NFTs de obras de arte, cards da NBA e outros colecionáveis movimentam milhões de dólares; entenda o que é e como funciona

NFTs de arte, esportes, games e etc. vão desenvolvendo casos de uso que depois serão incorporados pelo mercado financeiro tradicional - ou até mesmo o substituirão

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Quando, no meu último texto de 2020, coloquei que 2021 seria um ano muito promissor para NFTs (non-fungible tokens), nem eu imaginava que o desenvolvimento seria tão rápido.

Nas últimas semanas tivemos vários exemplos da exponencialidade que esse mercado vem mostrando. Os exemplos são tantos que é fácil se perder entre eles.

Eu destacaria: um vídeo de seis minutos sendo vendido a mais de US$ 6 milhões, obras de arte digitais sendo negociadas a milhões de dólares e a iniciativa da NBA, liga de basquete americana, que movimentou mais de US$ 230 milhões em um fim de semana em negociação de NFTs em sua plataforma Top Shot.

Mas vamos dar uns dois passos atrás aqui para entendermos o que são exatamente os NFTs.

O que são NFTs

NFT é a sigla em inglês para “non-fungible token” – em português, tokens não fungíveis. Dois conceitos aqui carecem de explicação: fungibilidade e token.

Fungibilidade é um atributo de um bem que pode ser trocado/substituído por um outro da mesma espécie, qualidade e quantidade.

Por exemplo, uma nota de R$ 50, um contrato futuro de dólar, um iPhone novo e por aí vai. Todos esses itens podem ser substituídos por outro da mesma qualidade, espécie, funcionalidade e preço. São bens fungíveis.

Já os bens não fungíveis são aqueles que não podem ser trocados/substituídos por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade.

Por exemplo: um ticket com lugar marcado para um show, a obra de arte de um artista, um imóvel, uma carta Pokémon específica e com edição limitada. São itens únicos ou com edição limitada.

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Além disso, imóveis e carros são bens não fungíveis. Você trocaria o seu carro por um modelo idêntico que outra pessoa tivesse usado os últimos anos? Provavelmente não, porque a depreciação seria diferente.

Pelos exemplos acima, e por vários outros que sua imaginação possa ter pensado, dá para perceber que o número de bens não fungíveis no mundo é imensamente maior que o de fungíveis.

A definição de token não é tão fácil pois, dependendo do uso, a palavra tem uma conotação diferente. Mas gosto de definir token, no ambiente restrito de blockchain, como um representante digital de algo, em geral atrelado a um direito de propriedade.

Se você tem um token, significa que tem direito ao que ele representa.

Por exemplo, se tem um token de um imóvel, significa que tem direito à parte daquele imóvel que o token representa; se tem um token de uma criptomoeda, você tem direito a transferi-la para alguém quando e onde quiser.

Vale lembrar que esse token, por ser registrado em blockchain (a imensa maioria utiliza a rede Ethereum), carrega consigo todas as propriedades de descentralização, não necessidade de intermediários na negociação, anonimato e livre negociação.

Temos os NFTs quando os conceitos de não fungibilidade e tokens se juntam. Eles permitem que bens únicos sejam negociados de forma digital entre dois agentes, sem a necessidade de intermediários, além de ser fácil auferir que aquele NFT é ele mesmo.

Isso tem permitido usos em vários segmentos. Vamos a alguns:

NFTs de arte

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Pinturas, vídeos, animações e diversos outras formas de arte estão sendo “tokenizadas”.

Esse movimento começou há alguns anos com uma “brincadeira” com os cryptokitties, “gatinhos” digitais únicos que eram negociados entre as pessoas.

Essa onda foi gigante em 2017 e chegou até a paralisar a rede Ethereum, tamanha a quantidade de negociações.

Um exemplo mais recente é a série de NFTs cryptopunks, em que uma das obras de arte foi vendida em janeiro por um valor equivalente a US$ 750.000. Essa série negocia diariamente por volta de US$ 2 milhões por dia.

Outro exemplo desta semana foi uma arte da cantora Grimes, vendida em menos de 30 minutos por US$ 5,8 milhões.

NFTs de esporte

Aqui o destaque fica para o NBA Top Shot, plataforma de negociação de NFTs da liga americana de basquete. Visto de outra forma, ela é a porta de entrada da NBA no mundo dos colecionáveis digitais.

Nela, podemos comprar desde cards raros (que somente têm uma edição) até outros mais comuns (com até 1.000 edições).

Esses cards, ou NFTs, podem ser estáticos – uma figura/arte de um jogador/evento/situação feito por vários artistas – ou vídeos especiais com as melhores jogadas de determinado jogador, por exemplo.

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Outro exemplo é a plataforma Enjin, que é mais focada em cards relacionados a games, mas que tem expandido para outros mercados.

Aqui entram também os cards de jogadores de futebol. Alguns leitores vão lembrar das figurinhas de jogadores da Copa do Mundo – que valem hoje muito dinheiro por serem raras.

O conceito aqui é o mesmo, só que digital.

E como falamos de um mercado global, os valores acompanham essa magnitude. O marketplace Sorare é o lugar para ir. Lá você encontra os NFTs de vários jogadores.

No momento que escrevo, o NFT mais caro é um do jogador francês Kylian Mbappé, que está à venda por US$ 72.000. Caro? Talvez, mas no meio de janeiro houve uma negociação de um NFT raro do português Cristiano Ronaldo por US$ 100 mil.

Outros NFTs

A criatividade é o limite aqui. Os NFTs estão ganhando o mundo por conta, principalmente, dos dois segmentos acima, mas eles podem ter vários outros casos de uso que serão testados nos próximos anos/meses/semanas.

Entre eles, eu destacaria a parte de games online (que tal poder negociar livremente aquela arma especial que só você tem ou uma “skin” única?). Hoje, esse ambiente ainda é fechado/centralizado. Para negociar esses itens, o que muitos fazem é vender o perfil inteiro do jogador. Mas não deve demorar para vir algo aí.

NFTs vieram para ficar

Sempre acreditei que a tokenização de ativos virá com força. Tenho dito isso desde 2018, mas sempre me referia ao mercado financeiro.

O que essas iniciativas de NFTs mostram é que, dada a regulação do mercado financeiro, a inovação vem mais lentamente nele do que em outros setores.

Com isso, os NFTs de arte, esportes, games e etc. vão desenvolvendo casos de uso que depois serão incorporados pelo mercado financeiro tradicional ou o substituirão.

Uma frase em inovação de que gosto muito é: “gradualmente e, então, de vez” (gradually then suddenly). Os NFTs definitivamente estão no começo da segunda fase. E só no começo.

Para entender mais sobre esse assunto:
YouTube – Introdução do NFT
Texto – NFT explained (em inglês)

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Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).