A disputa pelo market share automotivo mudou de sotaque

O lobby das montadoras tradicionais conseguiu suas cotas de importação, mas o campo de batalha agora é o canibalismo entre as marcas asiáticas

J.R. Caporal

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Eu me lembro bem do barulho das montadoras tradicionais nos corredores de Brasília no ano passado. A Anfavea pediu e levou. A volta do imposto de importação para veículos eletrificados tinha endereço certo. Frear o avanço de BYD e GWM.

As marcas com fábricas locais ganharam um fôlego no papel. 

Sinceramente, uma miopia corporativa clássica, se formos analisar com alguma frieza. Os executivos olharam apavorados para duas gigantes e ignoraram a porta de entrada que havia sido escancarada na base da pirâmide.

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Pouco mais de um ano depois daquelas reuniões tensas no governo, o cenário saiu do controle das montadoras ocidentais. Mais de 20 marcas asiáticas desembarcaram no Brasil. Tomaram um share de mercado que nenhum analista projetava em tão pouco tempo.

A briga real deixou de ser o Ocidente tentando erguer muros contra o Oriente. A guerra de foice agora é entre os próprios chineses, disputando palmo a palmo o asfalto brasileiro.

A mecânica da nova invasão

A dinâmica de importação atual não é marketing. É um choque brutal de oferta desenhado sob medida para esmagar margens alheias e comprar território rápido. No início da ofensiva asiática, o discurso focava em tecnologia, telas digitais enormes e eletrificação premium.

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Tentavam provar status. Agora o produto é o carro urbano de entrada e o SUV compacto. O volume puro e pesado. A demanda nesse segmento é extremamente elástica. Baixou o preço, a venda acontece na concessionária.

Leia também: A invasão asiática e a guerra de preços: o novo desenho do mercado automotivo

É aqui que a estratégia de custo de capital agressivo se impõe. As matrizes na Ásia subsidiam a operação local para ganhar escala. O programa MOVER pavimentou essa via expressa.

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Especialmente ao criar condições favoráveis que fisgaram taxistas e motoristas de aplicativo. Esse profissional faz a conta do TCO (custo total de propriedade).

Se a matemática de aquisição, manutenção e gasto com energia fechar melhor do que a de um motor flex tradicional. A frota simplesmente migra. E está migrando numa velocidade que impressiona.

Dados e reflexos no asfalto

Não temos um número purificado de vendas segmentadas apenas para motoristas de aplicativo, a base de dados do setor ainda mistura os canais. Mas as estimativas de emplacamentos não mentem.

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Se há dois anos um elétrico ou híbrido de entrada beirava os duzentos mil reais nas lojas, hoje temos opções empilhadas na faixa de R$110 mil. Marcas novatas jogaram os preços no chão.

BYD e GWM agora precisam defender o espaço conquistado contra conterrâneas que operam com margens ainda mais espremidas.

O impacto imediato na economia real bate no estoque físico. Os portos do Espírito Santo e de Santa Catarina ficaram abarrotados de veículos importados nos últimos meses.

Oferta em excesso força os preços para baixo em toda a cadeia. O mercado de carros usados é o primeiro a sentir o soco no estômago. Fica quase impossível para um lojista independente precificar um hatch seminovo europeu ou americano quando um modelo asiático zero quilômetro com cinco anos de garantia custa praticamente o mesmo valor.

Leia também: O que avaliar antes de comprar um carro chinês

As grandes locadoras de veículos também recalculam a rota aos tropeços. A depreciação da frota, que já machucou os balanços recentes dessas companhias, ganha um novo componente de risco.

Se o preço do carro zero cai forte na ponta do varejo, o valor residual do ativo da locadora derrete na mesma proporção. As grandes redes de concessionárias entenderam muito bem o recado.

Grupos fortes que antes operavam apenas marcas consolidadas estão realocando capital pesado para abrir lojas das novas entrantes. O dinheiro não tem fidelidade.

Quem captura valor e quem sangra

Potenciais vencedores incluem o consumidor final pessoa física, os grupos de distribuição ágeis que diversificaram o portfólio rápido e a rede de importação independente de autopeças.

Potenciais perdedores englobam as montadoras tradicionais que dependem da venda de carros compactos com margem esticada. 

Leia também: O dilema das montadoras tradicionais frente à invasão chinesa

E o varejo de usados descapitalizado. O risco de uma reprecificação violenta no estoque de seminovos é iminente.

Sinais no radar

Para entender a velocidade dessa transição no setor automotivo, precisamos monitorar indicadores puramente práticos:

O mercado brasileiro virou o laboratório global de sobrevivência das montadoras asiáticas. Acontece que nem todas dessas mais de vinte marcas vão ficar por aqui a longo prazo. A guerra de preços atual é predatória por desenho.

Uma seleção natural forçada pelo excesso absurdo de capacidade produtiva ociosa nas fábricas da China. O piso estrutural de preços dos carros de entrada no Brasil caiu de forma permanente. 

Para o investidor atento, o foco da próxima temporada de balanços deve estar nas linhas de depreciação das locadoras de capital aberto e nas margens operacionais dos grupos de varejo listados em bolsa.

O resultado financeiro dos próximos anos será definido por quem conseguir navegar nesse choque de oferta sem ficar com o pátio cheio de sucata financeira.

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J.R. Caporal

Com vasta experiência e tradição no segmento automotivo, a família do Caporal está envolvida nesse mercado desde 1941, quando seu pai iniciou na indústria automobilística. Caporal atuou por 12 anos na logística e transporte de veículos, foi concessionário Honda de Motocicletas até 1993, e trabalhou diretamente em vendas, peças, serviços e administração. Atualmente, seu foco é aperfeiçoar processos para aumentar a fidelidade e satisfação dos clientes através de estratégias de vendas e marketing, tendo introduzido o conceito e os sistemas de CRM e BDC nas concessionárias brasileiras. Ocupa o cargo de CEO da MegaDealer e é Presidente da Auto Avaliar, além de ser parceiro estratégico da World Shopper.