Copa América x Eurocopa: a diferença entre dois mundos

As competições, que serão disputadas simultaneamente, escancaram as diferenças entre o futebol que se pratica na Europa e na América do Sulque deveria ser o ápice do futebol.

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Cristiano Ronaldo Portugal
Cristiano Ronaldo, craque da seleção portuguesa, a atual campeã da Euro, em amistoso contra a Espanha nesta sexta (4) – Uefa/Divulgação

Nos próximos dias, teremos o início das duas principais competições continentais entre seleções de futebol, a Euro e a Copa América. Poderemos assisti-las praticamente lado a lado.

Por força do destino pandêmico, teremos as duas competições ao mesmo tempo, com a Euro 2020 iniciando em 11 de junho e, a Copa América, em 13 de junho. Na verdade, elas já seriam concomitantes em 2020, ocupando o mesmo espaço no calendário. A pandemia apenas postergou as disputas em um ano.

As competições escancaram as diferenças entre o futebol que se pratica na Europa e na América do Sul. Se a distância é óbvia quando falamos de clubes, ela fica ainda mais dolorida quando o tema são as seleções. E não falo apenas de aspectos técnicos, mas de gestão e cuidado com o que deveria ser o ápice do futebol.

O primeiro aspecto que precisamos ponderar é o da relevância das seleções para cada torcedor. O futebol é multinacional, mas geograficamente concentrado nos clubes europeus. Ver tantos atletas brasileiros jogando longe dos torcedores é uma das justificativas mais comuns para o distanciamento entre torcedor e seleção.

Na Europa, ainda que algumas seleções concentrem seus atletas no próprio país, a realidade é bem parecida com a brasileira.

Se na Itália apenas quatro atletas jogam em outros países, a Bélgica tem 24 “estrangeiros”. Já na Holanda são 15 os que jogam fora do país, na Inglaterra são apenas 3, na Espanha são 14, na Alemanha são 7 e, na favorita França, são 20. E ainda assim o torcedor se importa com suas seleções, especialmente em grandes competições.

Mas qual a diferença? Ela está em questões históricas, políticas e culturais, e rivalidades que vão além do campo. Múltiplas rivalidades. Espanha e Portugal, Bélgica e Holanda, Alemanha e Itália, França e Inglaterra, Ucrânia e Rússia, entre outras, entrelaçadas além do óbvio.

Na América do Sul, as rivalidades ficaram menores, são menos países, alguns tecnicamente muito frágeis.

Enquanto na Eurocopa podemos listar ao menos oito seleções que praticam um futebol qualificado – Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Portugal e Croácia – existem outras tantas que podem surpreender, como Dinamarca, Rússia, Suíça e Turquia.

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Na Copa América, se o título escapar de Brasil, Argentina e Uruguai será algo para marcar história, como foi a conquista grega na Eurocopa de 2004.

Mas esqueçamos o aspecto esportivo. Até porque Brasil, Argentina e Uruguai têm capacidade de fazer partidas interessantes e agradáveis. Vamos nos concentrar nos aspectos de organização.
Enquanto a Euro foi disputada três vezes num período de dez anos (2012, 2016 e agora em 2021), a Copa América teve cinco edições (2011, 2015, 2016, 2019 e 2021). Sempre falo que a escassez faz uma enorme diferença no valor dos ativos. Quanto mais escasso, maior o desejo por ele.

Tanto é que, enquanto a seleção campeã da Copa América receberá US$ 14 milhões (sendo US$ 4 milhões o valor mínimo para os participantes do torneio), o vencedor da Euro 2020 receberá € 34 milhões (US$ 40 milhões) e o valor mínimo é de € 9,5 milhões (US$ 11 milhões). Enquanto a Euro é “a Copa do Mundo sem Brasil e Argentina”, a Copa América permanece uma competição com três seleções, exceto pelo país anfitrião, que sempre tem uma força competitiva adicional.

Em termos de organização, as duas competições deveriam ocorrer em 2020. A Copa América tinha a boa ideia de dividir partidas entre Argentina e Colômbia, o que ajuda a reduzir custos operacionais, ainda que aumente a dificuldade para quem quer acompanhar sua seleção. Mas daí me pergunto se há tantos torcedores a acompanhar as seleções ao longo da Copa América, como fazem na Copa do Mundo. Improvável.

De qualquer forma, ainda em 2020 a Colômbia esperava um aumento entre 25% e 50% na taxa de ocupação hoteleira, a depender da cidade, segundo matéria do jornal La República. O país esperava cerca de 300 mil turistas para a competição. Como comparação, o Chile recebeu 70 mil turistas estrangeiros quando sediou o torneio em 2015, e eles deixaram cerca de US$ 136 milhões no país.

A Colômbia investiu cerca de US$ 100 milhões em estruturas para a competição, sendo metade para adequar estádios e transportes, e a outra parte para logística e promoção.

No lado da Euro 2020, a competição será organizada em 11 sedes, e a ideia inicial era justamente fazer com que um grande contingente de pessoas viajasse pela Europa. A expectativa antes da competição era de que 2 milhões de pessoas se deslocassem pelo continente.

Na Euro anterior, em 2016 na França, foram gerados € 1,1 bilhão em negócios para o país, sendo que € 630 milhões apenas com turismo, com 615 mil visitantes estrangeiros, de acordo com estudo do Observatoire de l’Economie du Sport publicado pelo site Sportcal.com.

O cenário das competições neste momento

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Veja como é curioso. As duas competições foram suspensas no ano passado por conta da pandemia e remarcadas para 2021. Enquanto a Euro teve alguns ajustes de sedes, com a troca de Bilbao por Sevilla e a retirada de Dublin, mas mantendo 11 sedes, a Copa América inicialmente seguiu a programação, confirmada para Argentina e Colômbia.

Se na Europa a Uefa fez trocas para garantir a presença de algum público nos estádios, na América do Sul seguiram como se nada estivesse acontecendo. Enquanto na Europa o cenário da pandemia é de redução de casos e retomada econômica, na América do Sul vivemos sob pressão da Covid.
Tanto é que há poucos dias do início da competição, Argentina e Colômbia desistiram de realizá-la, por conta de problemas sanitários, e a competição acabou sendo direcionada ao Brasil.

Sem presença de público, a competição sul-americana passa a ser um produto de vídeo, enquanto na Europa haverá presença de público, ainda que em número reduzido (cerca de 16 mil por jogo).

Para deixar a situação ainda mais complexa, a Copa América começa alguns dias depois de uma rodada das eliminatórias para a Copa do Mundo do Qatar. Ou seja, voltamos à conversa sobre escassez: na América do Sul, temos jogo em cima de jogo.

Ao vencedor, as batatas

No final das contas, independentemente de questões políticas e sanitárias, temos a disputa direta entre duas competições similares, com relevâncias e protagonismos diversos – CR7 e Mbappè de um lado, Messi e Neymar de outro, camisas históricas dos dois lados, conquistas, talento – mas vivendo realidades diferentes. Realidades estruturalmente diferentes, seja financeira, competitiva e de organização.

Ainda que a Conmebol venha apresentando evoluções importantes ao longo dos últimos anos, é preciso encarar a realidade: o caminho para o sucesso ainda é muito longo, e talvez precise de mudanças muito maiores que apenas aumentar a escassez.

Talvez o caminho passe por repensar a competição, especialmente considerando que a qualidade do espetáculo é fundamental para seu sucesso.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real

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