Flamengo e River disputam Libertadores. No balanço financeiro, o campeão é claro

Vencedor da partida decisiva recebe 15% do que paga a Champions League: uma distância abissal

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Flamengo e River Plate
(Shutterstock) Flamengo e River Plate

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Final de Copa Libertadores chegando e o assunto da coluna desta semana não poderia deixar de ser a partida entre Flamengo e River Plate, a ser disputado em jogo único em Lima, no Peru.

Mas obviamente não falarei do jogo em campo e nem me atrevo a dar palpite sobre o campeão. Vamos traduzir a final em números e falar das diferenças financeiras entre os finalistas, além de comparar números da Libertadores da América com a Champions League.

Trataremos primeiro dos finalistas da Libertadores da América. Flamengo e River Plate fazem parte dos clubes de maior faturamento de Brasil e Argentina. Enquanto o Flamengo vem disputando o posto de maior receita brasileira com o Palmeiras, o River Plate está lado a lado com o Boca Juniors.

Mas as semelhanças entre o brasileiro e o argentino param aí. Veja os números mais recentes e já falo mais sobre isso.

River Plate Flamengo River Plate Flamengo
Ago18 Dez18 Ago19 Set19
12 meses 12 meses 12 meses 9 meses
Sócios 21,2 12,5 21,1 6,4
Bilheteria / Sócio Torcedor 20,9 22,4 23,4
Publicidade 14,6 21,7 74,9 11,6
Venda de Atletas 11,3 13,7 41,3
TV 4,6 53,5 35,8
Outros 9,0 5,3 9,5 2,8
Receita Total 81,6 129,2 105,5 121,4
Receita Recorrente 70,3 115,4   85,5
Custos (68,1) (85,8) (95,1) (84,3)
Custos / Receitas Recorrentes 97% 74% 99%
EBITDA 13,5 43,4 10,5 37,1
EBITDA Recorrente 2,2 29,6 1,2
Superávit / Déficit (16,3) 11,1 (18,3) 16,6
Dívidas Curto Prazo 51,3 31,1 49,2 47,6
Dívidas de Longo Prazo 5,6 69,6 2,3 78,8
Dívidas Totais 56,9 100,7 51,5 126,4
Em Milhões de Euros
Fonte: Balanços dos Clubes / Câmbio: Banco Central do Brasil / oanda.com

A primeira diferença está na qualidade da informação divulgada. Enquanto no Brasil os clubes são obrigados a divulgar seus demonstrativos financeiros anualmente – e o Flamengo ainda divulga os parciais trimestrais – na Argentina, os clubes não são obrigados, e obter os balanços é um trabalho de garimpo em sites de torcedores locais, pois acabam sendo “vazados” de alguma forma.

Os números de Ago/18 e Dez/18 são finais, enquanto o dado de Ago/19 do River Plate foram informações oficiais mas limitadas dos resultados. No caso do Flamengo, temos os dados de nove meses referentes a Set/19. Os números foram convertidos para Euros, que é a moeda funcional do futebol.

Em condições recorrentes, a receita do Flamengo é 64% maior que a do River Plate, e o destaque é a diferença de valor recebido da TV. As demais receitas são parelhas, mesmo em publicidade, que deve subir com a entrada da Turkish Airlines na camisa do River Plate a partir de Set/19, por € 4,5 milhões anuais. No final, a receita com Sócios recompõe a diferença de Publicidade.

O que chama a atenção no clube argentino foi o crescimento considerável de custos e receitas nos demonstrativos encerrados em Ago/19. Os custos ficaram € 27 milhões acima do número do ano anterior e as receitas cresceram quase na mesma proporção (+€ 23,9 milhões, fruto de premiações pela conquista da Libertadores e participação no Mundial de Clubes), de forma que o EBITDA (geração de caixa) ficou pouco abaixo do resultado do ano anterior.

A estratégia do River Plate foi clara e é bem conhecida de muitos clubes brasileiros: gasta o que não tem para conquistar títulos. Depois vê o que faz. Quando dá certo, parece ótimo, pois o torcedor fica feliz, mesmo que atletas, clubes e o governo fiquem sem receber por algum momento. Quando não vencem, além do dinheiro das premiações não chegar, fica o gosto amargo de ter que lidar com uma série de pendências financeiras.

A lógica do atual presidente do River Plate, Rodolfo D’Onofrio, é a mesma que motivou dirigentes brasileiros há até pouco tempo: conquistas primeiro, finanças depois. No comando do clube argentino desde 2013, conquistou em seus mandatos a mesma quantidade de Libertadores que o clube tinha antes de sua chegada (2) e pode encerrar seu período como o maior vencedor do clube, com 3 Libertadores.

