Negociações de atletas e as mudanças que estão a caminho no mercado

Existe uma ideia de que negociar direitos econômicos de atletas é um erro. Deveríamos manter nossos atletas jogando no Brasil o máximo de tempo possível. É um desejo, mas não necessariamente uma verdade ou realidade
Por  Cesar Grafietti -
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A coluna desta semana segue tratando de temas relacionados ao Relatório Convocados/XP, que traz um raio-x da indústria do futebol brasileiro em 2021, com dados e informações sobre o passado e informações que permitem a todos os stakeholders entenderem para onde vai o futebol brasileiro.

O tema hoje é a negociação de atletas.

Existe uma ideia de que negociar direitos econômicos de atletas é um erro. Deveríamos manter nossos atletas jogando no Brasil o máximo de tempo possível. É um desejo, mas não necessariamente uma verdade ou realidade. Para analisar esse tema, trarei alguns dados referentes às principais ligas de futebol europeias.

Primeiro, é claro que ter melhores atletas significa ter maior chance de melhorar a qualidade do produto oferecido. Agora, dado que o Brasil é um mercado que produz muitos talentos, é natural que parte deles não permaneça em solo brasileiro, inclusive porque é preciso oxigenar as estruturas, abrindo espaço para novos e promissores talentos.

Então, negociar atletas por bons valores é algo que faz sentido. Repõe parte dos investimentos feitos e permite que o clube seja capaz de continuar formando com qualidade. Diz uma lenda não confirmada, mas que nasce no meio do futebol, que apenas cerca de 5% dos atletas que passam pelas categorias de base de algum clube profissional chegam a disputar competições de alto nível. Por isso, é importante que suas transferências sejam remuneradas de maneira a garantir que um atleta negociado permita que o clube mantenha 150 atletas em formação.

Esse é um negócio que vinha contribuindo de forma importante com a formação de receitas dos clubes brasileiros até 2019. Após a pandemia, ele seguiu importante, mas vem perdendo relevância, conforme vemos no gráfico abaixo:

Tanto em euros quanto em reais, os valores de receitas auferidos pelos clubes da Série A brasileira sofreram redução em 2020 e 2021. Naturalmente, há uma explicação baseada na pandemia, pois todos os clubes na Europa e em mercados menores sofreram com redução de receitas, levando a corte de gastos e investimentos. Mas limitar a análise a essa informação e ignorar as transformações pelas quais o futebol europeu vem atravessando é correr o risco de ficar apenas com parte da realidade, e todos sabemos o que isso significa.

No gráfico abaixo, temos os valores de negociações das últimas janelas de transferência europeias:

A análise por temporada indica que temos que somar “Verão de um ano” com “Inverno do ano seguinte”, de forma que Ver’18 + Inv’19 seja equivalente a Ver’19 + Inv’20. Assim, depois do pico de € 7 bilhões de 19/20 tivemos queda para € 5 bilhões em 20/21 e € 4,8 bilhões em 21/22. Mas note que as últimas duas janelas de inverno voltaram à média anterior.

Agora, veja a distribuição de negociações da temporada 18/19 para 20/21 em quantidades de atletas negociados por distribuição de valores:

Mas quanto essas receitas de negociação de atletas são importantes para os clubes? Veja no gráfico abaixo a distribuição de clubes por importância da negociação de atletas em suas receitas:

Enquanto no Brasil, em 2021, apenas 5% dos clubes da Série A tiveram receitas com negociação de atletas representando acima de 50% do total, na Bélgica esse número foi de 31%, na Holanda, 22%, na Alemanha foi de 11%, França e Itália atingiram 45% e 30% e Portugal chegou aos 84% de clubes com receitas de negociação de atletas representando mais de 50% de suas receitas.

O Brasil ficou abaixo apenas da Inglaterra, onde nenhum clube da Premier League teve mais de 50% de suas receitas vindas da negociação de atletas.

Ou seja, todos vendem e todos dependem de negociações para fazer dinheiro. Muitas vezes, esses valores fecham as contas dos clubes, enquanto, em outras, são o combustível que faz o negócio de aquisição, formação e negociação se manter operando.

Agora, há uma tendência clara de redução na demanda por atletas, especialmente daqueles acima de 24 anos. Não por acaso. Há fatores que levam a essa situação, e vamos elencá-los:

– Têm aumentado a quantidade de atletas que vão até o final do contrato e depois trocam de clube de graça. Isso faz com que os clubes optem por gastar menos na contratação, renovando os contratos no meio de sua validade para não correr o risco de investir muito e limitar o retorno ao desempenho em campo.

– A Fifa está limitando a quantidade de atletas acima de 24 anos que podem ser emprestados. O número da próxima temporada será de oito e, até 2025, chegará a no máximo seis atletas. Logo, clubes tendem a reduzir a quantidade de atletas pouco utilizados no elenco e, como não poderão emprestá-los, devem negociá-los a valores menores. Ao mesmo tempo, isso aumenta a demanda por atletas abaixo de 20 anos, com prazo para se desenvolverem antes de atingirem a idade de limitação de empréstimos.

– A Uefa mudou as regras do antigo Fair Play Financeiro, agora chamado de Sustentabilidade Financeira, e passou a incluir as amortizações de contratações no cálculo que limitará os gastos em relação às receitas. Isso induz os clubes a investirem menos caso queiram ter capacidade de pagar salários mais elevados.

Esses movimentos ajudam a explicar maior cuidado nas contratações e a tendência de aumento de atletas saindo dos clubes sem custo, como recentemente aconteceu com Dybala, Kessie, Bale, Perisic, Lewandovski, entre outros. E explica também o crescimento na contratação de jogadores abaixo de 24 anos, conforme gráfico abaixo:

Portanto, o que se espera para o mercado brasileiro de negociação de atletas é uma redução na demanda por atletas acima de 23 anos, com concentração naqueles entre 18 e 21, e uma tendência à redução nos valores. Ou seja, cada vez mais é fundamental formar bem, em quantidade e com qualidade. Os clubes tendem a ter que negociar mais atletas para poder alcançar os valores que antes eram atingidos com uma ou duas negociações.

Isso muda a forma de operação do futebol e tende a manter no mercado brasileiro mais atletas de boa qualidade.

É, portanto, fundamental que os clubes entendam essa dinâmica e se preparem para ela. Atenção também ao discurso de “não vendemos atletas”, porque ele pode estar apenas encobrindo a falta de negociações, que são essenciais para a oxigenação do elenco. Negociar muito é ruim, mas negociar pouco também. O fundamental é ter talentos que despertem interesse nos principais mercados, mas também ser capaz de formar aqueles que seguirão no clube.

A única coisa que não pode é ignorar os sinais que o mercado apresenta.

Cesar Grafietti Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti

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