Âncora Econômica

Em situações desse tipo, quando eclodem grandes crises nacionais, alguns países perseguem a estabilidade (param de girar) sob o estímulo de grandes estadistas, de líderes carismáticos ou do próprio corpo político existente, desde que devidamente conscientizado e disposto à missão exigida.

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Estamos girando no meio de um turbilhão político e econômico que desorienta a todos, prejudica o país, empobrece as pessoas e transmite insegurança aos cidadãos e às famílias. Não pretendo abordar, neste tópico, as razões e os fatores que nos levaram a essa situação. Desta vez, quero apenas enfatizar a necessidade urgente e imperiosa de que “tomemos tento” conforme recomenda essa deliciosa expressão nordestina. E, além de nos conscientizarmos do tamanho e das conseqüências da crise atual, tratemos logo de buscar um atalho seguro e eficiente para nos firmarmos novamente nos pés e vencermos a adversidade do momento.

Em primeiro lugar, temos que parar de girar nesse turbilhão, estabilizarmos o ambiente político e econômico, e seguirmos, com tenacidade, uma rota firme de retomada do progresso. Em situações desse tipo, quando eclodem grandes crises nacionais, alguns países perseguem a estabilidade (param de girar) sob o estímulo de grandes estadistas, de líderes carismáticos ou do próprio corpo político existente, desde que devidamente conscientizado e disposto à missão exigida.É a chamada âncora política, expressão formada a partir do nome do equipamento náutico, mas que também aqui representa o instrumento necessário para garantir a estabilidade das instituições, das leis e das metas de recuperação. Nesse momento em particular, não vejo no nosso país a disponibilidade imediata dos ingredientes necessários para contarmos com uma âncora política e para os primeiros esforços de retomada da estabilidade.

Em muitas situações, a inexistência de uma âncora política não impede o sucesso de outros esforços para organização do ambiente econômico e para a busca da prosperidade. Em geral, isso costuma se materializar na forma de diretrizes e princípios a serem estritamente observados durante um período continuado. É aí que se encaixam as chamadas âncoras econômicas, destinadas a garantir a estabilidade do sistema econômico de produção e a higidez dos indicadores de desempenho. Aliás, a partir do advento do Plano Real, aplicamos uma bem-conhecida âncora econômica, baseada no equilíbrio fiscal, no câmbio flutuante e no regime de metas de inflação. Também não pretendo abordar, desta vez, as razões que levaram ao abandono desse tripé ou, pelo menos, a sua observância menos rigorosa. O importante é que consideremos, logo, o potencial de estabilidade que pode ser obtido com esse tipo de instrumental e voltemos a restabelecer um referencial seguro.

Evidentemente, o agravamento da crise pôs a descoberto a necessidade de adoção de outros mecanismos, tendo em vista que fomos alcançados por um agravante mais perverso, qual seja, a desconfiança ou o descrédito por parte dos mercados e dos investidores (nacionais e estrangeiros). Por isso, passamos a depender, prioritariamente, de uma âncora de credibilidade. A credibilidade ou a confiança só podem ser alcançadas com a prática continuada de uma política econômica segura, sem tropeções e zigue-zagues, e comandada por agentes competentes e de reputação ilibada. Por sorte, o governo brasileiro escolheu muito bem os responsáveis por essa missão, centrada principalmente nas figuras do Ministro da Fazenda (Joaquim Levy), do Ministro do Planejamento (Nelson Barbosa) e do Presidente do Banco Central (Alexandre Tombini). É esse o time encarregado de nos tirar do torvelinho, recuperar a nossa credibilidade e recolocar a nossa economia no rumo do progresso. Temos que garantir total apoio e respaldo a esse trio de agentes, sabendo de antemão que muitas das decisões imediatas poderão conter disposições impopulares, quebra de benefícios exagerados e corte de gastos. A classe política nacional e o nosso empresariado não podem se dar o luxo de bater de frente com o time que foi escalado. É isso, ou continuar girando para o centro do vórtice.

Rubens Menin