O lastro do dólar é maior do que o do Bitcoin?

Do ponto de vista de lastro físico, os dois são iguais, agora há diferenças quando expandimos isso pra um conceito mais amplo de lastro (ao menos por enquanto!)

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(Pixabay)

A crítica mais comum que vejo ao bitcoin e, consequentemente às criptomoedas, é de que elas não têm lastro, não há nada que garanta sua existência. O que desenvolvo a seguir é uma reflexão sobre essa questão do lastro de uma moeda. Ele existe mesmo? É necessário? Para isso, nada melhor do que usar o dólar, como exemplo de uma moeda fiduciária e o bitcoin representando as criptomoedas. Vamos ao duelo.

Se restringirmos o conceito de lastro a algo palpável, físico, aqui a diferença entre o dólar e o bitcoin não existe. Nenhum dos dois tem lastro em outro ativo físico. Até a década de 70 para havia um lastro físico em ouro para cada dólar emitido, mas desde então não existe mais.

O bitcoin também nasce como o resultado de um software programado para gerá-lo a partir de um processo conhecido como mineração, onde troca-se capacidade computacional e energia por seu token, o bitcoin. Ambos os ativos, dólar e bitcoin, não tem lastro físico.

Agora se expandirmos um pouco o conceito de lastro para algo que dê confiança à moeda/ativo, daí temos que analisar um pouco mais a fundo.

A confiança do dólar está em todo o sistema de controles e regulação, e alguns diriam poder bélico, dos Estados Unidos, país que o emite. E aqui é uma questão de confiança no sistema mesmo. Por isso que o dólar vale mais do que o Real, o Peso argentino, etc, porque todos tem mais confiança nas instituições e regras americanas. E ponto. O “lastro” do dólar vem dessa confiança e nada mais.

A confiança no bitcoin está no fato de que o software que deu origem a ele continue funcionando como sempre funcionou e que não haja nenhum percalço no caminho. Nesse sentido, a rede Bitcoin é, muito provavelmente, a rede com o melhor desempenho de toda a história, pois está de pé em mais de 99.98% do tempo desde sua criação, há pouco mais do que 12 anos, e não teve um único momento em que não estivesse operacional nos últimos 8 anos.

Aqui chegamos em um impasse que é difícil de sair. O dólar tem sua confiança gerada por tudo que está ao redor dos Estados Unidos, e o bitcoin por tudo que está escrito em seu código e que o software desempenha.

A resolução desse impasse passa por uma coisa chamada fé. Ambos os sistemas têm como “lastro” a crença de que as pessoas têm nele. Alguns vão dizer que é mais fácil confiar em um governo, suas regras, sua cultura, outros preferem um software que já se sabe como vai agir e não tem mudanças de rumo pela vontade política de um determinado grupo. Cabe a você escolher em quem confia mais.

Aqui não dá para ser ingênuo e achar que a questão é tão simples como essa (apesar de o ser), porque entram vários vieses que nos humanos temos. Um deles é o conhecido como system justification, que diz que temos uma tendência a defender e dar mais valor ao status quo, e como aqui todos já conhecem o dólar e as moedas fiduciárias há muito tempo, o bitcoin está em desvantagem.

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Se essa questão de que o dólar e o bitcoin tem em sua base a confiança que temos neles ficou muito longe do que entende, aconselho fortemente a leitura do livro do Yuval Harari, Sapiens, que demonstra isso magnificamente quando compara capitalismo e religião.

Por fim, perante o lastro físico os dois ativos, dólar e bitcoin, são idênticos. No que se refere a “lastro” de um ponto de vista mais heterodoxo, os dois se baseiam na fé no ativo e daí acredito que o dólar hoje tenha vantagens por ter mais tempo e ser o ponto de status quo que todos conhecem. A pergunta é até quando.

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Fontes consultadas para esse texto:

99.98% – Bitcoin Uptime Tracker (Network Status Live) (buybitcoinworldwide.com)

blockchain – Has the bitcoin network ever been “down”? – Bitcoin Stack Exchange

List of cognitive biases – Wikipedia

Sapiens (Nova edição): Uma breve história da humanidade | Amazon.com.br

 

Gustavo Cunha

Sócio da gestora de ativos digitais Resetfunds, e do portal de educação Fintrender. Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro, foi ex-diretor do Rabobank Brasil, e está há mais de 5 anos no mercado cripto. Escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É um experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal)