O Brasileirão começou: é hora de ajustar a expectativa sobre seu time

O tal campeonato dos "12 times candidatos ao título" já não existe há algum tempo e, na atual temporada, tem tudo para continuar não existindo

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Jogadores do Atlético-MG levantam o troféu do Brasileirão 2021 (Pedro Vilela/Getty Images)

Começou neste sábado (9) o Brasileirão 2022. Na coluna desta semana, vamos tratar da disputa esperada para a competição. O tal campeonato dos 12 times candidatos ao título já não existe há algum tempo e, na atual temporada, tem tudo para continuar não existindo.

Antes de entrar nos detalhes que justificam a afirmação acima, vamos lembrar de alguns fatos históricos.

Até 2002, o Campeonato Brasileiro da Série A era disputado em formato híbrido, com definição de campeão em sistema eliminatório, o famoso “mata-mata”.

Não raramente, esse sistema levava clubes classificados entre 5º e 8º na fase inicial ao título da competição. Só de considerar que havia ao menos oito clubes classificados, era natural termos muitos candidatos ao título.

Em termos financeiros, até 2011, a principal fonte de receita dos clubes, o contrato de direitos de transmissão, era negociado pelo Clube dos 13 e tinha uma divisão relativamente igualitária.

Com dinheiro parecido, a capacidade competitividade também era parecida. Não dá para negar que mais dinheiro também significa mais chance de conquistas. Nos estudos da consultoria Convocados, temos isso bem delineado.

Então, quando os contratos de TV passaram a direcionar mais dinheiro a clubes de maior apelo de audiência, suas capacidades competitivas cresceram e eles começaram a se destacar nas conquistas.

Depois, isso foi sendo potencializado por boas gestões dentro e fora de campo. Veja a tabela abaixo:

Na tabela, temos a classificação da Série A entre 2012 e 2020. As cinco maiores receitas estão marcadas em azul. Já os cinco primeiros colocados e os quatro rebaixados estão marcados em vermelho.

Vemos que, nos primeiros anos pós-mudança no contrato de TV, ainda havia certo equilíbrio, impulsionado por clubes que ainda se organizavam – Flamengo e Palmeiras – e porque muitos receberam luvas pelo novo contrato e gastaram em formação de elenco.

Desde 2014, o campeão da Série A é um clube com uma das cinco maiores receitas. Apenas em 2015 houve menos de três clubes com as cinco maiores receitas do ano entre os cinco primeiros colocados. Mais receitas, mais custos com salários, mais contratações.

Ainda há explicações, como o caso do Atlético Mineiro, que teve custos turbinados por recursos de sócios em 2020. No mesmo ano, o Palmeiras ficou fora dos cinco primeiros lugares pois estava envolvido nas finais da Copa do Brasil e da Libertadores.

E, em 2021, os três primeiros – Atlético Mineiro, Flamengo e Palmeiras – certamente fizeram parte das cinco maiores receitas do ano.

Claro que ter mais dinheiro não garante nada. Corinthians e São Paulo frequentaram a parte inferior da tabela entre 2016 e 2020.

Enquanto isso, alguns clubes de menor receita ocuparam posições mais nobres nessa década, como Athletico, Santos e Fluminense. Em 2021, esse foi o caso de Fortaleza e Red Bull Bragantino. Com menos dinheiro, é fundamental um trabalho esportivo eficiente.

Deixe-me trazer outro dado: a evolução das receitas recorrentes consolidadas da Série A no período.

Nessas receitas, excluímos os valores obtidos com as negociações de atletas e elas estão corrigidas pelo IPCA. Podemos observar que a variação consolidada é baixa, exceto por 2016 (ano em que os clubes obtiveram valores importantes de luvas por renovação do contrato de TV) e 2019 (pelo impacto positivo no desempenho dos brasileiros na Libertadores).

Ou seja, pode até acontecer de um clube aqui e outro ali conseguirem saltos importantes na receita, mas a indústria opera a crescimento moderado no tempo.

Assim, é pouco provável que algum clube consiga ter crescimento de receita recorrente sustentável que o faça mudar de patamar rapidamente.
Isso deve continuar acontecendo mesmo com o advento das SAFs, que injetarão dinheiro, mas tendem a ter um impacto mais a longo prazo, trazendo métodos mais eficientes de gestão e investimentos em vez de conquistas rápidas.

Na tabela abaixo, temos as receitas dos cinco primeiros colocados da Série A entre 2018 e 2020:

Apenas em 2020 tivemos dois clubes com receitas abaixo de R$ 200 milhões, sabendo que no Atlético Mineiro a receita teve reforço de dinheiro de sócios e os gastos com salários não foram compatíveis com esses valores.

Logo, pense que gastos com folha representam cerca de 55% das receitas, e você verá o tamanho do orçamento que esses clubes possuem.

Clubes com menor receita tendem a demandar tamanha eficiência que podem ocupar posições relativamente boas, mas dificilmente chegarão ao título. O Leicester até vence a Premier League, mas é tão raro que vira exemplo.

Onde quero chegar com isso? Na expectativa dos torcedores.

É muito bacana todo mundo iniciar o Brasileirão sonhando com o título. Faz parte do nosso comportamento de torcedor, que, para alguns, acaba impulsionado pela conquista do Estadual, por exemplo. Mas precisamos ajustar as expectativas.

A tendência é que os clubes de maior receita e, consequentemente, elenco de mais qualidade e quantidade de atletas, briguem de forma mais forte pelo título da competição. Tão simples quanto isso.

Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro tendem a disputar novamente as primeiras posições. A partir daí começa a valer a referência da gestão mais eficiente, não para ser campeão, mas para brigar por uma das tantas vagas pela Libertadores.

Mais que isso: a eficiência premiará clubes de menores receitas com a permanência sem sustos na Série A. E isso deve servir de estímulo para projetos de longo prazo, de engajamento da torcida para aumentar receitas, de investimentos em base e gestão para fazer receitas maiores e sustentáveis com negociação de atletas, e também do uso eficiente do dinheiro, controlando gastos desnecessários.

Numa competição longa, o que faz a diferença é o dinheiro, mas o que pode ser um diferencial é uma gestão esportiva eficiente. Para ser campeão?
Possivelmente não. Mas o objetivo pode ser simplesmente apresentar bons espetáculos, permanecendo na Série A, buscando vagas em competições continentais, brigando pela Copa do Brasil.

Ao torcedor, cabe o papel do apoio, da cobrança para que as contas estejam em dia, para que o clube tenha suas cores defendidas com o devido respeito, mas sem a meta inalcançável, que vira frustração. Ser campeão é sensacional, mas ir ao estádio ou acompanhar pela TV uma partida bem jogada pelo seu time também pode ser memorável.

Se aprendermos a alinhar as expectativas, o futebol será mais agradável e sustentável, sem perder seu principal combustível: a paixão.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti