Manifestações de Protesto

O governo, a imprensa, os analistas políticos e muitos formadores de opinião estão confessando (por palavras e também pelo silêncio) uma enorme dificuldade de compreender as manifestações de protesto que tomaram as ruas brasileiras nos últimos dias. Palavras como "surpreendente", "inesperado", "inexplicável", "sem foco" e muitas outras aplicadas ao movimento já viraram lugar comum no amplo noticiário jornalístico que cobre os protestos em todo o Brasil.

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O governo, a imprensa, os analistas políticos e muitos formadores de opinião estão confessando (por palavras e também pelo silêncio) uma enorme dificuldade de compreender as manifestações de protesto que tomaram as ruas brasileiras nos últimos dias. Palavras como “surpreendente”, “inesperado”, “inexplicável”, “sem foco” e muitas outras aplicadas ao movimento já viraram lugar comum no amplo noticiário jornalístico que cobre os protestos em todo o Brasil.
Nessa perplexidade geral afloram, pelo menos, três coisas que não deveriam surpreender ninguém: a existência de um clima de insatisfação generalizado em um amplo estrato da sociedade (já consolidado muito antes das vaias ouvidas no Estádio Mané Garrincha); a crise da representatividade (com os manifestantes refutando a participação de partidos políticos e antagonizando as lideranças formais de todos os matizes); e os atos oportunistas de vandalismo, depredação e saques, paralelamente a confrontos mais radicais com o aparato policial (que sempre acontecerão em movimentos com as dimensões deste que alcançou pacificamente as ruas brasileiras).
 
A alternância das linhas editoriais e a revisão das opiniões jornalísticas nos programas noticiosos – que incluíram desde manifestações entusiasmadas pela eclosão dos protestos até destaques ridicularizando a pequena importância relativa do aumento tarifário do transporte urbano – testemunham a dificuldade de compreensão da real natureza do movimento. No entanto, essa incompreensão não deve obscurecer o nosso raciocínio e nem impedir que façamos as escolhas certas e adotemos as opções mais sensatas. Melhor do que comemorar “o despertar da consciência nacional” diante de problemas graves, teria sido a inexistência de motivos para que os protestos eclodissem. Mas, alcançado o ponto atual, melhor que se compreenda logo as origens do movimento e se lhe evite os desdobramentos, solucionando o que puder ser solucionado de imediato. E seria muita ingenuidade supor que as soluções imediatas exigidas restringir-se-iam, exclusivamente, à revogação dos aumentos tarifários no transporte urbano.
Acho importante que se reconheça que um movimento com a dimensão e a intensidade deste que estamos assistindo somente pode acontecer se existir um forte e generalizado sentimento de insatisfação popular, ainda que ninguém lhe verbalize adequadamente a natureza ou a origem. Mas, é evidente que o objeto dos protestos não fica corretamente retratado apenas nos cartazes e faixas que mencionam a corrupção, o custo da construção de estádios, a precária situação dos sistemas públicos de educação e saúde, a existência de 39 Ministérios, a alta carga de impostos e, até mesmo, uma proposta de revisão constitucional em exame pelo Congresso. A insatisfação pode até incluir esses itens, mas é muito mais abrangente do que eles.
É bem verdade que vivemos uma época de conquistas sociais, com a promoção de um grande contingente de pessoas à chamada classe média. Mas, certamente, a insatisfação não está concentrada nesse estrato recém-promovido. Quem está indo às ruas, são aqueles que já pertenciam a esse estrato social, mas que, diferentemente dos recém-chegados, não contam com os mesmos mecanismos de proteção e benefício (vale transporte, sub-sídios diretos, etc.) e que, além disso, já não podem usufruir dos tradicionais recursos de acesso à educação pública de qualidade e de atendimento no sistema gratuito de saúde. Esse grupo menos protegido está, também, exposto a uma perda significativa de poder de compra em decorrência da elevação dos impostos, da inflação e do endividamento forçado. Esse parece ser o núcleo principal dos insatisfeitos. O que pode ser feito, de imediato, para aplacar essa justa insatisfação? Essa, sim, é uma questão de Estado e exige ser encarada por estadistas.

Rubens Menin