Você investiria em um fundo de “meme”?

Os casos da Gamestop e da Dogecoin requerem estudos que, em algum momento do futuro, determinarão mudanças significativas nos atuais modelos de investimento.

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Pois é. A pergunta é essa mesmo do título do texto. Você colocaria um pedaço do seu dinheiro em um fundo que tivesse como teoria de investimento acompanhar memes, investindo em algo que pudesse ganhar valor com eles?

Conversando com amigos durante a semana passada, essa questão surgiu e me fez refletir sobre seus vários ângulos. Compartilho com vocês essas reflexões.

As teorias de investimento nos últimos anos têm dado cada vez mais importância a fatores comportamentais na formação dos preços dos ativos – e a questão do meme é um pilar fundamental disso.

Cada vez mais, as pessoas mais estão conectadas. O que começa como uma brincadeira toma proporções inimagináveis. Alguns colocam isso sobre o guarda-chuva de “efeito rede”, outros sob teorias comportamentais. Mas a verdade é que basear investimentos somente em análise de dados da empresa, e do mercado que ela atua, deixa muita informação importante fora da análise.

Recentemente, o mundo viu dois episódios que demonstram isso: o da Gamestop, no mercado financeiro tradicional, e o da Dogecoin, no mercado cripto.

O primeiro foi um movimento de manada, que se iniciou nas mídias sociais e fez com que essa ação, que antes era pouco conhecida e tinha pouquíssima liquidez, tivesse uma alta estratosférica e aparecesse durante alguns dias entre as ações mais negociadas dos Estados Unidos, batendo Amazon, Apple e várias outras.

A Gamestop, que no início do movimento estava sendo cotada a US$ 16,00, chegou a bater US$ 340,00 e, quando escrevo este artigo, está sendo negociada a US$ 160,00. Tem fundamento esse preço atual? Talvez tenha, talvez não.

Mas o ponto aqui é que essa alta, que hoje mantem a ação em um preço 10 vezes maior que o valor do início do ano, não ocorreu por conta de um resultado melhor, de uma parceria, de uma compra de outra empresa. Aconteceu porque houve um movimento social, nas mídias sociais, para que isso acontecesse.

No caso da cripto Dogecoin, a história tem várias semelhanças. A começar que ela recebeu bastante atenção e publicidade de uma das pessoas mais ricas do mundo, Elon Musk. Em várias situações, o dono da Tesla fez referências à criptomoeda em suas publicações no Twitter.

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Essa cripto surge de uma brincadeira com a ideia de deixar as iniciativas cripto mais divertidas e tem como mascote um cachorro que é fonte de inúmeros memes.

Outra semelhança com o caso da Gamestop se dá pela quantidade de grupos, memes e vídeos sobre a Dogecoin que hoje existem. Dê um google e veja.

Com toda essa publicidade, a Dogecoin, que surge como uma brincadeira, hoje tem um valor de mercado de mais US$ 80 bilhões, sendo a quarta maior cripto em valor de mercado, segundo o site coinmarketcap, valendo quase duas vezes o Itaú, para ser ter uma referência nacional.

Em termos de preço, a Dogecoin era cotada a US$ 0,007 no início do ano e enquanto escrevo sua cotação ultrapassa os US$ 0,45, após uma queda significativa que ocorreu esse fim de semana por, nada mais, nada menos, declarações do Elon Musk. Mesmo considerando essa queda, acumula uma alta de 63 vezes neste ano. Antes da queda, a alta era de 85 vezes.

O mais curioso é que esses dois casos aconteceram somente nos últimos três meses e em dois mercados bastante diferentes. Um no mercado financeiro tradicional e outro no mercado cripto.

Coincidência? Não acredito. Para mim, esses não são eventos isolados. Eles requerem estudos mais aprofundados que, em algum momento do futuro, determinarão mudanças significativas nos atuais modelos de investimento.

Quanto à minha resposta à pergunta do título, a resposta seria um enorme SIM. Gosto de investimentos muito assimétricos e esse é um deles.

Acompanhar as mídias sociais e investir com base nisso me parece fazer muito sentido, mesmo que, as vezes, o item de investimento seja uma brincadeira com um cachorro de meme.

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Um ponto importante nesse tipo de investimento é o timing de entrada. Como a “exponencialização” é muito rápida e depois, em geral, há um retorno à média, ter mecanismos para determinar pontos de entrada e saída são cruciais. Eu me aprofundaria em saber como o fundo trabalha isso antes de fazer o investimento.

Outro ponto obvio é que não faz sentido colocar grande parte do patrimônio nesse tipo de investimento. Mas 0,5%, ou um percentual pequeno, não faria mal. A grande surpresa é que, com a assimetria a favor, esses 0,5% podem virar 5% do património num piscar de olhos.

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Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).