As dificuldades em planejar um clube de futebol

É muito complexo projetar e planejar o futebol se ficarmos focados apenas nas receitas, pelo simples fato de que elas não são de fácil gestão e pouco previsíveis

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O negócio futebol tem inúmeros desafios, e tenho abordado alguns deles nas últimas colunas. Falamos recentemente sobre problemas de viabilidade financeira, das dificuldades do valuation, do fato de que renegociar dívidas é apenas parte inicial de um processo de reestruturação, que depende sempre de boa gestão e vontade de executar um plano.

Nesta semana, o tema é a dificuldade em executar um plano dentro de um clube de futebol. E isso une todos os demais já abordados.
O futebol não é uma atividade que permita planejamento fácil.

Diferente de uma indústria que produz papel higiênico que, a despeito de custos variáveis relacionados à celulose (principal matéria-prima), é razoavelmente previsível: há um mercado potencial, concorrentes, clientes, uma forma clara de precificação do produto.

Se há investimentos, é relativamente simples projetar os benefícios de uma nova máquina ou de um novo centro de distribuição. Tudo misturado e com alguma margem de erro, é possível fazer uma projeção com razoável previsibilidade.

Daí vem o futebol. Não é uma atividade óbvia, líquida e certa. Ainda que haja receitas previsíveis, lastreadas em contratos, como parte das receitas com transmissão e patrocínios, há uma série delas que está longe de ser resultado da multiplicação entre preço de custo, quantidade e margem.

Precificação de ingressos e programas de sócios-torcedores no Brasil, por exemplo, dependem muito do desempenho em campo.

O desempenho também impacta parte das receitas de transmissão, pois refletem assinaturas de pay-per-view, transmissão na TV aberta, colocação no campeonato. Sem contar que a negociação de atletas é a mais imprevisível das receitas.

Ou seja, qualquer projeção de receitas é um enorme exercício de desejo. E não há cenário conservador no futebol, pois uma previsão de 10ª colocação no Brasileiro pode virar um rebaixamento para a Série B. Simplesmente porque falamos de futebol.

A história mostra isso. Veja a evolução dos números de receitas totais e recorrentes dos clubes brasileiros que compõem a análise do Itaú BBA nos últimos dez anos.

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Fonte: Demonstrações financeiras dos Clubes/Itaú BBA

Note nas linhas azuis que as receitas consolidadas crescem de forma lenta, puxadas pelo crescimento de receitas com direitos de transmissão e aumento na negociação de atletas. Veja também que adicionei no gráfico a evolução das dívidas. Elas têm um período de certa estabilidade, mas dois grandes saltos nos extremos.

Ou seja, é sempre mais complicado aumentar receitas do que manter as dívidas comportadas.

Vamos agora aprofundar a análise, considerando a evolução de alguns clubes individualmente. O consolidado permite observar o movimento do setor, mas cada clube reage de uma forma.

Nesses gráficos, vemos, portanto, que há pouco histórico de crescimentos constantes e sustentáveis de receitas. O mais comum, dadas as dificuldades de geração de receitas, é manter certa estabilidade, com oscilações pontuais lastreadas em bons ou maus desempenhos esportivos.

Vamos então fazer a análise sobre as receitas recorrentes, aquelas das quais retiramos as negociações de atletas.

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Aqui, juntamos os clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Fica claro que, exceto por Flamengo e Palmeiras, os demais mantêm estabilidade bastante clara. O que significa dizer que as maiores oscilações estão diretamente associadas às negociações de atletas.

Fizemos também um exercício utilizando os dados de cinco outros clubes de fora do eixo Rio-SP.

Enquanto o Athletico consegue um crescimento sustentável, ainda que modesto, os clubes gaúchos mantêm certa estabilidade. Já os mineiros mostram queda constante nos últimos quatro anos.

Portanto, clubes que estruturam seus planejamentos baseando-se em desempenho para obter crescimentos consistentes e relevantes de receitas têm boas chances de verem seus planos frustrados, visto que o cenário histórico mostra que esse desempenho é mais exceção do que regra.

E isso baseado em modelos de receitas conhecidas. O mundo do futebol – na verdade, o mundo do entretenimento – passa por uma fase de mudanças relevantes na forma de fazer receitas, saindo de modelos estáveis e conhecidos para novos mundos e desafios.

Receitas com direitos de transmissão no Brasil tendem a perder valor se não conseguirem consolidar a venda dos direitos do Campeonato Brasileiro. E ainda há a redução de valores em termos reais dos campeonatos estaduais.

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O cenário de renda do torcedor é de queda, num ambiente econômico bastante complicado. Isso retira poder de compra e de geração de receitas. Há ainda o movimento de clubes europeus reduzindo contratações, focando em atletas mais jovens e com valores menores. Vários clubes brasileiros que tradicionalmente negociam muitos atletas encerrarão 2021 com receitas bem modestas.

E não é preciso nem fazer contas muito complexas para perceber que negociações de conteúdos e fan tokens, ou mesmo a famosa monetização das redes sociais, são temas que estão tão distantes quanto são pouco relevantes. Não dá para contar com isso.

Dessa forma, qualquer projeção deveria ser tratada de forma a controlar custos para que sobre dinheiro para pagar dívidas. Mas, como vimos lá no início, com receitas estáveis as dívidas sobem. Porque a ideia de austeridade e reservar dinheiro para pagar dívidas vale no primeiro ano de gestão.

Basta um desempenho ruim para que a governança e os controles sejam colocados de lado. O CFO passa a não ter voz, e o que vale é a pressão da torcida organizada – aqueles que contribuem pouco, mas atrapalham muito – e a necessidade de atender às demandas das redes sociais, um dos males da sociedade contemporânea.

Vejamos os dados de Geração de Caixa (Ebitda), a diferença entre receitas e custos e despesas, e compará-los aos Investimentos. Isto dá uma dimensão do buraco que é gerado, basicamente, por contratações de atletas.

No período entre 2010 e 2020, o déficit após investimentos foi de R$ 2,9 bilhões. Ou seja, parte do crescimento da dívida dos clubes veio justamente dos investimentos feitos. Na prática, significa que o aumento de receitas foi consumido pelos investimentos feitos acima da capacidade de pagamento.

O que esses números querem dizer? Eles mostram que é muito complexo projetar e planejar o futebol se ficarmos focados apenas nas receitas. Pelo simples fato de que elas não são de fácil gestão e pouco previsíveis.

E mais: precisamos entender que há uma enorme dificuldade em montar e seguir planos de austeridade. Porque é incômodo dizer que não haverá investimentos, é incômodo dizer que o clube terá que gastar menos para manter os compromissos. Mas também é incômodo sair das amarras de modelos de gestão baseados mais no feeling e contratações desenfreadas e sem critério que em modelos baseados na eficiência, no fazer mais com menos.

Não tem jeito. A solução passa necessariamente por esta mudança, e por não acreditar demais no acaso.

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti