O dilema que todo investidor tem

Um portfólio tem 95% de títulos do tesouro brasileiro de curto prazo e 5% de Bitcoin, outro tem 60% de títulos do tesouro brasileiro de curto prazo e 40% de Bolsa (Ibov). Qual é mais arriscado? Quem é mais agressivo?

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(Liza Summer/Pexels)

Investimentos são feito de teses. Histórias que acreditamos e que vão se confirmar, ou não, no futuro.

Essas teses tem duas grandes vertentes: a história e o comportamento humano. Até a década de 1970, a grande maioria das teorias económicas eram baseadas em analises dos ativos no decorrer do tempo, com a ideia, que é bastante válida, de que o futuro não repete o passado, mas guarda grande similaridade com ele.

Com o desenvolvimento dos computadores e o aumento da capacidade de se analisar dados, começou a se notar que, para efeitos de mercado financeiro, isso não era suficiente. Então surgiram as teorias de finanças comportamentais, demonstrando que nossos comportamentos não são racionais.

Com base nisso, foram definidos os vieses comportamentais, aos quais todos nós, de uma forma ou de outra, estamos sujeitos. Um deles é o viés de inatividade ao ser exposto a muitas opções.

Em cripto, isso é uma constante. Com quase 12 mil tokens diferentes, muita gente acaba não entrando nesse mercado simplesmente por conta desse viés. Como não conseguimos analisar todos, ficamos sempre na dúvida de qual comprar, pois a chance de ter um que será melhor do que o que compraríamos é imensa.

Por outro lado, o FOMO (fear of missing out – medo de perder a oportunidade) faz com que compremos o que mais subiu e que, muitas vezes, tem uma relação de risco-retorno não favorável.

Existem várias formas de se tentar minimizar isso. Uma das que mais uso é focar nas teses de investimento e dar uma importância relativa menor ao preço no dia a dia. E, se formos ver as teses de investimento dos grandes investidores, elas passam um pouco por isso também.

Warren Buffett, por exemplo, investe em empresas com um olhar de longuíssimo prazo. Cathie Wood foca nas teses de inovação, também com um horizonte de longo prazo. E até Ray Dalio não foge muito disso. Todos analisam muito o passado para definir suas teses futuras. Desses três, eu diria que o Dalio é o que acaba tendo uma visão de investimentos de mais curto prazo.

Minha escola de investimentos de tesouraria e fundos no Brasil, infelizmente, sempre teve um olhar muito forte sobre resultados de curtíssimo prazo.

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O resultado mensal, a cota diária do fundo e por aí vai. Analisando hoje, vejo as inúmeras oportunidades perdidas por conta disso.

A indústria de fundos brasileira, especificamente, é uma que sofre muito disso e é afetada imensamente pela questão dos vieses comportamentais.

Mesmo com prazos de resgate cada vez maiores, D+60 ou mais para a maioria dos fundos de risco, o fato de terem cota diária acaba fazendo com que resgates em massa dos investidores em momentos ruins ocorram. Sabendo isso, os gestores impreterivelmente trabalham com um horizonte de investimentos de curto prazo.

Na minha forma de fazer investimentos, atualmente uso muito a ideia de ter uma grande parte deles em segurança (títulos públicos americanos ou até dinheiro parado em conta corrente) e uma outra parte, menor, em investimentos que são considerados de altíssimo risco.

Aqui, dou sempre o exemplo de um portfólio que tem 95% de títulos do tesouro brasileiro de curto prazo e 5% de Bitcoin, e outro que tenha 60% de títulos do tesouro brasileiro de curto prazo e 40% de Bolsa (Ibov). Qual é mais arriscado? Quem é mais agressivo?

Estatisticamente falando, o portfolio que detêm Bitcoin é mais conservador, já que para ele cair 5% em um mês, o Bitcoin tem que ir a zero, o que não ocorreu nos últimos 12 anos. Para o portfolio com Ibov ter a mesma queda, a Bolsa teria que cair 12,5%, o que já ocorreu algumas vezes na história.

O que importa é o percentual do ativo de alto risco no portfólio e não ele estar lá ou não.

Investir em ativos de altíssimo risco requer uma capacidade mental de não ser influenciado pelos movimentos de curto prazo. Aí entra a tese e, onde estão as grandes rentabilidades que alcançamos. Não ficar olhando a tela a todo o momento, sempre focar no que o movimento de curto prazo afeta a tese de investimento de longo prazo, e acima de tudo, ter confiança nessa tese, é essencial.

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Ainda mais quando falamos de cripto, que não só tem uma volatilidade imensa, mas também é 24/7.

Investir um percentual baixo em ativos de alta capacidade disruptiva e que sigam uma tese bem embasada de investimentos, muitas vezes com a história como um bom guia, é a melhor formula para fugir dos vieses comportamentais e rentabilizar os investimentos. Concorda? Qual sua tese de investimentos?

Videos interessantes sobre esse assunto:
Cathie Woods – Investing in disruptive innovation | SingularityU ExFin South Africa Summit – YouTube
Principles by Ray Dalio – YouTube

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Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).