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Durante muito tempo fui diretor de uma concessionária Honda Motos e também trabalhei com motos e carros usados. Essa experiência me faz olhar para o crescimento das motocicletas pensando no cliente que precisa resolver a vida com o dinheiro que tem. O desejo de comprar um carro pode continuar.
A capacidade de pagar por ele é outra conversa.
É nesse espaço que a moto ganha importância. Para parte dos brasileiros, ela assume a função econômica do antigo carro popular: acesso ao trabalho, autonomia e transporte individual com menor desembolso. Para outros, ainda permite produzir renda.
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A conta que cabe
A escolha envolve entrada, prestação, combustível, manutenção e tempo de deslocamento. Quando o orçamento aperta, uma diferença no valor financiado pode decidir a compra antes mesmo da comparação entre marcas.
O meu entendimento é que a disputa pela mobilidade de entrada passou a atravessar categorias. Um automóvel usado concorre com uma moto nova; o financiamento disputa espaço com o aluguel. A loja que acompanha apenas os preços dos carros pode deixar de perceber por que perdeu aquele cliente.
Isso não significa que toda venda de moto substitua a de um automóvel. Há compradores vindos do transporte coletivo, pessoas adquirindo um segundo veículo e profissionais ampliando sua capacidade de trabalho. Confundir essas demandas leva a decisões ruins de estoque.
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O tamanho do movimento
Segundo a Abraciclo, o Brasil emplacou 1,784 milhão de motocicletas entre janeiro e setembro de 2026, avanço de 10,5%. No mesmo intervalo, a produção no Polo Industrial de Manaus atingiu 1,645 milhão, crescimento de 9,9%.
A entidade elevou suas projeções anuais para 2,35 milhões de emplacamentos e 2,1 milhões de motos produzidas. São previsões. Em setembro, isoladamente, as vendas ficaram 0,4% abaixo das registradas um ano antes. O acumulado forte não elimina oscilações.
Outro dado ajuda a entender a tese: 78,8% da produção acumulada veio das motos de baixa cilindrada. É nessa base que a acessibilidade ganha escala.
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A oferta também se diversifica. A lista de lançamentos previstos até o fim do ano, é enorme, com marcas como Bajaj, Honda, Royal Enfield e Shineray. Existem propostas urbanas e modelos de maior cilindrada. São públicos diferentes, que exigem estoques, atendimento e serviços diferentes.
Da prestação ao dia trabalhado
Em artigo no NeoFeed, Amit Louzon e Paulo Henrique, da Ituran, destacam a expansão da locação e o uso da moto como ferramenta produtiva. O contrato pode reunir manutenção, assistência e outros serviços, conforme o plano.
Para um entregador, uma peça em falta representa dias sem faturar. A proximidade da oficina e o prazo do reparo passam a pesar na escolha. É uma oportunidade concreta para redes que conseguem manter o cliente rodando.
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O aluguel reduz a necessidade de capital inicial, mas seu custo deve ser comparado ao da compra durante todo o período de uso. Do lado da locadora, a mensalidade precisa cobrir aquisição, manutenção, perdas, ociosidade e financiamento, considerando também quanto será recuperado na revenda.
O NeoFeed aponta ainda a possibilidade de financiar a expansão com recebíveis dos contratos, inclusive por meio de FIDCs, fundos de direitos creditórios. A análise exige atenção à qualidade desses pagamentos. Contrato assinado e dinheiro recebido são coisas diferentes.
A segunda venda importa
Para concessionárias e lojas, vejo espaço em três frentes: avaliar melhor a moto recebida na troca, oferecer serviços adequados ao uso e organizar sua revenda. O resultado depende da margem do veículo, das receitas posteriores e do capital preso no estoque.
Nas motos usadas profissionalmente, quilometragem, manutenção documentada e estado de conservação precisam orientar a avaliação. Precificar só pelo ano e modelo pode consumir na preparação a margem imaginada na compra.
Potenciais vencedores são fabricantes com produtos acessíveis e peças disponíveis, redes de serviços eficientes e operadores de crédito e locação que controlem perdas. Potenciais perdedores incluem varejistas que ignorem a mudança de orçamento do cliente e empresas que ampliem frotas contando com uma revenda otimista demais.
Há também um custo que precisa entrar nessa discussão: segurança. Equipamentos, treinamento, seguro e prevenção de acidentes fazem parte da conta. Uma operação de mobilidade acessível precisa preservar a capacidade de trabalho de seu usuário.
Os próximos sinais
Acompanharei seis indicadores: emplacamentos diários por faixa de cilindrada; preços efetivos frente à renda; custo total e aprovação do crédito; inadimplência; utilização das frotas alugadas; e preço de revenda após descontar a preparação.
A tese do CarInvest é que a moto vem assumindo a função econômica do carro popular para uma parcela dos brasileiros. Na próxima semana, além dos emplacamentos, observarei as ofertas de crédito e os prazos de entrega. O cliente pode adiar a compra do carro. O deslocamento para o trabalho, quase nunca.