Crise pós-pandemia e Brexit: os movimentos no futebol europeu que impactam o futebol brasileiro

Se não bastasse a grave crise causada pela Covid, o negócio passará a viver sob um novo regulamento de transferências de atletas na Premier League por conta do Brexit

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Os movimentos no futebol europeu que impactam o futebol brasileiro

O futebol europeu passa por mudanças conjunturais e estruturais que devem impactar o futebol brasileiro no curto e médio prazo.

Se não bastasse o efeito da pandemia, o negócio passará a viver sob um novo regulamento de transferências de atletas na Premier League por conta do Brexit.

Mas há coisas boas e ruins, e há exemplos de como os clubes brasileiros ainda sofrem pela falta de um modelo mais corporativo de gestão.

Começando pelos efeitos da pandemia, não era segredo para ninguém que os clubes sofreriam com queda de receitas pela ausência de público nos jogos, redução de consumo e investimentos em marketing.

Agora, com os primeiros números sendo divulgados, conseguimos materializar este impacto. E, principalmente, perceber como os clubes reagiram a eles.

Se os dados da Associação Europeia de Clubes (ECA) indicavam que em 19/20 os clubes teriam queda de € 1,2 bilhão em receitas, não se assuste: a estimava da associação é de que a atual temporada traga outros € 2,4 bilhões em redução de receitas.

Números grandes o suficiente para gerar uma série de ajustes nas estruturas de custos das equipes.

Começando pela dupla espanhola e a mais rica do mundo. Barcelona e Real Madrid sofreram tais impactos de forma diferentes – e estão tendo dificuldades diferentes neste momento.

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Impacto nos Números de 19/20

Note como os clubes foram impactados e responderam de formas diferentes: enquanto o Barcelona apresentou receitas 14% inferiores à temporada anterior – e quase 20% abaixo do orçamento, que era de € 1,05 bilhão – o Real Madrid teve receitas reduzidas em 6% em relação ao ano anterior.

Apesar disso, o Barcelona apresentou orçamento para a temporada atual com redução de 3% em relação à anterior, enquanto o Real Madrid foi bem mais conservador e apresentou queda de 14%.

Ambos fizeram ajustes em suas estruturas, liberando atletas e reduzindo investimentos. Mas, ainda assim, a visão do Real Madrid é muito mais condizente com o momento que a do Barcelona.

Não por acaso, o clube catalão acabou de anunciar que não fará o pagamento da parcela salarial de janeiro pois não teria como honrá-la (o Barcelona paga salários duas vezes ao ano, em janeiro e julho).

Isso mesmo após a liga espanhola indicar que os dois clubes precisariam reduzir seus gastos salariais em cerca de 35% para se adaptar às regras do fair play financeiro do país.

Orçamento mal calibrado gera expectativas irreais, especialmente quando as premissas levam em consideração aspectos incontroláveis, como a reabertura dos estádios no meio de uma pandemia, venda de atletas ou premiações por classificações.

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Mas não são apenas os espanhóis que estão sofrendo. Veja abaixo alguns clubes que já divulgaram dados de 19/20:

Apenas nessa amostra, as receitas de 19/20 caíram 10% em relação a 18/19, a geração de caixa (EBITDA) foi 31% menor e o prejuízo cresceu quatro vezes.

Parte disso certamente virou dívida ou aporte de capital, duas situações que os clubes brasileiros tem pouca (e até nenhuma) capacidade de acessar.

Na verdade, as dívidas na Europa são feitas junto a bancos, com garantias reais ou dos acionistas, enquanto no Brasil os clubes se endividam atrasando salários, porque o acesso a crédito estruturado é raro e normalmente tem uma fonte de garantia, o direito de TV.

Bem, nem preciso falar do aporte de capital, já que no Brasil ainda preferimos demonizar os clubes que têm donos em vez de criar estruturas que protejam os torcedores. Mas isso é outro assunto.

Agora, se 2019/20 foi assim, podem esperar que 20/21 será tão ruim ou pior. Especialmente porque há uma chance não desprezível de não termos público nos estádios ao longo de toda a temporada, reduzindo ainda mais as receitas.

Logo, o resultado disso será necessariamente a redução de salários, dispensa de atletas e redução de investimentos. Teremos uma forte retração no tamanho da indústria do futebol e o aumento da dependência de receitas da TV.

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Por isso, as partidas não serão paralisadas por causa da pandemia, diferente do que ocorreu na temporada anterior.

O reflexo desse cenário tende a ser maior oferta de atletas na Europa, com a queda ainda maior nos valores das negociações, uso cada vez mais recorrente das trocas, que não geram movimentação financeira, mas apenas econômicas, e ainda permitem que os clubes ajustem seus elencos.

Para o Brasil, isso significa menor interesse em atletas locais – e ainda assim com redução de valores.

A demanda tende a ser restrita àqueles jovens que despontarem na temporada, mas de forma muito seletiva, seja porque falta dinheiro, seja porque haverá oferta dentro da Europa.

Mas há um aspecto positivo: os valores de salários tendem a sofrer redução efetiva, à medida em que haverá menor capacidade de pagamento pelos clubes.

Isso pode ser positivo para os clubes brasileiros que embarcarem na onda correta da Europa, o que seria óbvio. Mas não canso de dizer: se é óbvio, então não faz parte do que se espera dos dirigentes brasileiros.

Efeito Brexit

Mas não é só a pandemia que impactará as negociações de atletas dos clubes brasileiros.

Como efeito do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, a Federação Inglesa (FA) e a Premier League alteraram as condições para que atletas de foram do Reino Unido possam ser contratados por clubes locais.

Isso tende a gerar algumas mudanças na indústria, que tentarei resumir a seguir:

1. Condições para contratação

A FA/Premier Legue criou um sistema de pontuação. Cada atleta que vem de fora do Reino Unido será avaliado a partir de algumas condições profissionais. O jogador ganha pontos dependendo do (i) país do clube de origem, (ii) minutagem em campo, (iii) desempenho do clube na liga e na copa locais e (iv) desempenho na competição continental.

O atleta precisa ter ao menos 15 pontos para ser considerado apto a ser contratado por um clube da Premier League.

A exceção são os atletas que foram convocados para partidas da seleção local nos últimos 12 meses, o que garante livre acesso aos clubes ingleses dependendo da colocação da seleção no ranking da Fifa. No caso da seleção brasileira, é necessário ter sido convocado para ao menos 30% das partidas.

2. Localização do país de origem é fundamental

As regras dividiram os clubes do mundo de acordo com o país de origem. São cinco grupos, sendo que no Grupo A estão as outras quatro grandes ligas europeias (Espanha, Alemanha, França e Itália), no B estão Holanda, Portugal, Bélgica, Turquia e a EFL, e, no grupo C, estão Rússia, Brasil, Argentina, México e Escócia.

Por exemplo, um atleta que joga na Serie A italiana ao menos 90% do tempo em que estava disponível (sem contusão) recebe 12 pontos, enquanto um atleta que joga o mesmo tempo no Brasil recebe 8 pontos.

E essa lógica segue nos demais itens, de forma que para um atleta de um clube brasileiro poder ser contratado, independentemente de sua nacionalidade, precisa jogar ao menos 90% dos jogos na Série A (8 pontos), 90% na Libertadores (2 pontos), vencer a Série A (4 pontos), chegar à final da Libertadores (2 pontos). Por jogar no Brasileirão, ele receberia outros 8 pontos.

Ou seja, o jogador tem que somar 15 pontos nas condições acima. Se jogar o Brasilerão e mais de 90% do tempo, faz 16 pontos e está apto. Se jogar 70% do tempo, então faz 6 pontos, e, com os 8 por jogar o Brasileirão, tem 14 pontos. Logo, precisa de mais alguma pontuação para estar apto a se transferir para a Premier League.

Mas o que isso tudo significa? Que as negociações envolvendo atletas das outras quatro grandes ligas e do grupo B tendem a se manter inalteradas. Já os atletas vindos de ligas menores terão maior dificuldade para serem contratados.

Dessa forma, o acesso a promessas de ligas do leste europeu e da América do Sul tende a diminuir, o que deve gerar um movimento desses atletas em direção às ligas “elegíveis”.

Menor oferta de emprego significa maior poder de barganha de quem contrata.

Há outra restrição importante: os clubes do Reino Unido não podem mais contratar atletas Sub-18 e, no máximo, seis atletas Sub-21 por temporada, sendo, no máximo, três a cada janela de transferência. Não há restrições de quantidade para a EFL, mas a idade mínima permanece como 18 anos.

O objetivo é dar mais espaço à formação de atletas locais. Mas essa é mais uma forma de restrição de acesso a atletas brasileiros.

Efeitos no Brasil

Naturalmente, o mercado da Premier League para atletas que saem diretamente do Brasil não chega a ser relevante.

O grande impacto dessas medidas está no fato de que as demais ligas passam a não ter a competição tão ferrenha com os clubes ingleses, especialmente na busca por atletas de ligas secundárias europeias.

Isso aumenta a oferta e a possibilidade de contratações, pois muitos iam diretamente para a Premier League.

Some-se a isso o efeito da redução de capacidade de contratação e pagamento de salários e temos um ambiente que aumenta ainda mais a dificuldade dos clubes brasileiros, tão dependentes da venda de atletas para fecharem suas contas.

A solução é seguir o exemplo europeu e cortar custos, se adequando ao que é possível, não ao que é desejado.

O tempo de gastar e esperar que a venda de um atleta feche as contas está ficando cada vez mais no passado, exceto para quem faz bem seus deveres de casa: i) tem as contas em ordem e não depende de venda de atletas, e ii) tem boa captação de talentos e investe em tecnologia e evolução, garantindo a boa formação.

Como em todas as indústrias profissionais, controle financeiro e qualificação da estrutura sempre são a solução.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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