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Primo Rico apresenta 7 passos para montar sua carteira de investimentos do zero

ESG e esporte: esta dupla precisa se conectar

Pensar no futuro do esporte é também pensar numa indústria sustentável sob todos os pontos-de-vista

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Largada do GP da Arábia Saudita da Fórmula E, categoria da FIA para carros elétricos (Divulgação)

Muita gente já deve ter ouvido falar na sigla ESG. O que em inglês é a soma de Environmental, Social and Governance, e que para a língua de Camões seria o equivalente a Meio-ambiente, Social e Governança.

Essa sigla representa uma demanda da sociedade para que todas as estruturas produtivas persigam esses aspectos, como um comportamento que possibilite uma relação sustentável entre os processos produtivos, as pessoas e o planeta.

Quando falo em sociedade, penso claramente na parcela de formadores de opinião que sabem o quão importante é ter um comportamento baseado nessas três letras, para que o mundo possa ajustar a rota de evolução.

Uma das molas propulsoras desse comportamento sustentável é o fato de que investidores do mundo todo estão cada vez mais atentos e cobrando para que seus investimentos retornem mais que juros, e incluam evoluções importantes para a humanidade.

Parece muito piegas, mas é fato. A (r)evolução é um processo de longo prazo. Quando o dinheiro encontra o propósito, temos uma união que ajuda a impulsioná-la.

O que isso tem a ver com um espaço cujo tema central é esporte, finanças e gestão? Tudo.

Porque a mudança passa por todos os segmentos da sociedade e abarca uma série de fatores, da mudança na matriz energética, que precisa ser menos fóssil e mais limpa, passando pela preservação ambiental que nos garante melhor qualidade de vida, chegando à melhoria na condição geral das pessoas, com mais educação, formação, saúde, igualdade de gênero, e na aplicação de modelos eficientes e eticamente sustentáveis de gestão.

E o esporte não pode ficar à margem disso tudo.

Nos próximos parágrafos, vamos traçar algumas linhas que deveriam fazer com que o esporte e o comportamento ESG se entrelacem, utilizando uma indústria que é exemplo para toda a sociedade.

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Começamos por um dos pilares dessa indústria: a capacidade de medir as evoluções e melhorias. Não basta se dizer ESG, é preciso provar que suas práticas melhoraram a estrutura da indústria.

É preciso comprovar a redução de CO2, a melhoria de indicadores sociais, os ganhos com modelos de gestão mais conscientes e eficientes. Isso gera valor, seja para o futuro do planeta, seja financeiro.

Há uma massa de recursos e investimentos pronta e demandando ações nesse sentido. O esporte vai precisar quebrar algumas barreiras para acessá-la.

ESG no Esporte

Começando pelo E (Environmental/Meio-ambiente), se o grande foco é preservar e mudar a matriz energética, reduzindo emissões de CO2 e outros poluentes, aparentemente há pouco a evoluir nesse sentido. Mas não dá para dizer que não há nada.

Grandes eventos consumem muita energia, que no Brasil é bastante limpa quando pensamento em eletricidade. Segundo informações da Aneel de 2019, 61% da energia elétrica brasileira é hídrica, 9% é eólica, e pouco menos de 8% vem de fontes fósseis (petróleo, carvão etc.). Logo, 92% é limpa, o que torna o esforço necessário, mas menor.

No esporte, há pouco a contribuir, ainda que seja possível instalar placas fotovoltaicas, reduzir o consumo com lâmpadas especiais. Não é exatamente aqui.

Exceto nos esportes automotores. O grande desafio deles é passar a operar num ambiente de menor consumo de energia fóssil, sem perder a característica da velocidade.

A indústria já é responsável por inúmeras evoluções que impactam a produção de materiais menos poluentes e mais resistentes, mas ainda resta um desafio.

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Pensando além da energia, o meio-ambiente agradece se as estruturas de grandes eventos e partidas puderem desenvolver modelos mais sustentáveis de coleta de lixo, com uso de materiais biodegradáveis e a educação do torcedor para que parte da festa vire lixo reciclável, ou mesmo se torne perene. A ideia dos copos colecionáveis, por exemplo, é bem bacana.

Mas há aspectos nos quais o esporte pode ser mais relevante na evolução, que são as letras S e G. Falamos então do social.

Aqui, temos que ir bem além da ideia simplória de dizer que os clubes e federações precisam fazer quadras e campos em comunidades periféricas, distribuir uniformes e tirar fotos. O envolvimento no aspecto social do ESG é bem mais complexo. E o primeiro aspecto é a relação com os atletas.

O sonho de consumo de um jovem que pensa no esporte é chegar ao sucesso, ficar milionário e mudar de vida. Mas sabemos que são poucos que alcançam isso, o que faz com que uma grande quantidade siga por carreiras mal remuneradas, e que ao final não possuem uma profissão real.

