O dilema do consumidor: como a sopa de letrinhas automotiva desafia o mercado

Entre vender o estoque e entender a necessidade real do cliente, a escolha do power train virou um risco financeiro pesado

J.R. Caporal

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Até muito pouco tempo atrás comprar um carro era um processo banal. O consumidor escolhia entre motor flex e diesel. E talvez a cor da pintura na concessionária.

Hoje o sujeito entra no showroom e é sumariamente atropelado por siglas que ele mal consegue decifrar. Temos MHEV, HEV, PHEV, elétrico puro. Uma sopa de letras sem fim. O cliente não faz ideia da diferença prática entre um sistema micro híbrido de 48 volts e um híbrido plug-in.

O vendedor, para ser absolutamente franco, muitas vezes também não domina a engenharia por trás daquilo tudo. Mas a cota do mês bate na porta e os boletos da operação não esperam a curva de aprendizado de ninguém.

Continua depois da publicidade

Temos uma enxurrada contínua de lançamentos. Quase tudo é uma novidade absoluta e não testada no asfalto brasileiro. Um terreno incrivelmente fértil para a assimetria de informação. E a confusão, como sempre, custa muito caro.

A explosão das opções confundiu o consumidor

A transição energética estilhaçou a cadeia de valor tradicional do setor. Antes, a regra corporativa era focar agressivamente em ganho de escala com motores a combustão confiáveis e conhecidos.

Agora, as montadoras são forçadas a oferecer um cardápio completo para cada perfil de cliente, para agradar legislações ambientais de diferentes continentes. Diesel, gasolina, motores flex, baterias minúsculas de apoio, baterias gigantes de tração.

Continua depois da publicidade

Isso exige um capital intensivo monumental da indústria. A margem de lucro encolheu drasticamente nas matrizes e o custo de produção disparou.

Do outro lado do balcão temos o empresário concessionário. Ele mantém um pátio de estoque financiado que sangra o fluxo de caixa a cada noite que o carro passa ao relento aguardando um comprador. 

O custo do dinheiro é o CDI mais algum spread bancário. A necessidade vital de girar esse metal físico sempre vai gritar mais alto do que o aconselhamento ético sobre o que o cliente realmente necessita para ir ao trabalho.

Continua depois da publicidade

Leia também: O dilema das montadoras tradicionais frente à invasão chinesa

A lógica de mercado se inverteu por completo. Se o gerente precisa desesperadamente aliviar o estoque de um lote de carros puramente elétricos que a fábrica empurrou no mês passado, ele vai tentar convencer um representante comercial que viaja pelo interior de que aquela é a melhor opção.

Aquele alinhamento mínimo de interesses entre quem vende e quem compra… bem, ele simplesmente evaporou.

Continua depois da publicidade

A matemática ingrata do custo total de propriedade

Estamos falando de bens de consumo duráveis que partem facilmente da faixa de 150 mil a 400 mil reais no piso do mercado premium. Errar feio na escolha da motorização corrói o patrimônio acumulado de uma família. Ou destrói o fluxo de caixa de uma pequena empresa no curto prazo.

Sem dados cravados no granito para o longo prazo, já que a frota eletrificada é extremamente nova, trabalhamos com faixas de estimativa de risco no mercado secundário.

A desvalorização de um modelo elétrico puro no primeiro ano orbita perigosamente entre 15%, nos modelos de entrada, e 30% nos mais caros, na revenda. Depende fortemente da infraestrutura de recarga daquela região específica.

O híbrido plug-in, aquele que vai na tomada mas tem tanque de combustível para emergências, parece o ponto de equilíbrio perfeito para quem roda na cidade durante a semana e viaja aos sábados.

Mas o prêmio pago na largada, no momento de assinar a nota fiscal do zero quilômetro, é altíssimo. Algumas vezes o custo extra não se paga nem em dez anos de economia na bomba de gasolina.

Uma conta aritmética básica que quase ninguém faz sob o efeito da empolgação do test drive.

O efeito prático no asfalto brasileiro

O mercado nacional já engasga por natureza com juros restritivos para o consumidor final. Adicione a isso a invasão massiva de marcas asiáticas, testando o apetite do brasileiro com uma agressividade comercial nunca vista e cortes abruptos de tabela de preços.

Toda a estrutura logística e financeira da mobilidade sofre o impacto dessa imprevisibilidade.

As grandes locadoras, que sempre ditaram o ritmo dos emplacamentos e garantiram o volume das fábricas, estão com o pé afundado no freio. Elas têm pavor de calcular o valor de revenda residual desses veículos daqui a trinta e seis meses. Um receio justificado, aliás.

No varejo diário, a distribuição atua de forma puramente defensiva. A análise fria da utilização daquele ativo pelo cliente desaparece por completo.

Leia também: Bateria como serviço: o novo financiamento do carro elétrico  

Ninguém pergunta detalhadamente se o sujeito roda quarenta quilômetros por dia em um trânsito travado ou se rasga estradas esburacadas de terra toda sexta-feira à tarde.

A marca que a loja ostenta na fachada e o bônus de comissão atrelado àquele chassi específico são os verdadeiros donos do discurso de vendas. O cliente entra buscando solução e sai levando o problema do revendedor.

Potenciais vencedores e perdedores

Os potenciais vencedores são os consumidores estritamente analíticos. Junto com eles, as montadoras que apostaram em uma transição tecnológica muito mais cadenciada, mantendo um portfólio híbrido flex já maduro e compreensível.

Os potenciais perdedores são gigantes. Incluem redes de distribuição abarrotadas de modelos dependentes de tomada no interior do país. E, sem dúvida, o comprador que cede ao desconto agressivo de final de mês e leva para a garagem um passivo tecnológico descolado da sua rotina.

Sinais de fumaça na ponta da distribuição

A direção estrutural dos preços exige atenção a indicadores muito práticos:

O automóvel deixou de ser apenas uma ferramenta de ir e vir. Hoje ele representa uma decisão altamente complexa de alocação de risco tecnológico e financeiro. A proteção primária contra a ansiedade comercial do mercado é o ceticismo absoluto.

A escolha ideal reside na intersecção matemática exata entre a rotina real de uso diário e o custo total de propriedade no ciclo de três anos. Observe atentamente os balanços financeiros das montadoras tradicionais e o ritmo de remarcação de preços nos estoques que envelhecem.

O mercado pune severamente quem compra a emoção e esquece de preencher a planilha.

Autor avatar
J.R. Caporal

Com vasta experiência e tradição no segmento automotivo, a família do Caporal está envolvida nesse mercado desde 1941, quando seu pai iniciou na indústria automobilística. Caporal atuou por 12 anos na logística e transporte de veículos, foi concessionário Honda de Motocicletas até 1993, e trabalhou diretamente em vendas, peças, serviços e administração. Atualmente, seu foco é aperfeiçoar processos para aumentar a fidelidade e satisfação dos clientes através de estratégias de vendas e marketing, tendo introduzido o conceito e os sistemas de CRM e BDC nas concessionárias brasileiras. Ocupa o cargo de CEO da MegaDealer e é Presidente da Auto Avaliar, além de ser parceiro estratégico da World Shopper.