A perdição do bolso, da alma e do corpo

As baladas são para os jovens de hoje em dia um desafio do bolso, da alma e do corpo. Muitos jovens estão perdendo essa guerra.

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A depressão é apontada como a doença do século XXI. Por que, se nunca tivemos tanto conforto material como hoje? Uma das razões é que nos acostumamos a querer viver em um estado de alta performance 100% do tempo. Alta performance significa ter um estilo de vida sedutor: sorrisos no facebook, frequentar os mais requintados restaurantes e festas, carros de alto padrão, roupas de marca. Qualquer desvio desse estilo de vida pode significar fracasso para muitos, como se esse estilo de vida separasse os vencedores dos perdedores.

Um dos locais onde a necessidade de alta performance é gritante são as festas, ou “baladas”. Hoje elas incluem jovens de 15 anos ou menos até adultos de 35 anos ou mais. Não há nada errado em frequentar festas, afinal trata-se de um ambiente de convívio divertido, sobretudo para uma pessoa solteira. O problema é o padrão vicioso criado pelas baladas da atualidade. Esse padrão vicioso tem contribuído para destruir financeiramente e fisicamente o futuro dos jovens dos tempos modernos.

O primeiro (e talvez mais gritante) vício das baladas é o álcool. A preferência é por bebidas de alto teor alcoólico (vodka e whisky), misturadas com estimulantes à base de cafeína e taurina (os energéticos). Dado o preço dessas bebidas na balada, seu uso pode causar enormes danos financeiros, que só não são maiores do que os danos físicos e mentais causados pelo álcool, deteriorando o fígado, neurônios e o corpo em geral. O principal motivo desse comportamento é simples: atingir uma alta performance e interagir de forma mais descontraída.

Ou seja, utiliza-se de algo prejudicial à saúde e ao bolso para que se possa fugir de si mesmo, tornando-se outra pessoa por algumas horas. É a rendição ao prazer imediato, a venda da personalidade. Como diria Descartes: “Felicidade ilusória frequentemente é mais valorizada do que tristeza genuína”. Vale mais estar alcoolizado, mas engraçado e confiante, do que ser uma pessoa sóbria e autêntica. E a recompensa imediata é tão grande que muitos recorrem a outros tipos de drogas, como os modernos anfetamínicos, que incluem a bala, ou ecstasy, entre outros.

O ambiente de festas tem outras curiosidades. A vestimenta é quase uniforme tanto para homens quanto para mulheres. Os homens vestem jeans e sapatênis. Um visual comum é de topetes espetados, tatuagens e músculos tonificados com anabolizantes, todos remetendo em um nível inconsciente à agressividade e virilidade.

O look feminino inclui principalmente vestidos ou saias e blusas, variando em comprimento e tamanho conforme a personalidade da mulher. Há aquelas que optam pelo chamado vestido “embalado a vácuo”, referência a designs extremamente apertados. Assim como os músculos masculinos, isso representa um retorno aos instintos mais primitivos de sedução.

As festas ainda são divididas em classes, havendo diversos tipos de acessos VIPs, os quais custam caro. Homens costumam bancar os camarotes VIPs e convidar mulheres para que os frequentem.

Há o caso de festas mais luxuosas, como as festas ao pôr do sol (sunset parties). Essas, por serem à luz do dia e à beira de lagos ou rios, permitem o acesso via lanchas e iates, o que concede ainda maior status a seus frequentadores.

A essência de cada pessoa passa despercebida em meio a tudo isso. O que vale é aparentar, demonstrar poder e capacidade de sedução.

Como é possível atingir esse estado de glamour e depois voltar para a vida real? Em uma noite o jovem está em estado de euforia, acelerado com drogas, em ambientes luxuosos, interagindo com pessoas também eufóricas e esteticamente produzidas. No dia seguinte seu corpo está debilitado devido à absorção de substâncias lesivas ao corpo, seu metabolismo está desregulado e incapaz de aproveitar atividades simples do dia, como esportes, e seu bolso acaba de levar um grande prejuízo. É possível voltar à vida real, ser autêntico, sóbrio e aproveitar as coisas simples da vida? Para muitos não.

Os jovens de 15 a 30 e poucos tem um grande desafio pela frente: enfrentar as festas da sua juventude com autenticidade e sobriedade, aproveitando a vida sem destruir seu corpo, sua alma e seu bolso. Muitos estão perdendo a guerra. A sociedade sofrerá com isso, mas ninguém sofrerá tanto quanto o próprio jovem.

Wilson Marchionatti