Esporte já perdeu dezenas de bilhões, mas ficar em casa é a melhor solução

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Coronavírus
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Começaremos esta coluna com uma recomendação: fique em casa. Quanto mais eficiente for esta quarentena, menor será seu tempo e seus impactos.

Impactos que já são vistos em toda a economia, no mundo todo. Paralisação de comércio, indústrias, serviços. Gente que trabalha e se arrisca para manter funções básicas da vida, para que quem consiga possa ter acesso a alimentação, demanda básica do ser humano.

Aqui falo de esporte e finanças, mas preocupado com o que se passa na economia e no mundo, com os dilemas entre a convulsão social pela doença ou pela falta de dinheiro. Primeira lição que me vem à mente é aquela de nunca comparar países e economias diferentes. O que acontece na Itália, na Alemanha, na Inglaterra, nos EUA é diferente do que se passa no Brasil. Portanto, soluções europeias e americana não cabem a um país que tem tamanha desigualdade e massa de pessoas tão grande em situação de risco e informalidade. Por isso, dependemos mais e mais de ações coordenadas e eficientes de governos.

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Os impactos da Covid-19 no esporte serão enormes. Alguns serão compensados no futuro, mas outros simplesmente deixarão problemas. Possivelmente os eventos esportivos de menor porte serão mais afetados, pois muitos simplesmente deixam de acontecer. A falta de Indian Wells, ou o encerramento precoce da Superliga de Vôlei no Brasil são operações que tem custos e deixarão de ter receitas. E demandam ações externas, das associações e federações, para ajudar a diminuir os impactos financeiros sobre as pessoas, e de certa forma, sobre os organizadores.

As competições de maior porte e que foram “apenas” postergadas para 2021 tendem a ter menor perda. Vamos exemplificar com a Eurocopa 2020, competição continental de futebol entre Seleções. Neste ano a edição completa 60 anos, e por isso foi montada de uma forma a receber mais países e mais sedes. Normalmente realizada em sedes fixas, em 2020 seria disputado em 12 países, de forma a levar o esporte a mais lugares.

Economicamente a ideia é boa, porque além de partilhar os custos, pois cada sede fica obrigada a entregar um estádio em ordem, além de uma estrutura de logística (aeroporto e/ou estação de trem) eficiente. Naturalmente, investimentos em hotelaria e infraestrutura básica. A maioria das sedes já tinha estádios qualificados e estruturas logísticas prontas, de forma que os investimentos foram concentrados em poucas localidades.

Não foi possível obter o quanto cada sede investiu, mas a partir de estudos feitos pelas prefeituras de Bilbao (Espanha) e Dublin (Irlanda), que indicavam o impacto econômico da competição para suas cidades, preparei um exercício de qual seria o impacto total da competição, conforme a tabela abaixo.

Utilizei premissas a partir das informações dos respectivos estudos, e utilizei como referência de custos por turista dados da Eurostat, cruzando com as seleções que jogarão em cada país e estimando o movimento de turistas.

A partir dessa soma de fatores cheguei aos dados acima, como impacto em cada cidade, considerando a importância das partidas, onde serão disputadas e por quantas partidas. Na soma, a competição continental de seleções europeias de futebol deveria movimentar cerca de 1,86 bi de euros nas 12 sedes, considerando hotelaria, transporte interno, alimentação, passeios e compras.

Se somarmos a expectativa de gastos com transporte aéreo e ingressos, o valor total que a competição poderia movimentar é da ordem de 2,71 bi de euros.

Naturalmente que estes valores não são perdidos. As instalações permanecerão à disposição, e os gastos ficam postergados para o próximo ano. Os impactos maiores neste momento estão associados aos empregos temporários que a movimentação de pessoas geraria, mas que estão contemplados na conta. De qualquer forma, pessoas deixarão de comparecer e movimentar economias.

Jogos Olímpicos de Tóquio

Outra competição de grande porte que foi postergada para 2021 foram os Jogos Olímpicos de Tóquio. Aqui, diferente do modelo de competição da Euro 2020, o impacto é num único local, e tende a ser mais sensível.

O Comitê Olímpico Japonês informou que o país investiu entre 2013 e 2020 cerca de US$ 13,4 bilhões nas instalações esportivas e na reformulação da infraestrutura, construção de hotéis e aperfeiçoamento geral do país. Não é pouco dinheiro. Mas o fato é que o impacto desses investimentos já foi absorvido e sentido na evolução do PIB do país ao longo do tempo. Segundo estudo da BOJ Reports & Research Papers, o impacto no PIB pode ser assim medido:

O impacto médio estimado é entre 0,2% e 0,3% do PIB, que teria parcela importante a ser adicionada em 2020 por conta da presença de turistas para a competição, já observada em 2019.

Nesse sentido, o Japão recebe cerca de 20 milhões de turistas anualmente, viu estes dados crescerem para 25 milhões em 2019 e a estimativa é que os Jogos Olímpicos adicionassem cerca de 13 milhões de turistas ao longo do ano, pela exposição que a competição gera. Transferir a competição para 2021 pode significar redução nessa estimativa, a depender dos impactos econômicos globais e da queda generalizada de renda das pessoas.

Pelo estudo da BOJ o impacto da presença de turistas na economia japonesa seria de algo como US$ 4,5 bilhões. Completando esta informação com estudo da Fitch publicado pela Newsweek, que indica que o PIB japonês pode sofrer redução forte, indo de -0,2% para -1,1%, então temos um cenário bastante difícil, e que justifica a dificuldade do governo japonês em confirmar que a competição seria postergada.

Isso tudo sem considerar os impactos relacionados às transmissões de TV e às ações dos patrocinadores do evento. A TV movimenta US$ 4,2 bi em direitos de transmissão, de um total estimado de US$ 5,7 bi de receitas comerciais dos jogos. Calendário e grade de programação alterada, efeitos no consumo. A Covid-19 não veio para aliviar a vida de ninguém.

Ligas Americanas

Todas as ligas de esportes nos EUA também interromperam suas competições, gerando incertezas e perdas relevantes. As competições não foram canceladas, apenas paralisadas, mas já a Covid-19 já deixa rastros de problemas.

Segundo estudo da Sports Innovation Lab, as 4 ligas que estão em disputa ou entrariam em breve acumularam perdas da ordem de US$ 3,1 bilhões apenas com o chamado Matchday (ingressos, gastos com alimentos, estacionamentos e pequenos souvenires), sem considerar os Playoffs.

Segundo o estudo, o mais afetado seria a MLB (US$ 2,03 bi), seguido da NBA (US$ 0,47 bi), da NHL (com US$ 0,33 bi) e da MLS (US$ 0,28 bi), considerando a data de 30/Junho/20 como limite de encerramento do lockdown e retorno das atividades. Se forem efetivamente cancelados ainda teremos muitos outros custos e problemas.

Estes números não são nada se comparados aos enormes problemas econômicos que teremos, ocasionados pela Covid-19. Mas neste momento a melhor alternativa para reduzirmos os impactos e retornarmos à vida como era antes disso tudo é ficando em casa. Acredite, já estou entrando na 4ª semana de quarentena aqui em Milão, e a notícia que mais esperamos é a da redução de casos e retomada das atividades. Quanto maior a adesão, mais rápida a solução. E mais cedo voltaremos a ter nossos esportes – e nossa vida – de volta.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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