A Física, a Inércia e a Economia

Como engenheiro, recorro com freqüência aos modelos gráficos, às formas geométricas e aos conceitos da Física para organizar meus pensamentos ou para visualização de fenômenos econômicos ou sociais em analogias heurísticas de fácil percepção. É um hábito natural na minha profissão.

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A crise político-econômica nacional virou o assunto do dia e vem sendo comentada ou discutida por um número cada vez maior de brasileiros. Essas abordagens são muito variadas e costumam externar as preferências ideológicas de cada pessoa, o maior ou menor nível de conhecimento desses mesmos interlocutores e, até, o grau de esperança ou otimismo com que vêem o futuro. Mas, alguns modelos simples podem ajudar na organização das idéias e na objetividade do raciocínio. Como engenheiro, recorro com freqüência aos modelos gráficos, às formas geométricas e aos conceitos da Física para organizar meus pensamentos ou para visualização de fenômenos econômicos ou sociais em analogias heurísticas de fácil percepção. É um hábito natural na minha profissão.

Com esse viés, vejo a economia brasileira (e a de qualquer outro país ou região) como um sistema complexo e pesado, posto a movimentar-se pelo esforço de todos os agentes envolvidos (empreendedores, consumidores, governo e a sociedade em geral). Gosto de comparar a economia a uma bola de chumbo.Desde que o País passou a se organizar – ainda nos tempos de colônia – essa bola passou a crescer e a se movimentar segundo as leis da Física, até atingir as dimensões e a velocidade atuais (uma bola de chumbo tanto maior e mais pesada quanto maior e mais complexa fica a nossa economia). Todo acréscimo de velocidade nesta bola (crescimento do PIB) resultou de um esforço equivalente por parte dos seus agentes econômicos. Quando o esforço total diminui até ficar apenas igual ao atrito (e outras formas de perda de energia) que a bola tem que vencer, o sistema mantém a velocidade inercial de antes, sem crescimento. Abaixo desse limite crítico, a bola vai perdendo a velocidade, materializando uma situação de recessão, com perda de renda e empregos e com a diminuição do PIB.

Segundo essa analogia, a redução na velocidade da bola pode resultar da diminuição conjunta dos esforços dos agentes (menor contingente de trabalho, queda de produtividade, redução dos investimentos, etc.) ou do aumento da resistência ao movimento, consumindo esforços não produtivos (excesso de burocracia, hipertrofia da máquina pública, insegurança jurídica, crescimento da carga tributária, etc.), ou, ainda, da conjunção dos dois tipos de fator. Da mesma forma, quando a velocidade da bola diminui, a perda da quantidade de movimento anterior, que deveria ser mantida pelas simples condições inerciais, resulta no desperdício de energia materializada no desemprego, na redução de salários, nas perdas de renda, na fuga de capitais, em empreendimentos paralisados, etc.). Essa é a situação da realidade econômica nacional, que posso ver atualmente por esse modelo de analogia física.

Aliás, para não fugir da Física, costumo associar o crescimento absurdo da resistência ao movimento, causado entre outras coisas pelo excesso de regulação, de burocracia e de intervenção governamental nos mercados, ao fenômeno da entropia, que segundo as leis da termodinâmica, descreve o crescente estado de desordem do sistema e de sua vizinhança, diminuindo a espontaneidade dos movimentos úteis.

Temos que modificar esse panorama com rapidez, aumentando a eficiência do nosso sistema produtivo. Vejo, pelo menos, dois obstáculos mais significativos: a falta de confiança (interna e externa) e a ausência de uma forte liderança política capaz de empolgar a nação e se identificar com o objetivo da volta do crescimento econômico. Esse último obstáculo é especialmente complicado, tendo em vista que os governantes recém eleitos estão imobilizados pelo quadro nefasto da inflação descontrolada, da falta de atratividade para investimentos, dos juros estratosféricos, da perda acelerada de empregos, da queda na renda média e dos escândalos de corrupção na maior empresa estatal brasileira. Mas é preciso resolver esse impasse, com eficiência e absolutamente dentro das regras democráticas. É o mínimo que devemos fazer, não apenas em nosso próprio interesse, como também por ser um tributo devido a todos aqueles que se esforçaram, por gerações, a empurrar a bola garantindo-lhe o movimento positivo, enquanto ela crescia, ficava mais complexa, oferecia mais empregos e garantia rendimentos maiores.

Rubens Menin