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Entrei num Logan 2018 na terça-feira passada. Chovia muito em São Paulo. O cheiro de estofado cansado no ar, misturado com aquele odor típico de aromatizante de pinho barato. O motorista, o Paulo, deu um riso meio amarelo quando perguntei se ele ia aproveitar o programa Move Brasil para trocar de carro.
A notícia ainda estava fresca na memória. Aquela sobre o governo liberar os usados no MoveBrasil em uma parceria direta com a Uber. Na superfície, parecia uma saída redonda.
Mas a rua costuma ensinar bem mais que o Diário Oficial. O Paulo tentou. Juntou os extratos do aplicativo, pegou a promessa de desconto, foi à loja. E bateu de frente na parede.
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Foi ali que apareceu o verdadeiro gargalo da operação.
O aplicativo aprova, o governo carimba, mas o banco não solta o dinheiro. Existe um abismo muito silencioso entre a intenção pública e a frieza do comitê de crédito.
A engrenagem teórica versus a graxa na prática
A primeira versão do Move Brasil tentou empurrar carros zero quilômetro para quem vive de corrida. Não parou em pé por um motivo brutalmente simples que envolvia a matemática da rua.
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O projeto do zero quilômetro naufragou por um detalhe que o mercado preferiu varrer para baixo do tapete na época. A absoluta falta de aprovação de crédito para o motorista. A gente sabe bem como o mecanismo opera.
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O profissional chegava na concessionária sedento pelo carro novo, o vendedor preenchia a papelada com otimismo, e a financeira bloqueava tudo. Negado. O algoritmo barrava a operação, muito antes da conta da parcela sequer começar a pesar.
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A informalidade já sabotava o programa na nascente.
Aí veio a inevitável correção de rota. Colocar os seminovos no jogo. A ideia do Move Brasil para usados, na teoria econômica pura, tenta reduzir o ticket médio da operação.
Isso diminuiria a barreira de entrada, baixaria a alavancagem do motorista e faria a roda do setor automotivo girar com mais tração.
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O problema é que, na prática, você pega a demanda reprimida de um perfil inteiro sem renda fixa comprovada e joga direto no colo do analista de risco do banco de novo.
O custo do dinheiro para esse tomador autônomo continua estratosférico. A oferta de subsídio estatal bateu de frente com a régua de conformidade do sistema financeiro. Bateu e voltou.
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A mecânica da cadeia de valor não perdoa canetada.
Os números vazam pelos cantos
Os números mostram essa dinâmica com clareza. Sem dados oficiais redondinhos do governo até este exato momento, a gente precisa olhar direto para as esteiras de crédito das financeiras.
Conversando com dois executivos de crédito automotivo na última sexta, os números informais assustam e explicam muito.
Eles me relataram que a taxa de aprovação para motoristas de app flerta com míseros dezoito a vinte por cento na melhor das hipóteses. Em algumas praças mais distantes do interior, cai para dez.
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É um índice bastante baixo.
O risco de crédito engole qualquer incentivo de forma implacável. Pense no lado do motorista. O sujeito trabalha doze, às vezes catorze horas por dia. Fatura seus quatro ou cinco mil reais líquidos.
Mas o algoritmo de escoragem do banco enxerga apenas três coisas. Informalidade aguda, volatilidade de receita e uma máquina de alta depreciação rodando cinco mil quilômetros por mês.
Com a Selic teimando em não dar trégua e a inadimplência de veículos sempre rondando perigosamente os balanços, o spread cobrado para compensar esse risco esmaga o desconto original do Move Brasil.
O carro até sai um pouco mais barato na vitrine da loja, mas o custo total do financiamento fica alienígena.
O efeito cascata na economia real
Isso mexe com a economia real de um jeito capilar, alterando a dinâmica de preços e estoques no Brasil. Primeiro, afeta as gigantes do aluguel. Locadoras pesadas continuam nadando de braçada no aluguel para frotas de aplicativo.
Se o Paulo não consegue financiar o seminovo dele, ele não tem escolha viável. Ele volta cabisbaixo para a locadora e continua pagando a diária salgada.
O modelo de negócios dessas empresas sai fortalecido de um programa que, ironicamente, pretendia dar autonomia financeira ao motorista autônomo.
Segundo, o preço do carro usado. Havia um temor genuíno de inflação nos seminovos com a entrada em massa dessa categoria comprando. Não aconteceu. O estoque nas garagens e concessionárias não esvaziou no ritmo febril que alguns relatórios apressados previam.
A transação trava exatamente na mesa de crédito. A distribuição fica represada nas lojas, o giro cai e o lojista amarga o custo de oportunidade de ter capital parado no pátio.
Até as montadoras sentem o golpe lá na ponta da cadeia. O ciclo clássico dependia da venda do usado para injetar liquidez no mercado secundário. O cidadão comum vende o usado para o motorista, pega o dinheiro vivo e dá entrada num zero quilômetro.
Como a base da pirâmide de consumo não destravou, o topo fica totalmente estagnado. Fica tudo no mesmo lugar.
Quem leva a melhor e quem fica a pé
Nesse cenário de freio de mão puxado, temos de um lado os potenciais vencedores. Aqui destaco as grandes locadoras de capital aberto, que mantêm a demanda cativa altíssima e os preços das diárias bastante firmes.
Incluo também os grandes bancos, que preservam seus balanços muito bem blindados contra uma safra tóxica de crédito, protegendo a rentabilidade dos acionistas.
Do outro lado, os potenciais perdedores são infelizmente evidentes.
Os próprios motoristas, esmagados por taxas inviáveis, os pequenos lojistas independentes de seminovos, que viram o tráfego nas lojas aumentar sem nenhuma conversão real em vendas, e as próprias montadoras, que perdem o valioso efeito cascata da renovação de frota.
O painel de instrumentos
Para o investidor e para quem acompanha a engrenagem macroeconômica de perto, precisamos observar alguns ponteiros muito específicos nas próximas semanas para entender a direção dos ventos.
- A taxa de aprovação de crédito nos balanços abertos das financeiras ligadas às montadoras.
- O nível de inadimplência no financiamento específico de veículos usados, divulgado mensalmente pelo Banco Central.
- O tempo médio de pátio das locadoras antes da desmobilização da frota seminova.
- A diferença percentual entre a tabela Fipe e o valor real de transação dos seminovos nas grandes plataformas digitais.
- O volume de crescimento dos contratos de aluguel de longo prazo voltados estritamente para trabalhadores de plataforma.
A leitura fria do asfalto
Um decreto assinado e publicado no diário oficial não tem o menor poder de reescrever a matemática.
A tentativa do governo de empurrar a renovação de frota sem resolver antes a complexa engenharia financeira da informalidade no Brasil é inútil.
É o equivalente exato a colocar combustível de aviação num motor com a junta do cabeçote rachada. Vai vazar. Cedo ou tarde, vai vazar.
O crédito dita o ritmo absoluto do consumo neste país, desde sempre. A frustração com o programa Move Brasil deixa uma marca muito clara sobre os limites da intervenção estatal num mercado dominado por prêmios de risco altíssimos. O Estado propõe, mas o capital dispõe.
Enquanto a equação da aprovação não for resolvida estruturalmente, o braço do Move Brasil para os aplicativos será apenas uma excelente intenção arquivada.
E o dinheiro pesado continuará fluindo silenciosa e constantemente para quem detém o monopólio da frota, nunca para as mãos calejadas de quem dirige. Acompanhe com atenção os movimentos das locadoras nos próximos relatórios trimestrais de resultados.
A resposta exata de quem realmente ganha com essa ineficiência brutal estará toda lá.