O Darwinismo aplicado ao Futebol Brasileiro

Caso do Botafogo é emblemático sobre as dificuldades para a transformação dos clubes de futebol em empresas no Brasil

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“Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”. Desde o início das conversas sobre a possibilidade do Botafogo de Futebol e Regatas virar “Botafogo S/A”, a torcida do Glorioso carregou a segunda parte desse dito popular como mantra. Infelizmente, nesses últimos dias, ela foi engolida pela primeira parte.

A realidade do clube de General Severiano é complicada há anos. Muitos anos. Sufocado por dívidas históricas, frutos de gestões que gastavam o que não tinham, o clube não soube se contentar com o tamanho real. Uma realidade que cabe à maioria dos clubes que se veem em dificuldades financeiras.

O modelo associativo brasileiro é, na verdade, uma empresa sem donos formais, controlado por estatutos que ninguém tem muito interesse em cumprir (mesmo quando eles possibilitam sanções, nenhum dirigente tem vontade política em seguir com essas conversas, pois pode ser o próximo a ser sancionado), “vigiado” por regras, leis e regulamentos que existem mas nunca são aplicados. Ou seja, um porto seguro para gestões irresponsáveis.

A lista de clubes que poderiam estar de mãos dadas com o Botafogo é extensa. Na verdade, a lista dos que se sustentam pelas próprias pernas é pequena. Pequena e escrita a lápis numa folha bem fina. Resultado de um modelo político que pode ter sua gestão alterada a cada eleição e isso significar o fim da linha da austeridade. Afinal, de que adianta estar equilibrado e não conquistar títulos? O modelo, por mais amarras que tenha, é frágil. É pós-fato, não evita o problema e ainda tem dificuldade em puni-lo.

Dito isso, o processo para virar empresa é complexo. Talvez para clubes que já têm característica de ter donos, como é o caso do Athletico Paranaense, cujo sucesso está intimamente ligado ao planejamento e estratégia definidos pelo dirigente Mario Celso Petraglia – goste-se dele ou não – ou clubes pequenos, sem grandes estruturas de sócios. Porque eles têm menos questões políticas a resolver, menos apego aos cargos e ao cartão de visitas com o símbolo do clube.

Mesmo quando isso parece solucionado, há questões práticas que dificultam a construção de um caso de sucesso, associadas à governança, compliance e quem comandará o clube. Isso sem falar no aspecto financeiro.

Podemos fazer paralelos com empresas de controle familiar que recebem ofertas de fundos de private equity, ou outras que tentam se organizar para abrir capital. Regulamentos, histórico de balanços auditados, mudança completa de governança, mapeamento de dívidas e contingências. Os processos de due dilligence decentes contam com inúmeras assessorias e levam tempo, demandam ajustes de preços, de condições de negociação e podem culminar no cancelamento da operação.

Não seria no futebol associativo, político, com fragilidades de compliance e governança, carregado de dívidas que isso seria fácil. E adicione a este bolo uma cereja: o poder – ou a perda dele. Pronto. Mesmo que pareça necessário, que se mostre necessário, que seja necessário, não será fácil.

O caso do Botafogo é emblemático. Os problemas nascem de gestões ruins, com muita gente mandando. Na transformação em empresa, sem a presença de um futuro dono único para comandar o processo, virou uma espécie de ação entre amigos, quase um crowdfunding, mas que não atingiu os objetivos. Infelizmente é a realidade, porque não chegará o bilionário russo ou chinês, nem o sheik árabe, e muito menos o City Football Group com um cheque robusto para resolver os problemas do clube.

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Talvez esse bilionário tenha que ser brasileiro mesmo e trabalhar mais com a paixão que com o bolso, digo, a razão. Ou talvez o clube tenha que arcar com um processo semelhante a uma recuperação judicial, com todos os riscos embutidos. O fato é que, por vias usuais, a saída será mais difícil. Não é uma questão de ângulo ou possibilidade: é uma questão de realidade.

Aliás, este é um problema que atinge a grande maioria das empresas brasileiras, e não seria diferente no futebol. Segundo estudo do Observatório de Insolvência da PUC-SP, que levantou casos de recuperação judicial entre 2010 e 2018, 18,2% das empresas têm sucesso ao final do processo, enquanto 24,8% vão à falência. E 57% das empresas permanecem em estado quase dormente, se arrastando, em constantes reestruturações.

O que permite aumentar a chance de solução é iniciar o processo cedo, antes que a situação esteja fora de controle, abrir mão de comando e gestão para que profissionais entrem no dia-a-dia para cortar custos, abrir mão de patrimônio, reestruturar passivos com prazo longo e descontos, e até trocar dívidas por participação acionária. Tudo pode ajudar, mas essencialmente passa por abrir mão do negócio como ele era conhecido antes.

No final, ser empresa ou associação pode ajudar mais ou menos – ou não ter nenhum impacto – se os procedimentos de gestão e de apego ao poder e ao negócio forem maiores ou menores.

O Botafogo é o exemplo da vez de uma série de problemas que habitam o mundo do futebol: excesso de gente mandando, trocas constantes de poder, incapacidade de planejamento, falta de governança e compliance, apego ao poder e falta completa de clareza da distância entre querer e conquistar, fruto da ideia equivocada que no Brasil temos sempre 12 candidatos ao título de campeão brasileiro.

O passar do tempo vivendo nessa ilusão, alimentada por imprensa e torcedores e levada adiante por dirigentes negligentes, é a aplicação nua e crua do Darwinismo: teremos em breve um campeonato com disputas concentradas, mas por falta de competidores.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real