Qual é o carro mais vendido no mundo?

A resposta imediata de muitos executivos ainda recai sobre o Toyota Corolla, o Tesla Model Y ou, talvez, alguma das novas estrelas da indústria chinesa. Essa, porém, é uma visão míope

J.R. Caporal

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Se eu perguntar qual é o carro mais vendido do mundo, a resposta imediata de muitos executivos ainda recai sobre o Toyota Corolla, o Tesla Model Y ou, talvez, alguma das novas estrelas da indústria chinesa. Essa é uma visão míope, um reflexo da velha lógica de mercado que insiste em colocar o 0km no centro da estratégia. A verdade, nua e crua, é outra: o carro mais vendido do mundo é o usado. E essa não é uma provocação, mas sim uma constatação matemática com profundas implicações estratégicas e financeiras.

Em economias maduras, o mercado de veículos seminovos e usados não é apenas maior que o de novos; ele é múltiplas vezes maior. Nos Estados Unidos, o contraste em 2025 foi gritante: a indústria registrou 38,6 milhões de unidades de usados transacionadas, contra apenas 16,3 milhões de veículos 0km (light vehicles). Na Europa, o padrão se repete, com as transações de carros novos representando, em média, cerca de um terço do volume anual nos quatro maiores mercados da União Europeia. O restante é a troca de propriedade de usados.

O Brasil, no entanto, elevou essa lógica a um patamar ainda mais extremo. No mesmo ano de 2025, o mercado brasileiro de seminovos e usados bateu um recorde histórico, superando a marca de 18,5 milhões de transferências. Em contraste, o licenciamento de automóveis e comerciais leves 0km ficou em torno de 2,547 milhões. O resultado? Uma proporção que beira os 7 carros usados vendidos para cada carro novo. E mesmo fazendo um recorte conservador, excluindo motocicletas e outras categorias, estamos falando de um volume gigantesco que move dezenas de milhões de decisões anuais de compra, venda, troca e financiamento.

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Por que o Usado é o Protagonista Incontestável

A dominância do mercado de usados é ditada por cinco fatores essenciais que redefinem o comportamento do consumidor e a dinâmica do negócio:

  1. Acessibilidade e Preço: O carro 0km se tornou um item de luxo inacessível para o orçamento médio, penalizado por preços altos e crédito pesado. O usado, em especial o seminovo, transforma-se na porta de entrada para a mobilidade, sendo a escolha racional do custo-benefício.
  2. Valor Percebido e Depreciação: É o primeiro dono quem absorve a maior fatia da depreciação inicial. O segundo comprador capitaliza sobre isso, adquirindo um bem com um valor percebido muito superior ao custo de aquisição.
  3. Oferta Infinita e Portfólio: O consumidor de usados não está limitado às versões e pacotes do ano vigente. Ele acessa um portfólio vastíssimo, podendo escolher entre diferentes anos, motorizações, pacotes de opcionais e históricos de uso. É a democratização da escolha.
  4. Imediatismo da Transação: O bem está disponível. Sem filas, sem espera por produção, sem incerteza de prazo. A satisfação é imediata, um diferencial poderoso em um mundo de consumo rápido.
  5. Digitalização e Eficiência: Pesquisa, comparação, laudo de procedência, simulação de financiamento e seguro estão migrando para fluxos digitais cada vez mais rápidos. O mercado de usados se adapta perfeitamente a essa infraestrutura, tornando a jornada mais fluida e transparente.

O Inimigo Silencioso: Confiança é o Novo Produto

Apesar do volume estrondoso, o mercado de usados carrega um inimigo silencioso: a assimetria de informação. Quem compra teme a “surpresa”, o defeito escondido. Quem vende tenta capturar o maior prêmio, nem sempre com transparência total.

Neste cenário, confiança não é custo, é alavanca de conversão. Laudo cautelar, garantia de procedência, histórico de manutenção detalhado, e políticas claras de recompra deixam de ser um diferencial e se tornam a infraestrutura obrigatória do negócio. Quem resolve a equação da confiança transforma a loteria em uma fábrica de margem.

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A Elitização do 0km e o Caso Chinês

Há cinco anos, em 2021, o carro 0km de entrada no Brasil ainda ficava na casa dos R$ 53 mil: o Renault Kwid Zen aparecia por R$ 53.690 e o Fiat Mobi Like por R$ 53.490. Em janeiro de 2026, o mesmo degrau de acesso já encostou nos R$ 80 mil: o Kwid Zen é listado a R$ 78.690 e o Mobi Like a R$ 81.060. Na prática, isso significa que o “primeiro degrau” do 0km subiu cerca de 46,6% (Kwid) a 51,5% (Mobi) em cinco anos, antes mesmo de entrar na conta de juros, e é exatamente aí que o seminovo vira a rota natural de quem quer mobilidade sem transformar o carro em um compromisso financeiro desproporcional.