Essa política do River Plate causa problemas até para pares brasileiros, pois o clube deve R$ 18 milhões ao São Paulo pela contratação de Pratto, atrasado há quase 1 ano. A estratégia para lidar com o elevado endividamento é a eterna venda de atletas: i) se vencer a Libertadores 2019, usa a premiação para resolver problemas imediatos e vende dois atletas para equacionar a situação, ou; ii) vende 3 atletas em caso de não conquistar o título. Os flamenguistas claramente esperam que o River Plate tenha que vender 3 atletas ano que vem.

É uma gestão de quem vive na corda bamba, pois depende de sucesso esportivo – e só um pode ser campeão – e da venda de atletas, que nem sempre ocorre ou nem sempre pelo valor ideal. Visão ultrapassada do que é a gestão no futebol.

Enquanto no Brasil já está claro que o caminho é o da gestão eficiente, equilibrada, como vemos com Flamengo, Palmeiras, Grêmio (os 3 participaram das últimas duas semifinais de Libertadores), no River Plate ainda vale a mentalidade do dirigente “gastão”, uma vez que o Boca Juniors possui números melhores, equilíbrio, mas seus torcedores assistem ao adversário levantar troféus.

Se não mudar o perfil, quando faltar o resultado em campo haverá impacto no financeiro, vide o que vemos passar hoje Cruzeiro, Vasco, Fluminense, Internacional. O resultado é sempre um aumento expressivo das dívidas, acima do que o clube pode pagar.

Sobre o Flamengo, pouco a acrescentar ao que já é falado o tempo todo. O clube continua naquele círculo virtuoso, onde o equilíbrio de uma boa gestão financeira chegou aos campos, com um time de ótima qualidade técnica, recebendo em dia, e com as receitas ainda crescendo. Sem venda de atletas ainda será um clube da ordem dos R$ 550/R$ 600 milhões de receitas, o que é um baita número. Alavancagem controlada – confortável no curto prazo e a maior parte alongada no Profut – transparência, e um exemplo a ser seguido. Começou o processo de busca pelo equilíbrio antes da maioria, colhe os frutos antes da maioria.

Libertadores da América x Champions League: Comparações

Vou pular a parte em que falamos sobre a diferença financeira entre os clubes europeus e sulamericanos. Vamos direto a alguns números.

No caso da Champions League a premiação da fase de grupos é variável. Os clubes ganham um valor fixo – € 18,5 milhões – e uma parte variável de acordo com os valores de direitos de transmissão de cada clube em seu país. Para este exercício utilizamos os valores do Liverpool campeão em 18/19. A partir das fases eliminatórias os valores são fixos. Na Libertadores os valores são fixos em todas as etapas.

No total, a Champions League distribuiu € 2,04 bi em 18/19, enquanto a Libertadores pagará € 148 milhões, o que já representa aumento de 58% em relação a 2018.

Com isso, a diferença realmente é gritante. O campeão da Libertadores receberá 15% do Campeão da Champions League, enquanto o vice receberá 11%.  Coisas de um futebol que precisa de tornar relevante, e a Conmebol está trabalhando para isso ao elevar consistentemente a premiação. Mas para isso a qualidade da competição precisa evoluir, com melhores jogos, horários que gerem interesse em mercados mais ricos. Isso só acontecerá quando houver mais equipes interessantes a serem acompanhadas ao longo da competição. Mais dinheiro, melhores equipes, círculo virtuoso.

Na Europa os clubes mudam a estratégia de montagem de elenco caso se classifiquem para a Champions League, tal a importância financeira da competição. Só por participar da fase de grupos um clube recebe cerca de € 30 milhões. Para clubes menores, que faturam abaixo de € 100 milhões, é relevante. Na América do Sul este é um comportamento visto, mas menos pela parte financeira e mais pela própria conquista esportiva. No gráfico abaixo vemos alguns números em relação a isso:

Note que a premiação para os europeus é mais importante que para os sulamericanos, o que mostra o tamanho da nossa desigualdade, que vem sendo diminuída paulatinamente pela Conmebol. Obviamente que o dinheiro é importante, e especialmente para o River Plate compõe parte relevante da estratégia financeira. Vencer significa aliviar a pressão de caixa no curto prazo. Mas só de chegar à final já é um bom desempenho. É que ser campeão ainda trará outros € 4,5 milhões pela participação no Mundial de Clubes, mais eventuais bônus de desempenho.

Enfim, termina a partida! Ao vencedor, o título e alguns milhões na conta! Espero um grande jogo, a primeira final em jogo único da Libertadores. E que ela continue a crescer e transformar a relevância esportiva em relevância financeira.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real