Do susto à terceirização do debate: a MP 984, seus riscos e desdobramentos

A preocupação nunca é em relação aos nomes, mas sempre aos conceitos. O mercado de direitos esportivos está em declínio, afetado pela pandemia. Competições estão perdendo valor e quem renovar agora perderá ainda mais, especialmente num modelo individualizado

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(CR Flamengo/Flickr/ Alexandre Vidal)

Vamos falar da MP 984, aquela que nasceu para mudar a forma de negociação dos direitos de arena do esporte, conhecidos como Direitos de TV. Quem me acompanha já sabe que sou contra, tanto pela forma quanto pelo conceito.

Mas aos que quiserem ampliar o debate, peço que leiam sem clubismos, até porque, além do tema, ainda trarei alguns pontos que ajudam a construir a ideia de que a expectativa sobre venda de direitos é maior do que a realidade.

O que me faz trazer novamente a “Equação do Descontente”:

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Frustração = Expectativa (-) Realidade

Quando a expectativa é alta e a realidade se mostra menos glamourosa, o que sobra então é uma enorme frustração.

Vou pular a parte em que justifico a ideia de porquê o modelo de negociação individual é ruim: tendência de gerar distorção nos valores pagos entre os clubes, desorganização do calendário em relação a horários e dias da semana e excesso de meios de transmissão, dificultando a gestão por parte do torcedor.

Isso sem contar os aspectos políticos de eventuais aprovações nos clubes. A ideia de que as negociações começam individuais e migram para o coletivo esbarra nos valores que alguns terão que abrir mão no futuro para que haja coletividade.

Alguém acredita que um clube que ganhará 300 aceitará ganhar 250, vendo seus concorrentes ganharem mais? Qual presidente proporia isso e que Conselho aprovaria?.

Claro que temos que analisar tudo sob a ótica dos Riscos e das Oportunidades.

Para alguns clubes, certamente é uma oportunidade de aumentar suas receitas, assim como é um chacoalhão que pode acelerar mudanças importantes no relacionamento entre eles. Mas há também riscos.

O problema é não ponderar risco e retorno, pois cada um olha apenas o benefício que lhe convém.

Além disso, o futebol brasileiro vive de seus modismos e mitos. Um deles é o da entrada triunfal das empresas de streaming nas negociações de direitos esportivos, usando Facebook e Amazon como exemplos de sucesso. Menos. Vamos tratar dos exemplos recentes da Amazon no futebol.

Uma casa de research inglesa chamada Enders Analysis fez um estudo sobre a estratégia da Amazon ao comprar os 20 jogos da Premier League para apresentar via Prime Video, sua plataforma de streaming.

Veja no gráfico abaixo a quantidade de downloads do app do Prime Video e do app de compras da Amazon:

O que se observa é um salto significativo no início das transmissões e um retorno à média na sequência.

Junto, há um crescimento de downloads do app de compras, acima da média histórica. Isso indica que parte dos torcedores que baixaram o app do Prime também baixaram o de compras.

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Estes, poderiam cancelar a assinatura após 30 dias de uso gratuito ou iniciar o pagamento de 7,99 libras mensais. Para quem já era assinante, o valor das partidas estava no pacote original. Então, o impacto de receitas para a Amazon foi zero.

A empresa comprou um pacote pequeno de partidas por 90 milhões de libras e conseguiu um crescimento de 12% na base de assinantes Prime (foram adicionados 739 mil assinantes), retornando à média na sequência.

A partir daí, o consumidor pode experimentar os serviços Prime de vídeo e de entregas, e a Amazon acredita que parte deles permanecerá cliente da plataforma
Investimento baixo, retorno alto.

Vamos para a próxima: a divulgação da plataforma Twitch. Voltada para games e transmissões de e-sports, ela foi comprada pela Amazon em 2014 e entra no pacote Prime da empresa, com um pagamento adicional.

Para divulgar a plataforma no Reino Unido, a Amazon decidiu transmitir quatro partidas gratuitas, para que os consumidores conheçam o serviço.

Não é uma estratégia de transferência das partidas do Prime para o Twitch, mas simplesmente a ideia de que é importante fazer o consumidor Prime conhecer este negócio e, no futuro, virar assinante dele.

Para se ter uma ideia de que a estratégia da gigante americana é pontual e depende de mercado a mercado, ela não participa do novo contrato de TV da Bundesliga que vai até 2025, deixando o pequeno pacote que tem até o final da atual temporada.

Ou seja, estratégia de divulgação atendida com baixo custo e vida que segue. O futebol era só um meio de acessar o cliente para conhecer os serviços.

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Aliás, a Bundesliga viu os valores da renovação de contrato caírem cerca de 200 milhões de euros, no total, mostrando que o fôlego de crescimento nos valores dos direitos está se esgotando – a Premier League já havia visto redução nos direitos domésticos da ordem de 5%.

Voltemos à MP.

O Congresso apresentou 91 emendas à MP 984, que vão desde a obrigatoriedade dos clubes formarem uma Liga para negociarem seus direitos de TV, até um refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes, para às quais seria dado um desconto e transferidas para a Caixa, que receberia o valor através das apostas da Timemania.

