A beleza das conquistas

No Brasil, menosprezamos competições como a Europa League e a Conference League, assim como damos pouco valor para a Sul-americana. Mas em ambientes onde o futebol é uma indústria e o torcedor tem pouca chance de gritar “É campeão!”, abrir possibilidades é fomentar o esporte na base, na essência, que é torcer pelo clube
Por  Cesar Grafietti -
info_outline

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

A temporada de futebol na Europa está acabando. Tempo para um respiro e voltarmos os olhos para o futebol brasileiro. E, claro, aproveitar para fazer um balanço do que foi a temporada. Muito do mesmo, algumas novidades e uma mania do brasileiro de desvalorizar o que não tem.

É tudo mais do mesmo na Alemanha e na França. Bayern de Munique e PSG são forças financeiras e esportivas tão grandes que o que resta aos demais clubes é utilizá-los como referência para crescerem, mas, essencialmente, mirarem o vice-campeonato como prêmio de melhor entre os comuns.

Além, claro, de ter como objetivo uma classificação para a Champions League, competição que garante entre € 35 milhões e € 45 milhões apenas pela presença na fase de grupos.

Nos últimos 10 anos, o PSG só não venceu em duas oportunidades, quando foi vice em 2016/17 para o Monaco e em 2020/21 para o Lille. Veja que é possível enfrentar o time de Neymar, Mbappé e Messi. Não é fácil, mas é possível.

E mesmo quando avaliamos a classificação até a 3ª posição, encontramos quase as mesmas equipes nesse mesmo período: Monaco, Olympique Marseille, Lyon, Lille e uma vez o Nice e outra o Rennes. Ou seja, de 30 posições, em apenas duas – equivalente a 6,7% das posições – tivemos clubes fora do grupo dos cinco citados.

Na Alemanha, o Bayern passeia. Vencer a competição é apenas uma questão protocolar. Fazendo o mesmo cálculo, outras sete equipes ocuparam os postos de 2º e 3º, sendo que em apenas duas posições tivemos nome com uma participação: Wolfsburg e Hoffenheim. Ou seja, igual à França.

Vamos então para a Itália. A conquista do Milan depois de 11 anos é a segunda consecutiva de uma equipe que não se chama Juventus.

No ano passado, a Inter de Milão conquistou o scudetto e agora o rival rossonero manteve Milão no topo da tabela. Por dois anos consecutivos foram primeiro e segundo colocados, fato que coroa dois processos de reestruturação que tiveram início há quatro (Inter) e três (Milan) anos, com novos acionistas e modelos de negócios completamente diferentes: enquanto a Inter dos chineses da Suning investe em atletas reconhecidos, o Milan do Elliott busca nos jovens desconhecidos com potencial uma força que é recheada por poucos veteranos.

Mas, se olharmos a composição das três primeiras colocações nos últimos 10 anos, encontraremos os mesmos sete clubes: além dos três citados, temos Napoli, Roma, Lazio e Atalanta. Sendo que encontramos a Lazio apenas uma vez. Ou seja, seis equipes dominam os três primeiros postos na Itália.

Depois de um longo domínio juventino, temos alguma alternância de poder, mesmo que isso signifique permanecer nas mãos de clubes historicamente vencedores. O último campeão italiano diferente desses últimos três foi a Roma, em 2000/01.

Seguimos rumo à Espanha para falarmos de La Liga. Você já deve imaginar a resposta ao exercício acima, então vamos lá: nos últimos dez anos, o Atlético de Madrid foi campeão duas vezes, o Real Madrid foi três vezes e o Barcelona sagrou-se campeão em cinco oportunidades. Menos concentrado que os demais, certo?

Mais ou menos. Ou melhor: não. Nos últimos 10 anos, as três primeiras posições foram dominadas pelos mesmos três clubes. Em nenhuma oportunidade tivemos um clube diferente ocupando um posto acima da 4ª colocação. O que mostra quão elitista é a liga espanhola. Mas isso também ajudará a explicar outro tema que virá mais adiante.

Vamos então para a terra dos Beatles. Nos últimos dez anos, tivemos cinco campeões diferentes, sendo que três deles foram uma única vez: o sempre lembrado Leicester City (2015-16), o Manchester United (2012/13) e o Liverpool (2019/20). Nas demais, tivemos o Chelsea por duas vezes em nas outras cinco, o Manchester City.

Temos aqui muito mais diversidade e disputa, apesar de que, nos últimos cinco anos, vimos o Manchester City conquistar quatro títulos e o Liverpool apenas um, mostrando que há sim uma concentração em andamento. Se não financeira, porque a diferença de receitas não chega a ser tão significativa, pelo menos uma hegemonia esportiva.

