A Corrida do Ouro do Futebol Brasileiro

O ouro existe no nosso futebol, mas a extração não será tão fácil quanto muitos esperavam

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre
Mineiros garimpando ouro no leito de um rio durante a Corrida do Ouro da Califórnia, em 1849 (Kean Collection/Archive Photos/Getty Images)

Em 1848, enquanto trabalhava numa construção no rancho de John Sutter em Sierra Nevada, na Califórnia, James Wilson Marshall encontrou uma pepita de ouro num desvio de rio. Iniciava ali a chamada Corrida do Ouro, movimento que levou mais de 300 mil pessoas ao oeste norte-americano, e que foi um marco no desenvolvimento de uma das regiões mais ricas do mundo.

O ouro era abundante e de fácil extração. Já havia histórico sobre a presença do metal em outras localidades na Califórnia, mas em Sierra Nevada ele existia em abundância. Há histórias de pescadores, digo, garimpeiros que citam pessoas que chegaram a obter quilos de ouro, que era encontrado facilmente no leito de rios.

A Corrida do Ouro levou não apenas americanos, mas pessoas do mundo todo – hispânicos, asiáticos, europeus, australianos – a desbravar um novo mundo. Na verdade, um ambiente pouco atraente sob diversos aspectos, mas que se transformou no lugar onde se faria riqueza.

O objeto central dessa corrida era o ouro, mas sua existência proporcionou novidades interessantes, que vão de Samuel Brannan e sua loja de equipamentos para o garimpo a Levi Strauss e a “invenção” do jeans como roupa durável. Era possível viver do ouro sem necessariamente precisar garimpar o metal.

Pegando uma carona na DeLorean, saltaremos algumas décadas e chegaremos ao Brasil de 2021. Lei da SAF. O País do Futebol vê seus clubes em crise há alguns anos, com mudanças quase que irreversíveis na pirâmide de competitividade e a nova lei é como o ouro californiano: muitos chegarão para explorá-lo e isso transformará o futuro do esporte no país.

No início, será o dinheiro. Todos trarão milhões de dólares e euros para os clubes brasileiros. Rivalizaremos com as maiores e melhores ligas do mundo e o projeto de internacionalização dos clubes será tal que, em breve, Barcelona e Real Madrid pedirão ajuda para que Flamengo e Corinthians não tomem todos os torcedores espanhóis, o que colocaria em risco o futuro da LaLiga.

Apesar de a lei possibilitar um calote generalizado, os novos donos do futebol brasileiro trouxeram tanto dinheiro que resolveram pagar todas essas dívidas. Afinal, diziam os oráculos que “com este câmbio, está barato investir no Brasil”. Logo, o que são US$ 100 ou US$ 200 milhões para quem tem centenas de bilhões de dólares? Viria a dúvida: “Compro um NFT ou um clube de futebol no Brasil?”.

Corta!

Veja como são as coisas: a ideia de que uma lei transformaria o futebol brasileiro e atrairia bilhões de dólares em investimentos num piscar de olhos foi defendida por muita gente, com suas agendas abertas ou ocultas.

“Está muito barato”. Mais ou menos. Afinal, quem coloca poucos dólares recebe também poucos dólares. É preciso aportar, planejar, valorizar, contar com um câmbio favorável e depois lucrar. Vai um chão até que tudo isso aconteça.

Eis que os primeiros casos de SAF não trouxeram assim tanto dinheiro. Ninguém pagou as dívidas de uma vez – como este que vos escreve já havia dito há muito tempo – e os investimentos serão feitos em montantes relativamente módicos e no longo prazo.

Se somarmos o que foi prometido para Vasco, Cruzeiro e Botafogo teremos não mais que US$ 300 milhões em vários anos, sendo que parte relevante é para não deixar a máquina emperrar, além de não ser suficiente para mudar os clubes de patamar financeiro. Já as dívidas serão pagas em longas e suaves prestações, com a receita das SAFs, ou seja, do futebol.