(Colocando em ordem de grandeza: as dívidas dos clubes da Série A são cerca de R$ 3,5 bi e a Timemania repassa por volta de R$ 65 milhões anuais aos clubes. Numa conta de padaria seriam necessários 46 anos para que esses recursos pagassem a dívida, sem considerar a incidência de juros – o que mostra que a terceirização do debate tende a gerar um monstrengo com resultados imprevisíveis)

Nesta semana tivemos desdobramentos sobre o tema. O Flamengo transmitiu uma partida do Campeonato Carioca com enorme sucesso pela FlaTV. Números impressionantes, mas que precisam ser analisados com parcimônia.

De qualquer forma, eles ratificam a ideia de que clubes nacionais e de grande alcance de torcida terão maior sucesso nas negociações individuais.

Uma conta simples, novamente: o Flamengo recebe cerca de R$ 190 milhões da TV atualmente. Com 1,6 milhões de pessoas pagando R$ 10 mensais, o clube já receberia o mesmo valor. Claro que isto é simplista, mas é uma referência. Mas quantos times têm a capacidade de capturar esse valor?

O Bahia, por exemplo, tinha cerca de 36 mil assinantes no Premiere (serviço de pay-per-view) em 2019 e recebeu cerca de R$ 75 milhões da TV.

Para atingir o mesmo valor, ele precisa fazer R$ 6,3 milhões mensais de receita. Cobrando R$ 10 mensais, ele precisaria de 625 mil torcedores. Por R$ 50 mensais, seriam necessários 125 mil torcedores. Lembrando que isso vale para 19 partidas do Brasileiro.

Mas é claro que os clubes podem se organizar em grupos. Também nesta semana, aqueles que assinaram com a Turner para TV fechada foram ao Planalto mostrar apoio à MP. Óbvio.

Porque ao ver a potencial perda de receitas com a decisão da empresa de rescindir o contrato, esta é a alternativa para que não se vejam obrigados a negociarem com a Globo, em condições possivelmente piores que as atuais.

Note-se que se eles estivessem tão seguros que há inúmeros pretendentes pelos seus direitos, apenas fariam a mudança e vida que segue.

Aliás, outro parênteses: a ação da Turner/Esporte Interativo mostra mais uma vez a incapacidade de união dos clubes. A ação de negociar individualmente, esperando receber mais do que os adversários, criou o problema.

Nem a Turner soube conduzir o processo, mostrando que os interesses são menos nobres e puramente financeiros, nem os clubes, que já poderiam ter trabalhado de uma forma coletiva desde o princípio.

Com a transmissão da partida pelo Flamengo, tivemos uma importante movimentação de peças na partida de xadrez que o tema se transformou: a Globo anunciou a rescisão do contrato do Campeonato Carioca.

Ainda que ela permaneça pagando os clubes neste ano – praticamente já foi tudo pago –, a decisão gera dois problemas: nas negociações das próximas temporadas do estadual e um alerta de que este pode ser o destino do Campeonato Brasileiro. E há elementos que podem gerar esse resultado no nacional: o Athletico, que não assinou o PPV, e os clubes da Turner.

Outros impactos de uma medida dessas são a falta de estratégia para um ano complicado como o de 2020 e o fim dos adiantamentos de direitos de TV.

Falando nesses adiantamentos, eles funcionam assim: a Globo usualmente não dá anuência para que o contrato seja antecipado. Então, o clube procura um banco, que monta uma estrutura imperfeita em termos de garantia e adianta os recursos. A instituição financeira conta com o histórico de boa pagadora da Globo e a boa-fé do clube para receber o dinheiro conforme os pagamentos que a TV efetua.

Por isso, sem contrato de TV não há fluxo futuro, e os clubes perdem a possibilidade de fazer empréstimos com esse lastro.

“Ah, mas os adiantamentos são ruins!”. Sim, são, mas é inegável que eles sustentam vários clubes e não será interrompendo este fluxo que os clubes se enquadrarão.

Eles vão precisar buscar outras fontes de financiamento, em situação financeira delicada.

Esses são alguns efeitos de um processo que começou torto e que ninguém sabe como terminará.

Minha preocupação nunca é em relação aos nomes, mas sempre aos conceitos. O mercado de direitos esportivos está em declínio, afetado pela pandemia. Competições estão perdendo valor e quem renovar agora perderá ainda mais, especialmente num modelo individualizado.

Espero que haja um andamento que nos leve a uma forma coletiva de negociação. Mesmo que seja através de uma improvável união entre os clubes.
Se ele vier, serei o primeiro a dizer que minha incredulidade estava errada, e que demos um salto qualitativo enquanto indústria.

Além disso, a negociação da MP precisa ser feita com cuidado e analisada além do tema dos direitos de TV, para evitarmos os absurdos que aparecem do nada.

O futebol brasileiro precisa evoluir. Que os clubes aproveitem o momento e a oportunidade.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real