Além desses cinco clubes campeões, quando repetimos o exercício das outras ligas, encontramos por duas vezes o Arsenal e outras duas o Tottenham entre os três primeiros. Se descontarmos o acaso do Leicester por uma vez, isso significa que o futebol inglês pertence efetivamente ao sexteto de clubes ricos.

Há uma repetição de comportamento nas ligas europeias, que faz com que os clubes que têm mais receitas tenham destaque esportivo. Nem preciso trazer números aqui. A posição dos clubes reflete seus portes em relação aos demais competidores. Exceto na Inglaterra, onde os seis maiores tem receitas próximas, nas demais há degraus claros, com faixas de competitividade que justificam essa concentração.

E qual o reflexo disso?

Vimos nessas últimas duas semanas as finais da Europa League e da Conference League, competições que contam com os clubes que originalmente se classificam entre 5ª e 7ª posições nas ligas nacionais. Clubes que, pelo que os exercícios anteriores mostram, não acessam nem mesmo uma posição de participação na Champions League, exceto nos casos de países com quatro vagas.

As finais entre Rangers e Eintracht Frankfurt (Europa League) e Feyenoord e Roma (Conference League) foram duelos tensos, equilibrados e resultaram em festas imensas das duas torcidas campeãs.

Alemães e italianos festejaram conquistas raras em suas histórias. O Eintracht tem apenas um título alemão, em 1959, e cinco Copas da Alemanha, sendo a mais recente de 2017/18 (a anterior era de 1987/88). Já a Roma venceu três vezes o campeonato italiano (o último em 2000/01) e nove vezes a Coppa Italia, sendo 2007/08 a última conquista.

São clubes que conquistaram seus primeiros torneios continentais e que raramente chegam aos títulos locais, dominadas por clubes bem mais ricos.

Vale lembrar que os espanhóis são considerados os reis da Europa League, sendo os maiores vencedores da competição. Lembre-se que nenhum clube que não seja do trio-de-ferro chegou à 3ª posição nacional e só disputam a Champions League como 4ª força nacional.

Qual a chance de eles chegarem na competição que foi disputada por Real Madrid e Liverpool (escrevo o texto antes da final) e chegar ao título? Praticamente zero.

Inclusive porque, mesmo que chegassem, a chance de conquista seria também praticamente zero. Porque desde 1997/98 tivemos apenas nove vencedores – 24 anos com nove vencedores – sendo que apenas dois tiveram uma única conquista (Porto e Inter), o que faz com que sete clubes dividam 22 conquistas. Real Madrid com sete e Bayern e Barcelona com quatro representam 64% das conquistas no período.

Nem Manchester City, nem PSG, e muito menos a Juventus e o caminhão de dinheiro malgasto de Agnelli reverteram esse cenário. Futebol é concentrado por natureza, e a ideia da UEFA de criar competições continentais que permitam que clubes abaixo da linha da elite possam ser campeões continentais é sensacional.

No Brasil, menosprezamos competições como a Europa League e a Conference League, assim como damos pouco valor para a Sul-Americana. Mas em ambientes onde o futebol é uma indústria e o torcedor tem pouca chance de gritar “É campeão!”, abrir possibilidades é fomentar o esporte na base, na essência, que é torcer pelo clube.

Isso acontece num país onde os estaduais são questionados, mas servem de válvula de escape para clubes saírem da fila. Falamos mal da Conference League, mas comemoramos o título estadual.

O que precisamos é aprender a valorizar todas as conquistas, pois cada uma tem seu tamanho, atende uma demanda específica, um público sedento por elas. Isso mantém o futebol vivo, mais do que qualquer ideia mirabolante que queira transformá-lo fora de campo.

Viva o Eintracht! Viva a Roma! Viva o próximo campeão da Sul-Americana! Viva o futebol!

Cesar Grafietti Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti

Compartilhe
Mais sobre

Mais de Cesar Grafietti

Cesar Grafietti

Milan: quando a gestão faz diferença

Neste artigo, falarei um pouco sobre como o clube deixou a Era Berlusconi e como se tornou vencedor novamente nas mãos do fundo americano Elliott. E, claro, por que foi negociado a € 1,2 bilhão de valor de mercado.
Cesar Grafietti

A eficiência no futebol

Quando falamos em eficiência no futebol precisamos ter claro que a ideia é analisar quanto se gastou para se atingir o objetivo estratégico. Mas qual o objetivo de um clube de futebol?
futebol dinheiro bola
Cesar Grafietti

Dívidas no futebol: explicando os cálculos

Em finanças há uma frase que diz: “A dívida é certa, mas o ativo é incerto”. Vimos recentemente o caso do Corinthians, que lançou o contrato com a empresa Taunsa na receita, virou um Contas a Receber, e até onde temos notícia não foi pago