2020/2021: ideias sobre o que tivemos e o que teremos pela frente no esporte

Não há uma indústria organizada no futebol brasileiro. Logo, o que deveria vir à tona em 2021 seria justamente a construção dessa indústria. Mas em se tratando de clubes de futebol, a regra é clara: cada um por si

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A coluna de final de ano não será uma retrospectiva, nem uma lista de previsões. Minhas habilidades neste tema são tão ruins que o melhor que eu consegui na Mega Sena foi acertar uma quadra, o que possivelmente ainda me deixa com saldo negativo entre gastos e retorno.

Também não listarei os fatos deste 2020 surreal, pois sua duração parece ter sido secular e está tudo aí na internet.

O que pretendo aqui é criar relações e apontar temas a serem aprofundados de 2021 em diante.

Clube-Empresa de Futebol

Em 2020, esse tema voltou com força ao debate, puxado pela necessidade de sobrevivência do Botafogo e amparado num projeto de lei estranho, com altos e baixos.

No final, as dificuldades internas do clube carioca e a lentidão no debate político fizeram com que esse tema virasse mais um debate teórico que uma realidade prática.

Infelizmente, porque o futebol brasileiro precisa de uma regra justa e eficiente que permita equidade aos clubes que quiserem buscar alternativa ao modelo associativo.

Para o debate intelectualmente honesto, não dá para falar que os clubes podem ser empresa desde sempre se o modelo tributário é diferente da associação.

Obviamente, serão poucos a se aventurar a disputar um mercado em que o concorrente tem benefícios que lhes aumenta a competitividade.

Também para o bem do debate, não dá para imputar ao clube-empresa todas as maravilhas da governança, transparência e boa gestão- simplesmente porque os exemplos não mostram isso.

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Seja porque na Europa clubes quebraram por má gestão, seja porque não divulgam demonstrações financeiras completas, seja porque há inúmeros casos em que não se vê um profissionalismo à prova de bala na gestão.

Aliás, no Brasil, o Red Bull Bragantino mostra que ao se transformar em empresa não adotou as práticas de governança que se deseja, pois até agora não divulgou demonstrações financeiras completas de 2019.

Mas acredito que teremos uma retomada do tema com mais força a partir dos primeiros casos de transformação.

O que acredito é que precisamos repensar os dois projetos de lei que estão no Senado e construir algo verdadeiramente sólido, com regras de equidade e outros controles. Se não é a panaceia, tampouco é o monstro da destruição.

Esportes olímpicos e Olimpíadas 2021

Perdemos as Olimpíadas de Tóquio em 2020 mas esperamos tê-las em 2021. Ainda sem qualquer certeza sobre formato e possibilidade de grande movimentação de pessoas rumo à capital japonesa, o fato é que os esportes olímpicos ficaram ainda mais escondidos em 2020, e precisarão de muita força para se recuperarem em 2021.

A paralização das competições encurtou o dinheiro que circula no esporte. A retomada, quando possível, se dá de forma ainda fria e os Jogos Olímpicos terão um papel vital na recuperação da atenção do público em relação ao esporte.

Porque acabamos falando muito do impacto da Geração Z e sua incapacidade de se concentrar diante da TV, no aumento do nível de competição por atenção com outras indústrias – dos canais de streaming ao eSports – mas costumamos tratar isso apenas sob a ótica dos riscos que o futebol e as ligas americanas de esporte sofrem.

Mas se esses esportes mainstream tendem a apanhar, o que será de esportes que hoje já são nichados?

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Podemos estar diante de uma revolução na estrutura do esporte no mundo, e presenciando o que será o início do fim de algumas modalidades.

Porque esporte não é só o prazer da competição, mas cada vez mais a capacidade que ele tem de agregar pessoas, de desenvolvê-las e especialmente de se autossustentar.

O dinheiro é cada vez menor, assim como os retornos, de forma que os esportes olímpicos precisam se repensar em termos de atratividade, e talvez fazer escolhas.

Não é à toa que o COI incluiu quatro novas modalidades esportivas nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024: surf, skate, escalada (todas oriundas do conceito de X-Games) e breakdance. Sim, breakdance.

Trazer novos esportes para o mundo olímpico é uma tendência de se aproximar de um público diferente.

Mas trazer uma atividade artístico-esportiva é um salto que colocará em risco esportes tradicionais, especialmente porque num mundo pós-pandemia é possível que não haja mais espaço para eventos gigantes e com tanta movimentação de pessoas. Nesse sentido, até o formato dos Jogos Olímpicos pode entrar num debate de mudança.

Tem mais a seguir.

O esporte enquanto entretenimento: impactos no futebol

Muito se falou em 2020 sobre o esporte enquanto entretenimento, e que a Geração Z busca mais contato com atletas (pessoas) que clubes, que possuem uma série de comportamentos que indicam que a forma como se relacionarão com os esportes, em especial o futebol, será diferente quando estiverem no “poder”, que é quando entraram na fase madura da vida e tiverem que pagar suas contas. E, especialmente, que “seu time virou uma empresa de entretenimento e conteúdo que joga futebol”.

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Acho fundamental pensarmos no futuro. Há dois riscos claros envolvidos com o tema “futuro nos negócios”: i) ignorar as mudanças e ser engolido por elas, ou ii) querer mudar tudo para atender as expectativas e com isso perder a identidade e o controle sobre seu negócio e indústria.

Ninguém quer cometer o erro tipo 1, obviamente. Mas todos morrem de medo de cometer o erro tipo 2, e daí começam nossos problemas e precisaremos falar muito sobre isso daqui para frente.

Porque o mais fácil é seguir o pastor, normalmente fantasiado de especialista que traz um monte de novidades. O mais difícil é entender a realidade diante de tantos números, vídeos, fotos, posts no Twitter e no Linkedin, número de seguidores em redes sociais. Uma folia. Mas em algum momento alguém vai parar para refletir sobre o tema.

A velha frase “futebol é quarta e domingo” continua válida e cada vez mais forte. O core business de um clube de futebol, de basquete, de hockey é o esporte, a disputa.

Quando alguém vem e diz que “seu clube será uma empresa de conteúdo que joga futebol (basquete, hóquei etc.)” ele está tirando o foco do que é importante: ter uma equipe competitiva, que atue de forma a cativar o torcedor, aumentar engajamento.

Não há conteúdo que segure o torcedor de uma equipe que joga mal, que não dá prazer em assistir.

Assim como uma série do Netflix é cancelada se não tem audiência, ou um produto deixa de ser vendido se a avaliação dos usuários da Amazon não for boa.

A realidade do entretenimento antes do esporte vem de dois universos distintos do nosso: as ligas americanas (competições sem rebaixamento e com clubes que representam cidades), e as grandes ligas europeias de futebol (mas não todos os clubes, e sim aqueles 15 ou 20 globais, que precisam manter o fã distante em contato).

Há uma série de temas que orbitam em torno do núcleo central, que é o esporte enquanto entretenimento. Há muito a ser explorado, e o que eu recomendo é apenas para ter cuidado com a roupa nova do rei.

Mas calma: o tema está sendo formatado num relatório para podermos dialogar mais sobre o assunto.

Direitos de Transmissão: a nova MP

Não duvida que teremos uma nova MP do Mandante. Muda o presidente da Câmara, muda o cenário político e econômico, e é bem possível que tentem novamente emplacar uma mudança importante e necessária através de uma Medida Provisória. Nada mais esperto, nada menos útil.

Falar sobre os direitos de TV sem falar em reforma ampla da estrutura da indústria do futebol, mas também do esporte olímpico, é também ouvir o canto de quem tem agenda própria e amparado por alguns daqueles pastores travestidos de gurus.

Não há uma indústria organizada no futebol brasileiro. Logo, o que deveria vir à tona em 2021 seria justamente a construção dessa indústria. Mas em se tratando de clubes de futebol, a regra é clara: cada um por si.

Volto na segunda semana de janeiro de 2021. Que todos tenham um ótimo Ano Novo, e que possamos dialogar mais, trocar mais, ouvir e ser ouvido. Feliz 2021!

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Cesar Grafietti

Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real