Como o Fair Play Financeiro impactou a janela europeia de transferência de atletas

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Transferência de Federico Chiesa para a Juventus-ITA é um dos exemplos de negociação feita pensando no Fair Play Financeiro – Getty Images

Tivemos na última segunda (5), o encerramento da janela europeia de transferências de atletas de futebol. Como todos sabem, existem duas janelas de transferências, que assim são chamadas pois abre-se a oportunidade para que os clubes ajustem seus elencos, buscando desde uma maior eficiência esportiva até maior estabilidade financeira.

Como já escrevi em outras oportunidades e repito aqui, não se engane: os clubes europeus vendem muitos atletas e usam dessa estratégia para atingir diversos objetivos. Vender é necessário para atingir metas de lucro do Fair Play Financeiro e para garantir que as metas de equilíbrio entre receitas e despesas sejam atingidas.

Falando nisso, o momento de janela de transferências na Europa é um evento. Os meios de comunicação destacam equipes de reportagem e muitas horas de suas programações para monitorar os passos dos clubes.

E, por incrível que pareça para o torcedor brasileiro, o tempo é dividido entre aspectos técnicos e financeiros dos negócios. Qual o lucro na venda de um atleta? Qual o impacto nos custos de uma contratação? Tem que vender um para trazer outro? Emprestar a custo zero ajuda na contratação de alguém? E se contratar por empréstimo com cláusula de compra futura?

Pois é, como dizem por aí algumas pessoas que se agarram às poltronas de comando dos clubes e dos microfones, “futebol é diferente”. Talvez no Brasil, onde ainda engatinhamos em diversos debates. Mas, nos lugares em que ele é uma indústria, o futebol é tão complexo quanto uma empresa de papel e celulose, uma siderúrgica, uma trading de commodities. É diferente, mas requer capacidade para geri-lo.

Para iniciarmos o tema, vamos a alguns dados gerais da temporada. As cinco principais ligas europeias movimentaram na janela deste verão cerca de € 3,1 bilhão em negociações, 38% menos que no mesmo período do ano passado. Certamente, um reflexo da pandemia.

Note que apenas a Ligue 1 francesa teve crescimento de contratações, amparado em montantes relevantes de vendas em períodos anteriores, além do crescimento recente no valor dos direitos de TV, vendidos ao grupo espanhol Mediapro.

Aliás, parênteses: a empresa espanhola não fez o pagamento da segunda cota referente ao direito de TV da próxima temporada, que deveria ter ocorrido em 5 de outubro. A Mediapro diz que o contrato assinado no ano passado teve suas condições alteradas pela pandemia e pede renegociação. Isso mostra que os impactos da Covid-19 tendem a piorar e durar por um bom tempo.

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Naturalmente, os volumes de negociações perderam valor em função da pandemia. Os clubes estão com menos dinheiro e isso derrubou os valores, mas não fez um estrago tão grande na quantidade de negócios. O que mudou foi o modelo de negociação. Falaremos sobre isso mais adiante.

A Fifa divulgou neste final de semana um relatório sobre as transferências internacionais de atletas. Excelente termômetro de movimentação entre países – o que exclui os valores negociados internamente – o material traz um dado interessante sobre a idade das negociações.

 

Veja que as negociações estão concentradas entre os 18 e 29 anos. Isso é natural, pois esse é o período em que uma carreira profissional se desenvolve. Mas note que, enquanto na faixa entre 18 e 23 anos o percentual de atletas negociados é praticamente o mesmo de dinheiro movimentado, os atletas entre 24 e 29 anos são menos negociados, mas movimentam mais dinheiro.

Eles acabam ocupando espaço financeiro da faixa seguinte. E isso explica porque os clubes que preferem contratar atletas mais jovens – na etapa seguinte à formação eles costumam valorizar. Os dados também mostram que há um momento certo de venda, pois no início da fase madura os atletas passam a valer menos.

Dando agora um zoom nos 25 clubes que mais contrataram na janela que acabou de ser fechada, temos o seguinte cenário:

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De certa forma, o que observamos é que os maiores contratantes mantiveram a relação entre contratações e vendas. Mas em termos de quantidades, esses 25 clubes contrataram 7% menos atletas, enquanto venderam 23% menos.

Mas este é um número pouco confiável para uma análise, à medida em que o site Transfermarkt considera que os casos de atletas que retornam de empréstimos são considerados “chegadas” de atletas. Faz pouco sentido, pois muitos estão nesse processo aguardando o final do contrato.

Vamos avaliar os maiores compradores das duas últimas janelas de verão:

Aqui dá para fazer uma série de análises, mas simplificaremos em alguns nomes:

– Chelsea: por conta de uma sanção da FIFA, o clube inglês foi proibido de contratar atletas na temporada passada. Então, sobrou dinheiro para fazer um mercado relevante nesta janela e se transformar no maior comprador da temporada.
– Real Madrid: por uma questão de estratégia, o clube espanhol simplesmente não fez mercado de aquisições. Vendeu e emprestou alguns atletas, de forma a ajustar seus custos à realidade da pandemia, e vai certamente aguardar a próxima temporada para aquisições relevantes, dentro do padrão histórico do clube.
– Juventus: pelo segundo ano seguido entre os maiores contratadores, a equipe italiana optou na atual temporada por rejuvenescer o elenco, gastando muito menos que na temporada anterior.
– Barcelona: destaque nas contratações, mas nesta temporada também nas vendas. Note que, se na temporada passada o saldo entre contratações e vendas foi negativo em € 102 milhões, na atual temporada ficou positivo em € 3 milhões. Necessidades financeiras observadas nos números preliminares de 2019/20 recentemente publicados.
– Milan: o clube entra aqui como referência dos efeitos do Fair Play Financeiro. Na temporada passada, ele esteve entre os 25 maiores contratantes. No acordo com a UEFA pela quebra de Fair Play Financeiro, o clube se obriga a reduzir dívidas e colocar os custos dentro dos limites de receitas, e, por conta disso, investe bem menos na atual temporada, atrás até da Atalanta.