A dificuldade de acesso ao 0Km também é um fenômeno global. Nos EUA, 2025 foi emblemático: o preço médio pago por um carro novo encostou nos US$ 50 mil, e uma parcela assustadora de 1 em cada 5 compradores financiou um valor acima de US$ 1.000 por mês. Quando a compra do novo se torna uma decisão cada vez mais elitizada, o mercado reage de forma previsível: o usado vira o protagonista, pois é nele que a demanda maciça encontra preço, oferta imediata e mais opções de escolha.

Um contraponto interessante é o mercado chinês. Em 2024, a China ainda registrou mais vendas de 0km (31 milhões) do que transações de usados (19,61 milhões). Isso demonstra uma característica de mercado em rápida construção, mas que ainda não atingiu a maturidade dos EUA e da Europa no que tange à proporção de usados versus novos.

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Onde a Pergunta Incomoda: Três Públicos em Xeque

Se o carro usado é o mais vendido do mundo, por que a estratégia da maioria dos players ainda está centrada no 0km? Essa é a pergunta que precisa incomodar e reorientar a estratégia de três públicos cruciais:

1. Concessionárias e Revendas

O P&L não é dominado pelo discurso do novo, mas sim pela eficiência na compra, avaliação e giro do usado. O lucro se inicia na entrada do veículo, não na venda final. Sem inteligência de precificação e um padrão industrializado de recondicionamento, o usado é um ativo lotérico. Com processos, ele se torna uma máquina de margem. Além disso, um trade-in (troca) bem executado é uma ferramenta poderosa: aumenta o fechamento de vendas no 0km, protege a tabela de preços e reduz a guerra destrutiva de descontos.

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2. Montadoras

O 0km é apenas a ponta da cadeia, nunca o seu fim. A montadora que ignora o ciclo de vida do veículo está terceirizando o futuro de sua própria marca para a desorganização do mercado informal. Controlar o valor residual, organizar programas de recompra e criar mecanismos para sustentar o preço do seu próprio seminovo é vital. Essa atuação protege toda a rede de concessionárias e, fundamentalmente, sustenta o preço do carro novo, garantindo solidez à marca no longo prazo.

3. Investidores e Bancos

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O maior mercado é também o maior e mais promissor campo de dados. Para investidores e instituições financeiras, o mercado de usados oferece oportunidades reais para quem aprende a medir e mitigar o risco. Isso envolve classificar o risco por ativo, por região, por liquidez e por tempo de estoque. Nessa lógica, financiamento e seguro deixam de ser meros “produtos” a serem empurrados e passam a ser a infraestrutura essencial que viabiliza a transação em escala.

O Pós-Venda como Motor de Confiança

Com o usado no protagonismo, o pós-venda muda de papel. Peças, serviços e garantia deixam de ser apenas um “absorvedor” de problemas e se tornam o principal motor de confiança e recorrência do cliente.

Em um futuro inevitavelmente mais eletrificado, a questão não é se haverá mercado de usados para híbridos e elétricos, mas sim quem assumirá o risco e o padrão industrial do diagnóstico, da saúde da bateria, da certificação e da recompra desses ativos. Quem entender essa transição primeiro e estruturar a solução industrializada para esses desafios capturará margem, fidelidade e o maior volume de dados. Quem ignorar, comprará um problema junto com o carro.

A provocação final é simples, mas brutal: Se o carro mais vendido do mundo é o usado, o seu negócio está construído para atender o maior mercado do mundo ou ainda está presa à lógica do 0km? É hora de olhar para os dados e reverter o foco da estratégia.

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J.R. Caporal

Com vasta experiência e tradição no segmento automotivo, a família do Caporal está envolvida nesse mercado desde 1941, quando seu pai iniciou na indústria automobilística. Caporal atuou por 12 anos na logística e transporte de veículos, foi concessionário Honda de Motocicletas até 1993, e trabalhou diretamente em vendas, peças, serviços e administração. Atualmente, seu foco é aperfeiçoar processos para aumentar a fidelidade e satisfação dos clientes através de estratégias de vendas e marketing, tendo introduzido o conceito e os sistemas de CRM e BDC nas concessionárias brasileiras. Ocupa o cargo de CEO da MegaDealer e é Presidente da Auto Avaliar, além de ser parceiro estratégico da World Shopper.