso já foi tema de outro artigo – e voltará a ser em breve.

Se não precisa dar lucro, precisa gerar caixa. Ainda mais na situação de endividamento elevado que os clubes possuem, com a necessidade recorrente de contratar atletas. Gerar caixa significa ter mais receitas que despesas (excluindo baixas e amortizações). Se os clubes seguirem gastando tudo que arrecadam, não sobra dinheiro para pagar dívidas e investimentos, o que é a tônica na maioria deles.

No gráfico abaixo, vemos o cenário de geração de caixa (EBITDA), nas visões total e recorrente (sem venda de atletas):

O ano de 2012 trouxe uma boa geração de caixa por conta do aumento das receitas com TV. Mas, na sequência, voltamos a ter dois momentos em que apenas os déficits são cobertos apenas com a venda de atletas. Voltamos bem entre 2015 e 2017, mas deterioração veio em 2018 e se manteve até 2020, que mesmo com ligeira recuperação, permaneceu bastante dependente de negociação de atletas.

Quando vemos o futebol devendo R$ 9,6 bilhões, com 55% disso (R$ 5,3 bilhões) vencendo no curto prazo, fica evidente que a geração de caixa é incapaz de dar conta dessas dívidas. Logo, os clubes brasileiros precisam de dois movimentos: reduzir custos, já que as receitas crescem de forma lenta, e alongar passivos, reduzindo-os no tempo.

ENDIVIDAMENTO/ALAVANCAGEM

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O problema dessas dívidas é justamente o fato de elas estarem completamente desequilibradas para uma boa parte dos clubes. No gráfico abaixo, vemos a comparação das dívidas de 2020 com a média das receitas totais dos clubes nos últimos três anos.

Considerando que o nível de geração de caixa é sempre muito estreito e incerto, pois depende da negociação de atletas, dever mais de um ano de receita é um número elevadíssimo. Se sobrasse 20% das receitas como geração de caixa, um clube que deve duas vezes suas receitas levaria 10 anos para pagá-las. Se pensarmos nos parcelamentos de impostos parece ok. Mas quando vemos que 63% das dívidas são com clubes, atletas, bancos e pessoas físicas, e que a maior parte está no curto prazo, a situação se torna bem complicada de gerir.

PROJEÇÃO

Meu cenário de projeção indica que a indústria deve crescer perto de 5% ao ano a partir de 2022, o que tende a ser perto da correção da inflação. Ou seja, não há grandes saltos a serem dados, o que torna imperativo que custos e despesas sejam ajustados caso os clubes queiram alcançar algum equilíbrio.

Para piorar, o cenário a partir de 2024 é incerto em relação à principal receita: a negociação de Direitos de TV (Transmissão). O modelo atual parece improvável de ser mantido. Novos entrantes devem chegar pagando menos do que atualmente – basta ver como o mundo vem recebendo reduções de valores nas principais ligas, mesmo com entrada de empresas como Amazon e DAZN – e só uma negociação coletiva e organizada pode reverter um sinal claro de queda.

Ou seja, o futebol brasileiro precisa se organizar. Mas, acompanhando as finanças dos clubes, há muito tempo me sinto como o personagem de Bill Murray no filme “Feitiço do Tempo”, preso num eterno Dia da Marmota. A vantagem é que alguns clubes entenderam a necessidade de mudança. O problema é que, se todos não se organizarem, o produto perderá valor – e todos perderão.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real