Assim como o esporte americano dá um grande valor para a formação educacional, os esportes ao redor do mundo, e especialmente no Brasil, têm um desafio e o dever de olhar para a base da pirâmide e prepará-la para um futuro longe do esporte, especialmente no futebol.

Dar opções de carreira e estudo para quem não atingiu o nível desejado de desenvolvimento, possibilitando que esse atleta possa ter uma chance efetiva em outras atividades, deveria ser um caminho necessário para o esporte. Para que os jovens possam escolher e não depender de um futuro que, aos 23 anos, já parece terminar se eles não alcançam o espaço desejado nos grandes clubes.

Em 2020, uma pesquisa da Federação Nacional de Atletas Profissionais e da Esporte Executivo apontou que 38% dos jogadores de futebol no Brasil ganham menos de R$ 2 mil, e 37% ganham entre R$ 2 mil e R$ 7 mil. Parece bastante comparado aos R$ 1.500 mensais de renda média brasileira, mas lembre-se de que a renda decresce com a idade e a carreira vai pouco além dos 35 anos. E depois?

No aspecto social, o esporte precisa olhar com mais afinco para a questão da desigualdade de gênero.

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Precisa dar atenção ao desenvolvimento do esporte feminino, especialmente no futebol. E isso não tem nada a ver com salários iguais, mas sim com a capacidade de desenvolver de forma sustentável a atividade, dando condições de desenvolvimento dentro e fora, pois é possível optar por desistir do esporte ainda jovem.

Outro aspecto interessante está ligado aos eSports. Quantos jovens não poderiam utilizar estruturas que nascem no jogo e migram para o desenvolvimento de programação nas periferias das cidades brasileiras? Os equipamentos custam caro, e falta conhecimento técnico para desenvolvimento de soluções que nascem na brincadeira, passam pelo (cada vez mais profissional) mundo dos games e chegam à possibilidade de desenvolver uma indústria que vai além dos bairros nobres das capitais.

O esporte precisa pensar também em toda sua cadeia produtiva. Qual a condição de trabalho de todos que possibilitam um grande evento? Todas as marcas de materiais esportivos operam de forma sustentável? Estamos desenvolvendo materiais e equipamentos mais resistentes e menos poluentes?

Segundo a Agência Portuguesa de Ambiente, 80% das fibras utilizadas na produção de roupas não é reciclável. Uma camiseta de algodão, por exemplo, gasta 2,7 mil litros de água para ser produzida, o equivalente ao consumo de uma pessoa por 2 anos e meio.

Veja, não é ser chato. Mas esses comportamentos ajudam o desenvolvimento da indústria do esporte.

Eles permitem que as estruturas sejam financiadas com mais recursos, que ficam cada vez mais baratos.

Por isso, há um entendimento claro de que ser sustentável, pelo menos nos primeiros passos do processo, demandará investimentos que precisam ser financiados a preços justos.

A governança no Esporte

Essa é uma das partes mais fáceis de enxergar espaço de crescimento e desenvolvimento no esporte.

Pensando especificamente no Brasil, os clubes tem um enorme caminho na construção de estruturas eficientes de gestão, com a introdução de modelos profissionais de controle, regras claras de uso do dinheiro, controle de investimentos, manutenção das contas em dia, que significa inclusive uma responsabilidade com a sociedade, ao pagar todos os encargos sem ter que apelar de tempos em tempos com os infindáveis refinanciamentos.

É precisar desenvolver uma estrutura de controle do fluxo do dinheiro, de forma a saber quanto e para onde ele foi direcionado. Mais dinheiro dentro do sistema, com maior responsabilidade dos clubes para com seus funcionários, menos dependência de terceiros no relacionamento com os atletas.

Os clubes, especialmente de futebol, precisam se organizar de forma a garantir que eles sejam o centro dos negócios do esporte. Hoje, eles se tornaram apenas um meio de passagem, em que todo o entorno ganha dinheiro, enquanto vivem à cata de moedas.

Não é só um discurso

O grande erro de alguns segmentos é achar que termos como ESG são só um discurso chato.

Especialmente um sistema arcaico como é o do futebol. Há um mundo de recursos financeiros buscando oportunidades envolvendo a sigla ESG.

Em 2019, foram captados US$ 21 bilhões em fundos para aporte em projetos sustentáveis, número que chegou a US$ 51 bilhões em 2020, segundo levantamento do MorningStar, nos EUA.

Com o crescimento do valor dos investimentos diretos e indiretos no esporte, seja em aquisições clubes, de empresas de produção de conteúdo, games, ligas, entre tantos outros, o dinheiro passará a ser mais seletivo na sua decisão de alocação. Desenvolver projetos vinculados ao tema ESG será fundamental para acessar esses recursos.

Começamos pelo final, organizando a indústria a partir do G, evoluímos cuidando dos desenvolvimentos do S, para chegarmos fortes ao E. O esporte não pode seguir à margem de temas tão relevantes. Pensar no futuro do esporte é também pensar numa indústria sustentável sob todos os pontos-de-vista.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real