As estratégias para o Fair Play Financeiro

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Falando no Milan e nas ações resultantes da sua punição pela UEFA, os clubes conhecem bem as regras da entidade para o Fair Play Financeiro.

Assim como grandes empresas possuem estruturas de tributaristas prontos a buscar eficiência fiscal, os clubes possuem equipes que pensam e executam ações legais que os permitam fazer mais com menos. Ou, pelo menos, fazer isso de forma a evitar sanções.

Um caso comentado antes do encerramento do ano fiscal foi a negociação Arthur/Pjanic entre Juventus e Barcelona, tema de uma coluna anterior.

Nesta janela, o que vimos com mais força foi a grande quantidade de empréstimos, muitos com cláusulas de compra futura em caso de atingimento de algumas metas. Os empréstimos são saídas necessárias para aliviar o fluxo de caixa, pois, mesmo recebendo valores pequenos, o clube deixa de pagar salários e isso permite ajuste de contas ou mesmo abertura de espaço para outros atletas chegarem. Sobre isso, falemos de Juventus.

O clube de Cristiano Ronaldo executou duas operações que só foram possíveis porque foram “casadas” no tempo: os empréstimos de Douglas Costa e Chiesa.

Ao longo da janela, o clube sempre deixou claro que alguns movimentos só seriam possíveis caso houvesse venda relevante e redução de custos. A frustrada tentativa de contratação de Suárez só seria possível porque o atleta vinha a custo zero e porque o clube havia liberado Higuaín e Mandzukic. No final, chegou Morata.

Mas a Velha Senhora viu a possibilidade de contratar o jovem, mas já experiente, Federico Chiesa, da Fiorentina. O clube toscano tinha o atleta sob contrato até o final de 2021, quando ele poderia sair sem deixar dinheiro em caixa. A negociação com a Juventus levou algum tempo, e, em determinado momento, até o Milan mostrou interesse, que acabou quando a venda de Paquetá atingiu valores bem menores do que o clube esperava.

Mas a Juventus precisava reduzir os gastos salariais. E a contratação só seria possível com a saída de Douglas Costa. Que ocorreu com operações seladas nos dois últimos dias da janela: primeiro a Juventus conseguiu emprestar o atacante ao Bayern de Munique. Mas o time italiano esperava uma venda, para usar o dinheiro na contratação de Chiesa. Com o empréstimo do brasileiro, o clube se viu obrigado a buscar alternativa semelhante, de forma a evitar saída de caixa, mas mantendo os custos compatíveis.

A operação de Chiesa com a Fiorentina foi a seguinte:

– Empréstimo de dois anos com obrigação de compra ao final do segundo ano desde que atingisse condições mínimas de desempenho: i) a Juventus se classificar para a Champions League; ii) o atleta participar de ao menos 60% das partidas ou fazer 10 gols e dar 10 assistências por ano.
– No primeiro ano, o clube paga € 3 milhões, no segundo ano pagará € 7 milhões e, se confirmar a contratação, pagará € 40 milhões e bônus de desempenho, podendo chegar a € 60 milhões o total desembolsado.

Os impactos dessa operação no sistema de Fair Play Financeiro são os seguintes:

Para a Fiorentina: o clube toscano reduz custos salariais e terá registrada receita de € 3 milhões em 2020/21, de € 7 milhões em 2021/22 e, em 2022/23, a entrada de ao menos € 40 milhões. Ou seja, já garante receita futura, o que o permite trabalhar com valores mais apertados de custos no período, pois as contas de Fair Play Financeiro na UEFA são feitas com a soma de três anos de desempenho financeiro.

Para a Juventus: na parte das contratações, o clube será impactado de forma relevante apenas em 2022/23, então joga para frente os efeitos de uma das regras. Na parte de custos, o impacto é imediato, pois o atleta já entra com os salários pagos imediatamente. Mas, como houve a saída combinada de Douglas Costa, o clube se mantém dentro dos valores anteriores.

Impactos no Fair Play Financeiro

Sempre que surgem operações heterodoxas, surgem comentários sobre a forma de enganar o Fair Play Financeiro. Vejo certo exagero nisso, mas há questões que poderiam ser avaliadas no modelo.

Por exemplo, se o modelo utilizasse o conceito de “Receitas Não-Recorrentes”, que excluem as movimentações envolvendo a negociação de atletas, reduziria algumas estruturas, como a dos empréstimos casados. Não precisa ignorar as negociações, mas atribuir pesos a ela.

Outra alteração importante é recomendar que os clubes que fizerem operações de empréstimos com cláusula de compra incluam o valor da possível compra como uma provisão, e considerar esta provisão nos cálculos de endividamento.

O fato é que o modelo da UEFA, e que vigora na maior parte dos países, é bastante simplista, e permite ações legais e legítimas dos clubes com intuito de reduzir o espaço das sanções.

Modelos mais robustos e sofisticados tendem a reduzir a margem de manobra para superá-los. Por vezes, demandam maior atenção por parte dos leigos na análise e avaliação. Mas, com boa comunicação, fica claro que são mais eficientes no seu objetivo. É por aí que caminhamos no Brasil.

Precisamos pensar que o futuro do futebol passa por uma visão mais pragmática da questão financeira, além de um processo de educação do torcedor em relação a isso. Será bom para todos.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real