Vale a pena investir na Libra, a criptomoeda do Facebook? Entenda como funcionam as reservas da moeda

Em que os compradores da Libra estarão investindo? Qual a rentabilidade esperada? Como a Associação fará para manter a composição dos ativos?

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A Libra, stablecoin criada pela associação liderada pelo Facebook, tem sido objeto de dúvidas e discussões acaloradas em muitos fóruns que participo e, depois de muito ler a respeito e discutir sobre, descrevo aqui o que acredito que será o mecanismo de emissão e destruição de Libras em relação aos seus colaterais.

A Libra será uma stablecoin representativa de uma carteira de ativos. Para facilitar a compreensão, será como a cota de um fundo de investimentos que terá em sua carteira “ativos de baixa volatilidade, como depósitos bancários e títulos públicos em moedas de bancos centrais estáveis e conceituados.”

Estas informações são tudo o que temos de concreto até agora a respeito da constituição dos ativos, mas a partir disso podemos fazer algumas inferências e ter alguns insights de entrevistas e conversas com pessoas da associação ou próximas a ela.

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Se você é novato no assunto e já começou a não entender nada aqui, aconselho que leia esses dois textos (Nove respostas sobre a Libra e Libra- a revolução no nosso modelo econômico) e/ou veja esse meu vídeo do youtube antes de prosseguir.

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A primeira inferência é sobre quais moedas farão parte das reservas da Libra. A maior probabilidade é que a carteira da Libra seja muito próxima à carteira do SDR (Special Depository Recept) do FMI.

O SDR é uma carteira de moedas ponderada pelo peso que essas moedas têm no comércio e no mercado financeiro mundial. A composição atual do SDR tem 5 moedas: dólar americano, euro, renminbi chinês, Iene japonês e libra esterlina, ou, se preferir pelos códigos USD, EUR, CNY, JPY e GBP.

Considerando que o renminbi chinês ainda não é uma moeda totalmente conversível, é de se esperar que ele não faça parte da cesta de moedas. Isso limitaria a associação à compra de 4 moedas (USD, EUR, JPY e GBP).

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Distribuindo-se a proporcionalmente a participação do Renminbi entre as outras teríamos:

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Ou seja, a Libra seria representada por quase 47% de dólares americanos e quase 35% de euro.

Uma outra questão em relação a essa carteira são os títulos que eles comprarão. Está claro no whitepaper da Libra Reserve que os rendimentos dos títulos não serão dos portadores da libra, mas da associação que a administrará. Uma das dúvidas atuais é se isso será positivo ou negativo dadas as taxas de juros atuais.

Considerando que os valores nas moedas acima serão investidos em títulos soberanos de 2 anos dos países emissores dessas moedas, teríamos uma remuneração média de 0,63% positiva (considerei o título de 2 anos da Alemanha no caso do euro).

Isso pode ser considerado uma boa receita aos níveis atuais e, ainda mais, considerando a possibilidade de se ter uma emissão de bilhões de Libras. Para se ter um grau de comparação a stablecoin mais importante no mercado atualmente é o Tether, cujo valor de mercado chega a quase US$ 4,0 bilhões.

Um ponto importante nessa ponderação é que esse valor positivo é muito dependente da taxa de juros americana que hoje é a maior entre as 4 moedas. A Alemanha e o Japão têm hoje taxas de juros negativas.

Usei os títulos soberanos de dois anos por terem ampla liquidez e serem considerados de curto prazo no mercado internacional, além de serem fáceis de consultar no site da Bloomberg, mas considerando que eles podem usar títulos mais curtos e títulos de emissão de bancos esse rendimento pode ser até um pouco melhor, muito embora, eu não esperaria ver muito risco de crédito privado (bancos) na composição da carteira da Libra além do risco que eles já terão que correr por conta da custódia desses títulos no mercado financeiro tradicional.

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Agora que já discutimos os ativos que possivelmente farão parte da composição da carteira da Libra, vamos pensar um pouco sobre os mecanismos de criação e de destruição de Libras. Vale ressaltar que a expectativa é que a Libra só entre em produção no primeiro semestre de 2020.

O arranque inicial será feito por uma capitalização de ativos por parte da associação e a geração de Libras na proporção de 1:1 com os ativos. A partir daí, esses tokens de Libra estarão no mercado e, dependendo da estratégia, podem estar acessíveis para todos comprarem.

A compra será muito provavelmente feita por troca de uma moeda fiduciária por Libras, mas nada impede que seja feita por criptomoedas em breve. Dentre as várias formas de se comprar Libras gostaria de discutir as duas abaixo:

1- Troca de moedas que compõem a carteira da Libra por Libras

Como exemplo, vamos supor que estaríamos dando dólares americanos (USD) para trocar por Libra. A gestão da associação é bastante facilitada pois, parte desses dólares já iriam diretamente para a compra de ativos, e o restante (aproximadamente 50%) iriam para compra de EUR, JPY e GBP e posterior compra de ativos nessas moedas.

Há a possibilidade de compra de ativos nessas moedas em outros países que não nos países emissores delas (Euromercado de dólares, ienes e libras esterlinas, por exemplo) mas isso traz algumas complicações em termos de administração, liquidez e gestão de ativos que não sei se, no primeiro momento, deverão ser tomados pela associação.

Portanto, simplifiquei a questão fazendo com que a associação sempre feche câmbio  e compre os ativos nos respectivos países emissores da moeda.

2- Troca de moedas que não compõem a carteira da Libra por Libras

Esse seria o caso de nós, brasileiros, que estaríamos trocando nossos reais por Libra. A associação receberia reais e precisaria fechar câmbio para remeter esses reais para as 4 moedas participantes da carteira para comprar os títulos em sequência.

Caso esse movimento seja em massa e em países com histórico de moedas fracas isso poderia impactar bastante a moeda local. As pessoas teriam uma facilidade para fechar “cambio” para outra moeda e até para manter reservas em moedas fortes, mesmo sem receberem juros sem receber juros das aplicações dessa moeda.

Vale ressaltar que nos dois casos acima não fiz distinção entre a Associação Libra que gerenciará a Reserva Libra e a carteira digital que permitirá essa troca de outras moedas por Libras.

Na realidade é muito provável que esse parte relativa ao câmbio das moedas para as quatro principais fique a cargo das carteiras ou estruturas adjacentes a elas, e que a Associação Libra já receba os valores nas quatro moedas na proporção esperada ou, pelo menos, em uma das quatro.

Um terceiro ponto é como garantir que o valor da Libra (quantidade de cripto emitida multiplicada por seu valor de mercado) seja igual ao valor de mercado dos ativos que compõem a carteira.

O exemplo mais próximo que temos no mercado tradicional para isso são os ETFs (Exchange Traded Funds) – BOVA11, no Brasil, é um exemplo de ETF. Através deles nós podemos negociar as cotas do fundo no mercado secundário mas, caso haja alguma distorção, como por exemplo, tenha mais compradores no mercado secundário e o número de cotas vezes o valor da cota de mercado fique acima do valor dos ativos que compõem a carteira, há um mecanismo através do qual um agente de mercado vende as cotas, pega o dinheiro, compra os ativos e capitaliza o fundo com esses ativos.

Dessa forma, haverá uma quantidade maior de cotas no mercado, que representa o aumento de ativos no fundo, e isso ajusta para que o valor dos ativos do fundo seja igual ao valor da multiplicação da quantidade de cotas (número de Libras) pelo preço delas.

Além disso, compras significativas de Libras sempre podem ter mecanismo de acesso a emissões primárias diretamente, sem que isso afete o mercado de compra e venda de valores menores.

Do ponto de vista jurídico é um pouco agressivo dizer que a Libra funcionará tal qual um fundo ou ETF, já que, por exemplo, os juros dos ativos não ficarão para os detentores das cotas dos fundos (ou dos detentores da Libra), mas acredito ser esse o instrumento financeiro atual que mais se assemelha ao que será a administração da Reserva Libra no dia a dia.