Depois de salvarem os três clubes que precisavam ser salvos, eis que a mágica do dinheiro abundante e fácil perdeu efeito. Mas todo mágico tem mais de um truque. Agora, a ideia da moda é dizer que “o tamanho do cheque não é importante – o importante é a qualidade de quem chega”.

Bingo! Agora vamos atrás de “investidores estratégicos”, gente que está dentro do futebol e acostumada a gerir projetos nas principais ligas do mundo. Novamente, e sem falsa modéstia, há duas semanas você leu neste espaço que o que importava era o plano de negócios, mais que o dinheiro e o valuation.

Sempre foi e sempre será o projeto. Com planejamento de forma estruturada, que considere a cultura esportiva, tema pouco falado, em que se inclui processos e práticas modernas, metodologias de desenvolvimento da base de forma estrutural, investimento em tecnologia fora e dentro de campo e, o mais essencial, pessoas qualificadas, que entendam o quanto é complexo e sistêmico o futebol.

Mais dinheiro ajuda? Claro! E como! Mais dinheiro permite ao clube até errar mais, que é o que vemos em clubes grandes europeus que tem apanhado nas últimas temporadas, como Arsenal, Manchester United, Juventus. Mais dinheiro contrata craques, que vendem espaço comercial, adicionam likes às redes sociais, mas não representam um conjunto eficiente capaz de conquistar títulos.

Aliás, uma dúvida: o que é o tal “investidor estratégico”? O que se espera dele? Qual a capacidade que clubes e consultores têm de avaliar esse processo? Quem vai explicar a realidade do mercado brasileiro e suas peculiaridades, da presença das torcidas organizadas à influência política, passando pelo relacionamento com agentes, empresários, imprensa e, essencialmente, a torcida e outros clubes?

Considerando o cenário acima, quão preparados estão os “estratégicos” para lidar com essa realidade?

Daí, cabe trazer ao debate outro ponto: quão “estratégicos” são os clubes para os investidores?

Primeiro, precisamos entender e definir o que está sendo negociado: uma marca? Uma história? Um potencial financeiro e de negócios mal explorado e endividado? Categorias de base? Um clube com torcida que consome? Uma cultura?

Há tantos clubes com estratégia clara e que despertam tanto interesse assim? Não haverá 30 clubes competitivos, e caem quatro da Série A para a Série B todos os anos. Por mais talentos que o Brasil produza, e investimentos qualificados em base possam melhorar ainda mais, precisamos estar atentos ao mercado consumidor que paga – a Europa – com suas restrições financeiras e legais.

Tem o custo operacional, vendendo ou não atleta, jogando a Série A, B ou C.

Daqui a pouco, a história do “sócio estratégico” também cairá por terra. Sabe por quê? Porque eles não existem aos montes, e porque eles também precisam de um ativo que se destaque e seja estratégico.

“Ah, mas então não vai dar certo? Não teremos SAFs e donos estrangeiros?”. Calma.

Novamente, precisamos calibrar as expectativas. Precisamos ser realistas quando falamos com clubes e com investidores. Precisamos pensar em modelos de negócios que nasçam no futebol, mas que se consolidem a partir de estratégias no seu entorno, como desenvolvimento imobiliário, turismo, conteúdo, lifestyle. Os dois lados têm que ter estratégia e algo a oferecer nessa relação de troca.

Os clubes começaram a era da transformação em SAF querendo sócios minoritários e dinheiro. Depois, passaram a aceitar serem minoritários, desde que entrasse muito dinheiro. Agora o dinheiro nem é o mais importante, mas sim um projeto. Daqui a pouco muda tudo novamente.

Sabe por quê? Porque ninguém diz exatamente a verdade, nem para os clubes nem para os torcedores. E a verdade é simples: o processo de transformação de associação em SAF será longo, lento, complexo e sujeito a altos e baixos e o resultado pode ser bem menor do que se sonha.

Se for bem conduzido, há boas chances de funcionar e trazer resultados positivos, dentro da expectativa realista. O ouro existe, mas a extração não será tão fácil quanto muitos esperavam.

Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti