O Bitcoin polui muito como Elon Musk afirmou?

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Essa era a questão amplamente discutida na comunidade em 2017 e que desde então paira no ar. Com a recente declaração do Elon Musk de que a Tesla cessaria o recebimento de bitcoins por seus carros devido ao rápido aumento de utilização de fontes de energia não renováveis no processo de mineração do Bitcoin, essa questão ganha um novo capítulo.

Acho que a primeira coisa aqui é entender o processo de mineração do Bitcoin.

Esse processo, totalmente distribuído, começa com a competição pela resolução de um algoritmo matemático que tem sua dificuldade ajustada de tempos em tempos para que o processo todo de sua resolução, validação das transações que serão registradas e seu registro no blockchain do Bitcoin, dure aproximadamente 10 minutos.

Isso é importante porque demonstra a capacidade do “computador” (ou node como é chamado) para checar as transações de forma rápida e precisa antes de registrá-las e impede que um aumento considerável de capacidade computacional faça com que o tempo de registro dos blocos caia muito, deixando a rede mais instável e insegura.

Outro ponto importante desse processo é que o node que resolve primeiro esse algoritmo, ao checar e criar o novo bloco, ganha duas recompensas: a corretagem que foi paga pelas operações e a criação de novos bitcoins.

Hoje, a cada bloco são criados 6,25 bitcoins, o que dá uma criação de aproximadamente 900 bitcoins por dia, já que os blocos são criados a cada 10 minutos.

Em números atuais, isso significa para todos os mineradores uma receita de aproximadamente, R$ 243 milhões por dia. Não precisa ser nenhum gênio para imaginar que isso se tornou um negócio mega profissional e hoje há mineradoras no mundo onde foram investidos algumas centenas de milhões de dólares.

Esse processo de mineração é dependente de dois pontos quando analisamos ele como negócio: o hardware e o consumo de energia.

Quanto ao hardware, ele é certamente um dos grandes responsáveis pela falta de chips de computador, ou mais precisamente, placas de vídeo, que o mundo se encontra hoje. Esse é o grande custo, ou investimento inicial para se construir uma mineradora.

PUBLICIDADE

O outro, que é o custo variável, é o consumo de energia para rodar todos esses computadores e as instalações onde eles estão, já que a concentração enorme de máquinas gera muito calor e o ambiente, para maximizar sua performance, tem que ser mantido a temperatura baixa.

Bem, chegamos agora ao ponto da discussão. O processo de mineração do Bitcoin consome muita energia? E de onde vem essa energia?

Por ser uma rede descentralizada e autônoma, encontrar esses dados não é tão fácil, mas há um departamento dentro da universidade de Cambridge que se dedicou a estimar isso.

Segundo seus estudos, o processo de mineração do Bitcoin consome anualmente perto de 150 TWh. Isso é hoje o consumo de um país como o Egito ou Polônia, ou, aproximadamente, 30% da energia consumida em 2020 pelo Brasil.

É muita energia? Sem dúvida alguma. Por outro lado, o consumo de energia dos aparelhos elétricos dos EUA que ficam ligados, mas não usados (a TV que fica em modo de espera, por exemplo), é 1,4 vez mais energia anualmente do que o Bitcoin. Incrível o desperdício.

Mas o ponto quando falamos de poluição tem menos a ver com o consumo e mais com a fonte geradora dessa energia. Se for energia solar, hidro ou eólica, e partindo-se do princípio que hoje não há falta de energia no mundo para outras atividades, que mal tem?

Aqui os dados são bem menos precisos. Hoje, algo entre 60 e 70% da mineração de bitcoin é feita por empresas chinesas e, dado a cadeia de energia chinesa ainda ser muito baseada em carvão, é de se esperar que as mineradoras chinesas também o sejam.

Alguns estimam que, durante o período de chuvas, as mineradoras migrem para fontes hídricas, sustentáveis, mas fora dele, a utilização de carvão impera.

PUBLICIDADE

Segundo estudos de Cambridge, por volta de 30% da energia utilizada na mineração hoje viria de fontes renováveis, outros estudos falam de 70%. Mas mesmo utilizando o percentual menor, isso já é o dobro de energia renovável do que a matriz americana tem, para dar um parâmetro.

De qualquer forma, o fato de a maior parte da mineração estar na China, país com uma matriz energética ainda muito dependente de carvão, acaba dando contornos muito mais complexos para essa discussão, que passam por geopolítica, soberania, disputa entre China e Ocidente, protocolos e compromissos para transformar as matrizes energéticas mais sustentáveis que, confesso, fogem da minha expertise.

Minha visão sobre isso é, talvez, mais pragmática. Os mineradores de Bitcoin são os principais interessados que a cripto tenha seu valor crescente e, deixaram há muito de ser pessoas individuais.

São grandes empresas. Com o aumento da pressão popular por uma mineração que utilize fontes mais renováveis isso pode mudar muito esse cenário.

Além disso, o gasto de energia é um fator de custo enorme para esses mineradores, o que faz com que eles estejam sempre buscando fontes mais baratas para gerar energia, e isso inclui hoje fontes renováveis, aumentando o investimento nesse setor.

Vale mencionar que esse processo de mineração do Bitcoin, conhecido como prova de trabalho (proof of work – PoW) é apenas um dos tipos de processo de mineração.

Hoje existem vários outros, como proof of stake (PoS), onde o funcionamento é diferente e consequentemente o consumo de energia também. A rede ethereum, por exemplo, está migrando de um processo de PoW para PoS.

Por fim, gostaria de deixar aqui mais alguns dados e uma provocação.

PUBLICIDADE

Os datacenters do mundo que nos provêm a solução de nuvem para guardarmos nossos arquivos, fotos, vídeos etc., consomem por volta de 200 a 500 TWh por ano e as estimativas quanto a todo o sistema financeiro mundial é de algo entre 3.000 e 5.000 TWh de consumo anual de energia. Dá para comparar com a mineração de Bitcoin? Você me diz.

Onde continuamos a conversa:

Instagram: @Fintrender
Youtube: @GustavoCunhaVideo
LinkedIn: @GustavoCunha
Site: www.fintrender.com
Facebook: @Fintrender
Twitter: @Fintrender
Podcast: Fintechs e novos investimentos

Fontes usadas para esse artigo:

2020-3rd-Global-Cryptoasset-Benchmarking-Study.pdf (blockchainacademy.com.br)
Renewable Energy Will Not Solve Bitcoin’s Sustainability Problem: Joule (cell.com)
How big is Bitcoin’s carbon footprint? (nbcnews.com)
Resenha Janeiro 21 – Claro Final (epe.gov.br)
Cambridge Bitcoin Electricity Consumption Index (CBECI)
How much energy do data centers use? David Mytton
How Much Energy Does Bitcoin Actually Consume? (hbr.org)

Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).