Abaixo coloco um gráfico de como isso funciona a emissão primária e secundária de um ETF na prática:

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Fonte: https://www.mackenzieinvestments.com/en/investor-education/guide-funds/etfs/liquidity

Bem, já tratamos dos aspectos da administração das reservas, da compra/venda de Libras e do mercado primário e secundário de Libras. Falta agora analisar do ponto de vista de investimentos se ela faz ou não sentido.

Sob a ótica de um investidor, a compra de Libras equivale a comprar a carteira de títulos que a compõem, mas com um fator negativo que é o não recebimento dos juros dos títulos.

Se você chegou até aqui esperando que eu dissesse que vale a pena comprar e que ela terá a mesma volatilidade e oportunidades de compra e venda que o Bitcoin, por exemplo, lamento dizer, mas isso está longe de acontecer.

A lógica das stablecoins é que elas sejam o mais estáveis possível para facilitar transações e adoção pela maior parte da população.

Ao passo que a compra de Libras para prazos longos não seja um bom investimento por conta dela não repassar os juros dos títulos, para operações conjunturais e de curto prazo ela pode facilitar e popularizar a compra de moedas fortes no mercado financeiros.

O acesso a compra de dólares hoje no mercado financeiro brasileiro ainda é complicado e burocrático e, se a compra de Libras for fácil e disponível nos nossos celulares e mídias sociais porque não comprá-la em momentos que o Real esteja se desvalorizando?

Vale ressaltar que essa compra e posterior venda pode gerar ganhos de capital que deverão ser levados à tributação. Mais um desafio para o regulador e a receita federal.

Vejo somente uma única forma de a Libra ser um bom investimento a longo prazo. Um cenário onde ela tenha tamanho sucesso que possa se desvincular da cesta de ativos que a compõem, mas, além de ter muito água para passar debaixo da ponte até chegarmos a essa situação, vale ressaltar que isso teria impactos profundos na estrutura econômica que temos hoje e que tratei em um artigo recente da InfoMoney.

Por fim, espero que tenham ficado mais esclarecimentos do que dúvidas sobre o que será a Libra do ponto de vista financeiro e de investimentos.

As dúvidas sobre como ela funcionará ainda são consideráveis e até por isso que eles colocaram o whitepaper para ser discutido com toda a sociedade mundial para que se chegue a uma estrutura que atenda à maioria dos afetados, se não a todos.

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Contatos Gustavo Cunha: LinkedIn, Facebook ou Youtube.

Gustavo Cunha além desse blog é professor do curso dólar para investidores da infomoney.

Alguns textos que te ajudarão a saber mais sobre a LIBRA e seus impactos:

Discutindo a Libra – Gustavo Cunha & Jeff Prestes – https://youtu.be/nbinblnH9rg

9 respostas sobre a LIBRA – https://www.infomoney.com.br/blogs/investimentos/blog-do-gcunha/post/8405877/9-respostas-sobre-a-LIBRA-a-criptomoeda-do-facebook

Libra: criptomoeda do Facebook pode revolucionar o modelo econômico em que vivemos – https://www.infomoney.com.br/blogs/investimentos/blog-do-gcunha/post/8410049/libra-criptomoeda-do-facebook-pode-revolucionar-o-modelo-economico-em-que-vivemos

Research Binance sobre a LIBRA – https://info.binance.com/en/research/marketresearch/LIBRA.html

White paper LIBRA – https://libra.org/en-US/white-paper/

About LIBRA reserve – https://libra.org/en-US/about-currency-reserve/#the_reserve

SDR definition – IMF – https://www.imf.org/en/About/Factsheets/Sheets/2016/08/01/14/51/Special-Drawing-Right-SDR

Medium – Jeff Colin – Libra Reserve for crypto bozos – https://medium.com/@colin_/libra-reserve-for-crypto-bozos-ea97f73f61fc

How ETFs works – https://www.mackenzieinvestments.com/en/investor-education/guide-funds/etfs/liquidity

Global Bond Yields: https://www.bloomberg.com/markets/rates-bonds/government-bonds/us

Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).