Qual é a melhor maneira de se comprar um veículo 0km?

O 0km sempre teve três preços ao mesmo tempo: o preço de tabela, o preço transacionado e o preço financeiro

J.R. Caporal

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Na coluna CarInvest do InfoMoney, eu gosto de tratar decisões do dia a dia como decisões de capital. E poucas são tão subestimadas quanto a compra de um veículo 0km.

A vitrine fala de “taxa zero”, entrada baixa e 60 parcelas. A planilha, porém, costuma ser menos gentil. A tese é direta: financiar em 60x sem planejamento pode fazer você pagar perto do preço de dois carros para levar um. 

O ponto não é demonizar crédito. É entender o que você está comprando, além do carro. Para quem investe, empreende ou administra caixa, o 0km compete com CDI, com expansão do negócio e com o próprio risco de renda futura.

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O 0km sempre teve três preços ao mesmo tempo: o preço de tabela, o preço transacionado e o preço financeiro.

O que mudou foi o peso do terceiro. Com custo de capital alto, automóvel deixa de ser “bem de consumo” e vira “contrato de juros com volante”. A concessionária vende o carro, mas também vende prazo. A montadora subsidia taxa em alguns modelos para girar estoque. O banco precifica risco e tempo. E o consumidor confunde parcela com acessibilidade.

Nesse desenho, a melhor maneira de comprar 0km é escolher, conscientemente, qual peça da cadeia você quer pagar: margem, risco, capital ou tempo.

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Vamos ao que interessa: custo total. Pegue um 0km de R$ 150 mil.

Cenário A: entrada de 20% (R$ 30 mil) e financiamento do saldo (R$ 120 mil) em 60 meses. Em ciclos de juros altos, taxas mensais na faixa de 1,2% a 1,8% podem aparecer dependendo de banco, score, prazo e relação com a marca. Isso não é uma “média oficial”, é uma faixa conservadora para ilustrar ordem de grandeza.

Nessa faixa, o total pago no contrato pode ficar algo como 1,6x a 2,1x o valor financiado. O “desconto” do showroom pode ser engolido pelos juros e por custos acessórios embutidos no Custo Efetivo Total.

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Cenário B: você tem parte do dinheiro e quer flexibilidade. Faz uma entrada maior (40% a 60%), encurta prazo para 24 a 36 meses e negocia o resto como se cada ponto percentual fosse preço do carro: taxa, tarifa, seguro, serviços agregados e a multa por antecipação. Prazo curto reduz a parte do pagamento que não vira patrimônio e aumenta sua margem de manobra se o ciclo econômico mudar.

Cenário C: consórcio. É menos glamour e mais disciplina. Você troca juros por taxa de administração e tempo. Funciona bem para quem não precisa do carro “agora” e quer proteger a compra da ansiedade do mês.

Cenário D: assinatura (o carro como despesa e proteção de caixa). Você não compra o carro. Você compra previsibilidade. Assinatura é, na prática, um contrato mensal que embute uso do veículo e parte dos custos operacionais, e transfere o risco de revenda e depreciação para quem opera a frota.

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Em juros altos, o Cenário D ganha força quando você quer preservar capital e manter flexibilidade. Em vez de imobilizar R$ 30 mil a R$ 60 mil de entrada, você deixa esse dinheiro rendendo ou trabalhando no seu negócio. Se o retorno líquido do seu capital superar o “prêmio” embutido na assinatura, ela pode ser a escolha economicamente mais eficiente.

Quando a compra do 0km depende mais do financiamento do que do preço do carro, o mercado muda em quatro frentes.

  1. Preço e desconto: montadoras alternam dois botões. Em alguns meses, desconto direto. Em outros, taxa subsidiada. Para o consumidor, isso parece “promoção permanente”. Para o sistema, é gestão de demanda.
  2. Crédito: aperto de crédito e inadimplência freiam o 0km e empurram parte do público para seminovos, alongando a permanência do usado no ecossistema e pressionando margens.
  3. Estoque e distribuição: com capital caro, estoque vira custo financeiro. Quem gira rápido tem vantagem. Quem erra mix paga o preço no caixa.
  4. Usados e locadoras: quando o 0km fica caro no bolso, o seminovo ganha tração. Locadoras e frotistas, com maior poder de compra e negociação, capturam melhores condições e influenciam preços de revenda no ciclo seguinte.

O que é preciso monitorar:

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• Direção do custo de capital: juros, spreads bancários e apetite por crédito.

• Inadimplência e nível de aprovação de financiamento por faixa de renda.

• Market Days Supply (dias de estoque) por marca e por segmento.

• Diferença entre preço FIPE e preço transacionado, especialmente em modelos de alta rotação.

• Mix de vendas: participação de vendas diretas, frotas e locadoras versus varejo.

• Intensidade de incentivos: descontos explícitos, taxa subsidiada, bônus no usado e recompra.

A melhor maneira de comprar um 0km é tratar a decisão como investimento com depreciação e custo de capital, não como compra emocional embalada em parcela.

A regra prática é simples: maximize entrada, minimize prazo, compare desconto versus taxa, e escolha um modelo com liquidez. O “barato” não é o carro com maior bônus. É o carro com menor custo total no seu horizonte de uso, com o menor risco de te prender a um contrato quando o ciclo virar.

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J.R. Caporal

Com vasta experiência e tradição no segmento automotivo, a família do Caporal está envolvida nesse mercado desde 1941, quando seu pai iniciou na indústria automobilística. Caporal atuou por 12 anos na logística e transporte de veículos, foi concessionário Honda de Motocicletas até 1993, e trabalhou diretamente em vendas, peças, serviços e administração. Atualmente, seu foco é aperfeiçoar processos para aumentar a fidelidade e satisfação dos clientes através de estratégias de vendas e marketing, tendo introduzido o conceito e os sistemas de CRM e BDC nas concessionárias brasileiras. Ocupa o cargo de CEO da MegaDealer e é Presidente da Auto Avaliar, além de ser parceiro estratégico da World Shopper.